Inverso do poeta

Já disse tudo o que queria.
Meus versos você não quis interpretar,
os que quis, não soube;
Eu cometi o ato insano
de me autointerpretar

Você mesmo assim não entende,
ou quer mesmo que eu entre
com a franqueza cega dos apaixonados
que resolvem, calados de razão,
se prestarem ao papel, humilhados,
a oralisar tudo o que bate por dentro

Pior ainda são aqueles loucos,
mesmo depois de escrever,
explicar e dizer, ainda acham pouco

Falta ainda o buquê de rosas,
a carta cheirosa de admiração,
falta ainda a aliança que deseja colocar no dedo,
mesmo que ainda se pague à prestação,
tudo isso jogado fora, negado na contramão

Sem saber, entretanto, que na ânsia de falar
deste ponto de amor, antes de tantas atitudes,
faltou, sobretudo, saber escutar o primeiro não

Sempre bem disfarçado de delicadezas
para não causar estranheza nem constrangimento,
para não deixar para trás a amizade que ao outro
é o necessário somente

Se o coração não fosse tão insistente,
não aceitaria um gracejo de dispensa convincente
como incentivo dos carentes de continuar no erro,
sendo apontado pelos outros como um louco, alucinado,
apaixonado e demente

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