Ao meu tempo

Tem tempo que o tempo não me visita mais,
que a poesia não me visita mais,
que a inspiração não me visita mais

Tempo que eu não me dedico ao verso,
e, se verso, é para passar ao tempo
que eu tenho tempo pra receber qualquer afago

Afeto, ao tempo eu pedi,
e veio você, em tempo, pra me fazer refletir…
reflexo de tanto tempo sem o uso das palavras,
meu poema emudecido ficou de boca fechada
por não ter nada a dizer

Até que, mesmo assim, a vida, dona de tudo,
do tempo, inclusive, disse-me: Venha por aqui.
Há tudo no seu tempo, e eu te apresento,
o tempo de sorrir

Seu nome, eu prefiro guardar no tempo,
e com o tempo, te descobrir.
Pudera eu ter tempo, e com mais tempo,
não te deixar partir,
sigo em silêncio, dizendo tanto
que ao seu encontro, não me deixe mentir.

Tente, por todo tempo do mundo,
revelar quantos tempos eu escrevi
pra me aproveitar justamente – do tempo –
pra te dizer que eu te quero aqui.

Tempo de…

O pós-moderno,
o tão careta,
tão sem nexo,
tinta na caneta

Bauman com o líquido…
o século XXI tão esperado,
frágil, raso, falho…

Teoria do centro do ego,
desejo que ganhou potência de ato
para deixar sentimentos, certezas,
beleza, relações tão firmes, hoje…
incapazes de se sustentar

Não dá pra deixar pra lá,
que passe batido…
acidente de percurso
que a alma sofreu

Labirinto de sensações, o talvez;
ganhou poderes tão fantásticos, a dúvida;
tem contornos tão fortes, a água;
Tudo escorre entre os dedos,
os laços não existem mais, tão frouxos…

Saudade dos amores rígidos,
eu… falo, que erguido, tinha direção,
hoje não…

Tempo de reticências, do afeto afetado,
das paixões de ontem tão loucas, tão cegas, e fortes,
tão certas, com objetivos e metas, e com sorte, com tempo;
hoje, mero estalo.

O rio de Heráclito no pós-homem da pós-verdade,
afoga todos nós em amores líquidos evaporados…

Tem continuação

Aquele par de canetas que você me deu,
ou aquele DVD que não toca mais por medo,
por medo da memória que o refrão vai me lembrar,
ou aquela camisa que hoje aperta o peito,
o nosso amor azul virou esferográfico preto

Nem vou falar do nosso artista favorito,
ou da emoção de encontrar você sem combinar,
o filme que a gente não terminou de assistir,
de tão ruim nos fez rir – de chorar – o dia inteiro

São essas pequenas coisas, as grandes coisas
que me marcam tão profundamente,
os seus presentes do passado que caminham comigo,
lembrando que a gente continua unido no futuro
mesmo sem nos vermos

São fotos que a gente tirou e eu já retirei
do plano de fundo do celular para não admitir
que o pano de fundo da minha vida é você

Não tenho mais seu número na agenda,
mas, se eu tiver uma recaída,
ou uma dor forte de saudade for contraída,
eu ainda sei discar, sei falar seu nome completo,
e mesmo que não esteja perto, sei sua data de nascimento,
seu signo e ascendência, mesmo que os amigos me digam
que perdi a decência, minha consciência ainda diz
os planos que eu fiz, ainda precisam de conclusão

Esse amor é uma confusão sem sentido,
eu sei que sofro e vivo um vício
feito peça de teatro que cancelamos de última hora

É próprio de quem sente que a palavra dita da boca pra fora,
a alma não registra, que você foi embora, porque tudo ficou,
permaneceu, dilacerou

Em memória fotográfica, não adianta rasgar camisa,
guardar em caixas os enfeites de decoração,
o elefante que fica na estante me lembra:
as coisas queimam em física,
mas, a nossa história tem continuação.

Três vias

Será que você se interessa por mim
além do texto do poema, da poesia?
será que você se interessa para o além do eu,
do eu-lírico, do poeta?

Será que eu posso,
será que eu tenho autoridade pra isso…
será que eu posso  combinar a obra com o autor?
Será que os meus escritos te inspiram para a vida?

A minha rima, será bendita, será que extrapola
a beleza do texto?
Será que eu e você, tem jeito?

O verso, é pretexto para o texto
que eu desejo resposta,
será que você pode dizer agora:

Lendo meus poemas,
algo mais aflora,
será que já passou pela sua cabeça,
as mesmas perguntas?

Será que a estrofe curta
vai te fazer entender que eu quero
alongar essa história?

Será que eu envio, será que chega ao destino,
serei eu seu melhor remetente, será que a gente
não extravia?

Será que essas vidas se entendem?
a sua, a minha, a literária,
será covardia
um contato de três vias?
inteiro tremor.