Santidade

Senhor,
esse ano eu vou
esperar os seus sinais,
vou esperar você dizer
onde eu devo ir,
que caminho,
se direita,
se esquerda.

Não me esquivo mais
a minha maneira.

Entrego o meu caminho,
entrego o meu plano,
entrego o meu sono,
e o meu cansaço

É nos seus braços
que eu vou descansar,
nem falar mais eu quero,
deixo você se pronunciar

Pisa aqui, atravessa lá,
por ali, vem por cá,
olha o perigo, desvia daqui a pouco

Quero o conforto das suas orientações,
não faço mais anotações para o futuro,
me ensina como agir, quando e como fazer,
eu vou viver segundo a sua vontade

Não há alarde, é tudo silêncio e quietude,
sou pequeno e minha incompletude
vem até você

Envolve o meu corpo de carne,
envolve o meu corpo de espírito
você é meu verdadeiro e único amigo
tem compaixão da sua metade,
vem com paixão me presentear
com santidade, com santidade, com santidade…

Três vias

Será que você se interessa por mim
além do texto do poema, da poesia?
será que você se interessa para o além do eu,
do eu-lírico, do poeta?

Será que eu posso,
será que eu tenho autoridade pra isso…
será que eu posso  combinar a obra com o autor?
Será que os meus escritos te inspiram para a vida?

A minha rima, será bendita, será que extrapola
a beleza do texto?
Será que eu e você, tem jeito?

O verso, é pretexto para o texto
que eu desejo resposta,
será que você pode dizer agora:

Lendo meus poemas,
algo mais aflora,
será que já passou pela sua cabeça,
as mesmas perguntas?

Será que a estrofe curta
vai te fazer entender que eu quero
alongar essa história?

Será que eu envio, será que chega ao destino,
serei eu seu melhor remetente, será que a gente
não extravia?

Será que essas vidas se entendem?
a sua, a minha, a literária,
será covardia
um contato de três vias?
inteiro tremor.

Discreto

Discretamente
eu não me aborreço com pouca coisa,
minha alma recolhida, não se acolheu em n’uma outra

Discretamente
vejo tudo passar
todos passam com seus egos,
seus belos rostos,
seus sorrisos frouxos,
seus corpos próprios
seus apegos falsos

Discretamente
minhas vestes não investem
em status social
tudo passa com seus perfumes,
grifes, meias, cuecas, calças,
capas, acatas os rótulos

Discretamente
a gente se sabota
com medo do sonho ser real,
e me desacata

Discretamente,
tudo ganha resignificado,
desdobrado em decepções
desajeitadas que se rasgam
dia a dia

Discretamente,
do jeito que eu te observo,
você não me olha,
não me importa se me vê

Discretamente,
eu vivo dando importância
ao que minha vida pede,
esse ser poeta
se interessa
pelo discreto da vida

Meu sorriso se completa
quando você passa por mim
e quando a gente se dá as costas
em direções opostas
discretas histórias…

Nenhuma cobrança

Você inventou muitas teorias
para se afirmar na prática,
tem muitas respostas na ponta da língua,
e doa hipocrisia de graça

Você sempre comenta que está vivendo a vida,
descobrindo o mundo, diz que está pronto pra tudo,
mas, eu sei que é só fala, fala, fala

De tudo: atitude, falta muito,
e não é nenhuma cobrança,
você insiste em se vender como adulto,
mas, se troca com criança

Faz caridade falsa e se ilude,
achando que pode ajudar o tempo inteiro,
não percebe que cercado por todos os lados,
os outros também, rasteiros, aprendem sós.

De tudo: atitude, falta muito,
e não é nenhuma cobrança,
você insiste em se vender como adulto,
e eu não compro confiança

Você inventou muitas teorias
para ter algum lugar social,
para ser aceito num grupo,
cercado de alguns perdidos teóricos,
pensando ser um achado

De tudo: atitude, falta muito,
e não é nenhuma cobrança,
tem gente que não quer sair da cela criada,
presídio de segurança máxima,
nem recebendo fiança