Outro olhar

Hoje eu não vou falar dos seus olhos,
nem de sua pele simples, do seu sorriso de menino,
nem dos seus sonhos, não vou falar dos seus lábios,
nem dos afagos que um dia eu sonho em dar

Hoje eu vou falar do ser que sofre,
que se cala quando a dor é grande,
que para, quando o mundo é mais forte,
vou falar das suas mazelas,
do seu choro perdido,
vou falar do seu vício de carência

Hoje eu vou falar das festas sem sentido,
vou falar dos seus falsos amigos, socialmente,
vou falar das provas que você precisa contestar sempre,
do preconceito desmedido que insiste em te colocar em qualquer nível

Vou falar da academia que te suga o corpo, e o intelecto também,
vou falar das suas roupas, dos seus trajes, vou falar dos seus hábitos,
das suas fotos, suas poses, seus caprichos, vou falar de tudo aquilo
que a gente sabe que é o humano construído para se apresentar

Vou falar do seu crachá, do nome social que você escolheu,
hoje eu vou falar da ansiedade que convenceu você de me dizer coisas estranhas,
vou falar da perturbação que não te deixa dormir, te coloca insônia,
vou falar dos homens que você beija, se oferece e cansa das velhas bocas,
dos corpos rígidos e flácidos demais, dos atos que não preenchem mais nada,
dos prazeres que te entristecem depois de vinte minutos.

Eu vou falar a realidade, o humano que sofre na carne, na alma,
eu vou falar com calma e no verso para não te machucar de frente,
eu vou falar de gente: normalmente o poema serve pra amenizar,
para a ilusão e para o utópico, mas, hoje, só hoje
o poema vai cuidar da ferida que eu tento curar
falando dos seus olhos, que não me deixam mentir,
outro olhar

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