Conta-gotas do ego

A vida me ensinou a ser prático
porque ato falho é essa ilusão
que a dúvida gera, esse não-dizer
que fica subentendido

Hoje não comigo, aprendi vivendo
os poetas vão obedecendo o pedido do coração,
e se sou claro com as palavras escritas,
as ditas não ficam na contramão

Honestamente, não vou dizer pra você
que não quis, se tentei e me permiti…
Valor tem, porque quando acontece o inevitável,
não existe meia verdade capaz de despistar

Não importa quem pegou quem
ou quem vai iniciar a roda da paixão,
importa, coração, o quando acontece,
e se acontece, a vida teve razão

Poeta não chora, não sofre por amor,
sabe lidar com alquimia, a pedra que um dia,
você chamou de coração

Poeta não derrama lágrima,
a água se um dia cair
é pra transbordar a represa
capaz de alagar e alargar a poesia
que festeja a transformação

Honestamente, se um dia quiser falar sério,
mistério não há no poema pra quem sabe ler,
pingos de letras que são pra você
conta-gotas do ego

Poesiará

Aqui é a sua casa, volte sempre
para a casa do poeta, poeme-se na hora certa
com meus versos rasos, flacidez da vida
versos esses, os meus, desafiadores…

Afiadores, suas dores têm reciclagem,
podem ser transformadas em paisagem…
Suas rugas, marcas profundas das experiências,
ah, paciência com os sulcos, beberam muito, muito
do pouco, do jogo rápido dos dias que passam
para todo mundo

Ah, os meus versos raros fazem você
lembrar de fatos, raros retalhos de memória,
agora, poeme-se, poeme-se eternamente…

Mergulhe fundo…

Afogue-se na dor de outrora
que deixou saudade e foi embora…
O que foi dolorido já não machuca a alma,
não está murcha, mas agradecida por ter vivido
os revezes da poesia também que se verbalizará….

Poetou-se, poeta-se, poesiará…

Sub judice

A inspiração me assalta
e me leva tudo, sem protesto,
nem resisto, e me entrego

A palavra já não vive em cárcere privado,
tem a liberdade decretada em semiaberto…
Já estive em segurança máxima,
condicionado a tantos credos

Desde que fui abordado há sete anos,
desde o começo do primeiro poema em dois mil e sete,
eu me disponho a cada novo escrito dar parte do que tenho conseguido,
para o tráfico dos versos incertos

Não compactuo com a violência,
mas se a verossimilhança me der voz de prisão, é o inverso;
fujo com meu poema-rebelião pela pena máxima do coração

E não me cabe punir ninguém, meu bem, não agora,
por enquanto, por agora, durante todos esses anos,
o meliante esteve encoberto desse crime sem pistas,
desse ato lícito quase perfeito,
não me peçam para entregar o cupido,
o culpado desses gracejos

Não me julgue por um nome, por um culpado,
para dar uma condenação,
vou mentir sub judice
e cair assumidamente
em contradição

Sonho de valsa

Estou suspirando por aí,
sem dor e sem peso,
sem fadiga, sem cansaço

Estou suspirando a alegria
muda e contida, porém crescente,
corrente de desejo, ciente do calor,
do beijo que você depositou

Estou suspirando junto com os pássaros,
com as flores que desabrocharam aliviadas,
alguém passou a amar, mesmo que um momento

Pequeno, o som do romântico é qualquer um
que fale de dois, sem fechar a história,
deixando sugerida a hora de voar o pensamento
para o além do escrito e do cantado

Canto emudecido e velado, mas a minha alma dança,
alucinada, descobre passos novos da vida que me puxa,
convida para a dança de qualquer hora, até meio-dia
alegria que me consome uma pausa, sonho de valsa