Valsa

Valsa a sua angústia que cruza as pernas, irada,
valsa a sua insegurança no firme passo acima do salto,
curve-se entre a direita e a esquerda, deixe-se seguir
com seus olhares tão precisos, aterrorizantes
tão impostos, feito frieza que não se deixa fugir

Valsa a sua ira cardíaca no suor tão escorregadio,
que a guerra entre o seu tronco e o meu contato físico
sufoca o seu espartilho, como um golpe para ver quem vence,
mas, o seu leve, leve e traz não se dá por vencido,
sussurra ao meu ouvido que o seu vício é a dança erguida,
arranha a minha carne viva, do pescoço à virilha,
queima viva viúva negra, como água-viva, em azul-turquesa,
como no fundo do mar

Valsa firme, convence sem pestanejar, é dona da cena,
alimenta a própria métrica, o próprio ritmo,
quando a sua dança, não mais dança, mas…
quer matar, quer matar, quer matar
para fechar o espetáculo, que vai…
continua, continua, nua, a me descortinar…

Antecedentes ancestrais

Tudo que me antecede,
a sede, aceite, a prece,
o peso, o sofrimento, a tese,
a dúvida, a culpa, a pele,
os momentos, os risos,
a antiga plebe,
os meus antepassados,
arcaicos, velhos vermes,
aqueles que não entendiam
nada de nada do que acontece,
tudo que me antecede,
a ferida aberta, a dúvida,
aquilo que padece,
o que eu não consegui esquecer,
a febre, o amor perdido,
o que ficou vivo, mesmo morto,
o conforto que não acoberta,
a cobiça, a angústia, a moléstia,
a mordomia, a modéstia,
o alvo que não se acerta,
vida pacata e incompleta,
o sonho, o ano que passa depressa,
o suor que pingou da testa,
a minha história contada como quimera,
tudo que me antecede, aquilo que você desconhece,
padece no seu julgamento, no preconceito,
na palavra que rasga a fresta do tempo
e leva a lágrima a refletir algo antigo,
precede do amigo que você hoje tem,
que fortalecido está hoje
porque sobreviveu ao açoite do tempo,
e aceitou o respeito da vida,
antecessora de outras vidas,
vivas, ainda, dentro de mim

Signatários

Estou aqui para servir,
não às suas vontades,
não aos seus caprichos,
não sirvo aos seus afagos,
nem vivo de agrados,
servindo de pano de fundo,
fruto de ambições mesquinhas,
perdão

A serventia do serviçal,
colocada à prova, ao boçal,
não significa nada, apenas,
piada pronta;

É tanta a necessidade do (re)significar,
sinto-me resignar de reflexão íntima,
da utilidade pública;

Escuta, e desculpa, as minhas falhas humanas,
apresento-me ao erro, e reconheço,
meia culpa;

As pessoas inteligentes,
ditas cultas, um dia escreveram errado,
e assumiram a conduta, fizeram a meia culpa,
equívoco da labuta.

Assinaram abaixo e reiteraram:
quem muito escuta, pouco faz,
mas, acertadamente;
quem muito fala, pouco decide,
e, acidentalmente, erra.

Coloca-se nos devidos lugares,
os pares, signatários.

Do nosso lado

Não olhar o passado
porque ele não mudará,
não olhar o presente
porque é tempo de agir,
não olhar o futuro
porque ainda não é nossa,
olhar pra frente, nem sempre
porque objetivo a gente vive tendo,
mas a vida não é corrida no sentido de vencer,
olhar como, então?
Para o lado que precisa de você,
para a mão fechada que não consegue se estender,
olhar para aquele que não fala,
mas, às vezes, grita, e não entendemos,
olhar para o sofrimento sem pena,
e para alegria sem inveja,
olhar para o humano que nos cerca,
atender àquilo que nos chega,
sem um basta sobre a mesa,
porque pessoas, elas não terminam
como as metas, os objetivos, a própria vida;
pessoas transcendem a matéria
porque ficam, quando, um dia, a vida as leva