O colecionador de histórias

A vida de algumas pessoas das quais eu tenho conhecimento dariam boas histórias, se publicadas. Não por motivos comercias, até porque para uso comercial seria muito simples fazer-se interessar por uma história. As pessoas são curiosas por natureza, e se a venda fosse o alvo de colecionar histórias, eu poderia facilmente brincar com essa arma de consumo tão natural que eu não seria acusado de nada. Mas dinheiro não é a minha prioridade em obter histórias das pessoas. Não quero vender a vida delas a ninguém, mas sei saborear bem as suas revelações.

Essas vidas formam um bom livro que me distrai sem que eu mesmo perceba, e quando paro para encarar os fatos já li bastante sobre elas, até mais do que elas já ousaram contar a alguém realmente. Mas nada disso é intencional, e por isso não me há culpa ou remorso.

Eu não leio páginas quando o livro quer ficar na sessão restrita. Mas em todos os casos de que me disponho a ler, as páginas viram sozinhas sob meus olhos; e movido pela curiosidade as leio, e me envolvo como bom leitor.

Uma vez passados os primeiros capítulos, envolvo-me a tal ponto que me torno parte da história contada por cada um. Embora em livros normais eu tenha que esperar a vontade de seu autor em me revelar os fatos e desdobrar seus mistérios, nas minhas coleções de contos pessoais posso seduzir o autor-instante a me desdobrar sua vida com tamanha liberdade que me surpreendo.

Vejo-me não em uma cronologia de enredo, mas em mundo embaralhado em que não obedece nenhuma ordem de pensamento. Para os autores de minhas coleções pessoais, os fatos que ocorreram há 10 ou 15 anos – talvez nos dias em que ela se entendeu por gente – serão interligados no hoje e até no futuro próximo que ela espera que ocorra.

Gosto dessa maneira de ler livros – e da forma inovadora em que eles se apresentam – porque não sei o que virá em seguida e não tenho nenhuma pista sequer para montar em minha mente um tipo de desfecho – se é que possui um. Não tenho as suas feições cara a cara para saber como ela demonstra que está ao me segredar pontos que não ousaria dizer nem a si mesma, mas que acaba apoiando-se em mim para assim fazer. Talvez a forma misteriosa é que as faça revelar-se tão rápida e abertamente.

Eu adoro colecionar histórias de vida.

3 comentários sobre “O colecionador de histórias

  1. Caraca, tu escreve muito bem! E gostei da separação que vc fez entre os livros normais em que tem-se que “esperar a vontade do autor” e os livros que permitem a liberdade e surpresa. Muito bom mesmo!

  2. inanna.flores disse:

    Você escreve melhor prosa do que poema. Muitro bem escrito, bonito o texto.

    E sim, um bom escritor deve conhecer as pessoas – ter experiência. Deve se conhecer, também.

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