Não tenho medo

Não tenho medo do toque suave de sua pele sobre a minha,
não tenho medo dos seus segredos de nostalgia, descoberta linda
não tenho medo do seu passado, que eu não conhecia
não tenho medo de compor o todo seu, entendendo muito mais do que eu gostaria
não tenho medo dos seus olhos fugitivos, nem da sua boca aflita

Não tenho medo, em absoluto
do que queira me dizer,
bem mais do que queira demonstrar
não tenho medo das estrelinhas que me causa,
nem das entrelinhas que não se desvenda em prosa

Não tenho medo das certezas dos sentimentos,
não tenho medo, não,
das suas convicções vazias

Não tenho medo da imediata dúvida,
não tenho medo de casos passados,
não tenho medo dos passos presentes,
não tenho medo de construir o futuro

Não tenho medo de olhares profundos,
não tenho medo do que as lágrimas querem dizer,
não tenho medo da voz embargada, nem dos minutos de silêncio

Não tenho medo de energias pesadas, nem de descobrir o bendito tempo
não tenho medo de esperar o momento, nem de deixar que ele se mostre
não tenho medo de ser sorte, confidente
não tenho medo da gente
e só, não temo

Não tenho medo do termo perfeito,
eu tremo inteiro de desejo,
não tenho medo…

Experiências

De manhã, quando acordo e vejo a janela aberta,
o ar entra, frio e rígido, cortante
perturbando o sonho, o sono anti-compromisso

E a escova de dentes, o olhar perdido no espelho
a pasta que escorre até o ralo, já foge de mim.
Consulto o relógio sem reação, nem sei precisar
se perdi a hora ou não, são tantos vícios

Tudo se confunde no papel
e eu nem sei direito qual é o meu
entre sorrisos fáceis, rasos e tortos
a vida tem as suas regras,
impostas ou me imponho?

É a sala de aula reproduzindo a burocracia
combinações de gente morta, vivendo uma vida vazia
a busca de um pedaço de papel

A mãe que liga e chora calada,
e eu que choro a saudade, distante,
sem me calar, e as lágrimas gritam quentes

Tudo parece ter perdido o sentido
sequer sou filho mais, direito
detesto o meio termo
entre a criança e o adulto,
finjo-me de guerreiro

E quero confundir o mundo,
sabendo que as minhas atitudes
não precisam de roteiro,
sou inteiro, o caos

Os amigos não me visitam mais,
e os círculos sociais aprofundam
o meu desespero

O meu despreparo para o mundo
que não enxergo, cria outro,
paralelo

Sem sentido, minhas emoções entornam,
consumindo até a última gota de consciência
que achava que tinha, tornando-me ilha
de dúvidas, e de líquidos intragáveis

Tudo parece convergir ao transtorno,
tudo parece se entender nessa forma louca
dos meus julgamentos

Busco não me envolver, e de afastamentos,
em separações escolhidas a dedo,
eu me perco a esmo

E não consegui ouvir o cantar dos pássaros de manhã,
nem o cachorro da rua pedindo carinho pelo caminho,
o meu vizinho, ao bom dia, que não respondi

Há pedinte de carinho de afeto quando passo na rua
e eu não meço esforços para correr, para não perder tempo
E evito quem senta ao meu lado, quem troca sorriso
querendo uma caneta emprestada

Na empreitada do viver, eu perdi a sintonia de tudo
só existe a bolha das minhas músicas e dos meus gostos,
meus filmes preferidos, e um – nem sei se tão – querido amigo
capaz de me escutar, quando eu falo pelos olhos
o que minha alma não materializou expressar

Sinto ser lindo, mas não sei se sou
há dúvida onde estou, sobretudo
quando existe o limbo
do viver sem saber quando o caminho
deixará de ser torto

Tonto, eu me mordo
buscando explicações
perdi as ligações de um recém-conhecida
que queria um livro emprestado, dito mais cedo

Certo de que olho com os olhos d’alma
fecho os ouvidos do corpo,
tranco a boca do corpo,
punhos prontos ao soco – de ira

Transcender ao metafísico,
perco o vigor do homem
porque não entendo os pedidos de criança
ainda não realizada

Não devo ser alma penada no mundo,
vagando sem rumo, sem norte,
sê forte sem ser fraco,
é o fato que gera aprendizado.