Já fiz o pedido

De muitos desejei o corpo,
o rosto limpo, o beijo com gosto,
o estereótipo preferido,
acadêmico do adjetivo gostoso,
olhares provocativos,
pegada certeira, a força primeira,
o refinado sexo, o falo grande e grosso,
o farto ombro, colosso, imaginação completa,
a cútis ereta, a carne rígida, suor fervente,
quis tanto o corpo perfeito, construído no detalhe,
para comer com vontade, som de gemidos, igual os talhares,
mãos e pernas a se contorcerem, como comida que a gente exagera

Nada disso nem quis, nem pude provar,
mas a imaginação é sempre mais apetitosa,
de verdade, eu quero é ficar com quem não vai embora

É por isso que eu te contar,
que desse cardápio do mundo não peço ninguém,
me farto só de olhar, as vitrines de homens que não querem ninguém

É por isso que eu vou te contar,
que desses petiscos não sei me encantar,
não compro, não vendo, nem me alugo a ninguém

O que eu posso falar, se me canso nesse açougue de corpos,
de rapazes tecnológicos dos app de encontros, não busco ninguém

Eu gosto é de me apresentar,
tenho vontade de apreciar,
o caráter, o carinho que ninguém tem,
dá vontade até de voltar para a sinceridade,
a confiança que ninguém tem

Eu gosto é de repetir
aquilo que ninguém tem,
o afeto, a importância não está no lugar,
nem no que eu posso provar,
é aquilo que vem

Que está em falta na mesa do bar,
ausente na fila pão,
aquilo que eu não vou procurar,
sentado do lado de lá,
olhando a sessão

Que está em falta no shopping,
no show e na festa, na boate,
no bate estaca, na fila open bar,
quero aquilo que eu só vou encontrar
no seu coração.

Dizeres

Para quem já não tem mais
cinco minutos de fama,
para quem tem nove mais uns anos de carreira,
o que fazer depois da conquista do sonho?
deixar insones expectativas,
cada um sabe das maravilhas do divã do pensamento,
da consciência tranquila.
Artilharia pesada na palavra, na rima,
o que nos une, nos nivela por cima,
você com suas vozes, seus acordes,
sua palavra até na pintura para despistar,
eu, com o poema, a palavra, crua e fria,
sem escudos, subterfúgios, sem armadura,
apenas palavra nua, sem armadilhas,
para falar, falar e falar,
o que você também sempre quis,
com as suas pirotecnologias…
para dizer, dizer e dizer