Discreto

Discretamente
eu não me aborreço com pouca coisa,
minha alma recolhida, não se acolheu em n’uma outra

Discretamente
vejo tudo passar
todos passam com seus egos,
seus belos rostos,
seus sorrisos frouxos,
seus corpos próprios
seus apegos falsos

Discretamente
minhas vestes não investem
em status social
tudo passa com seus perfumes,
grifes, meias, cuecas, calças,
capas, acatas os rótulos

Discretamente
a gente se sabota
com medo do sonho ser real,
e me desacata

Discretamente,
tudo ganha resignificado,
desdobrado em decepções
desajeitadas que se rasgam
dia a dia

Discretamente,
do jeito que eu te observo,
você não me olha,
não me importa se me vê

Discretamente,
eu vivo dando importância
ao que minha vida pede,
esse ser poeta
se interessa
pelo discreto da vida

Meu sorriso se completa
quando você passa por mim
e quando a gente se dá as costas
em direções opostas
discretas histórias…

Nenhuma cobrança

Você inventou muitas teorias
para se afirmar na prática,
tem muitas respostas na ponta da língua,
e doa hipocrisia de graça

Você sempre comenta que está vivendo a vida,
descobrindo o mundo, diz que está pronto pra tudo,
mas, eu sei que é só fala, fala, fala

De tudo: atitude, falta muito,
e não é nenhuma cobrança,
você insiste em se vender como adulto,
mas, se troca com criança

Faz caridade falsa e se ilude,
achando que pode ajudar o tempo inteiro,
não percebe que cercado por todos os lados,
os outros também, rasteiros, aprendem sós.

De tudo: atitude, falta muito,
e não é nenhuma cobrança,
você insiste em se vender como adulto,
e eu não compro confiança

Você inventou muitas teorias
para ter algum lugar social,
para ser aceito num grupo,
cercado de alguns perdidos teóricos,
pensando ser um achado

De tudo: atitude, falta muito,
e não é nenhuma cobrança,
tem gente que não quer sair da cela criada,
presídio de segurança máxima,
nem recebendo fiança

O incapaz

Eu sou o incapaz do século 18
negro escravizado que não viam como gente,
eu sou o incapaz do século 19
criança e mulher, – velho até – da jornada de trabalho absurda
eu sou o incapaz do século 20,
mulher, subjugada, incompetente para o alto cargo
Eu sou o analfabeto do século 21 que assina com os dedos,
sou o deficiente ainda visto como o doente merecedor de cuidados,
subestimado como o coitado da assistência social,
superestimado como o super-herói que venceu,
o exemplo, fora da curva.

Eu sou o começo de luta
que não podia votar,
não podia usar calça jeans,
não podia sair de casa,
não precisava estudar,
sustento que venha de terceiros

Eu sou o que não aceitou
o fato de ser menor ser humano,
fadado ao fracasso social
certo do destino ingrato traçado

Eu sou o incapaz
de aceitar a incapacidade posta
pelos capazes que sempre viraram as costas
do alto de suas concepções de merecimento

Eu sou o incapaz
de aceitar o farelo merecido aos porcos,
doado aos poucos,
pelos próprios incapazes
de ver a vida na sua plenitude

Eu sou o incapaz de não escrever sobre isso,
sou o incapaz de não ter atitude,
aquele grita mesmo, que fala ríspido e rápido
para ver se me respeitam

Eu sou aquele incapaz de engolir a demagogia
dos espaços das cotas de pouca representatividade,
eu sou a incapacidade da arte não decifrada,
eu sou o que não se dava por nada, – e surpreendeu –

Eu sou o esforço que não cedeu,
vencido pelo preconceito – jamais –
prazer,
– o incapaz

Substitutivo de saudade

Gosto de gente que tem caráter,
que fala e sustenta a fala até o fim.
Gente que tem princípio,
quando diz sim é sim,
daqui cinco minutos ou cinco anos
 
Gosto de gente que questiona,
que rebate, que argumenta,
gosto de gente atenta e de olhos abertos,
de gente do tipo esperto, ligado,
capaz de desconfiar das intenções terceiras
 
Gosto de gente parceira
que não vai me jogar na fogueira
na primeira oportunidade
 
Gosto de gente certa por completo,
que não olha o nome do processo,
e fica fazendo média
 
Gosto de gente que erra tentando acertar,
e se assume, e se corrige, e se retrata também.
Gosto de gente que, como ninguém, sabe falar o necessário,
sem ofender, sem criticar demais por puro desprezo,
gosto de gente sem rodeios, que diz o preto no branco,
sem enfeitar, sem os floreios
 
Gosto de gente que não assina embaixo sem ler,
gosto de gente que revisa, sugere, suprime e acrescenta,
gosto de gente que ensina sem arrogância, aprende sem prepotência,
gosto de gente que pede da paciência à clemência sem perder a autoridade,
gosto de gente que fale de moralidade, praticando,
gosto de gente que comenta de impessoalidade sem olhar o sobrenome
gosto de gente, de gente, gente, que assume a figura pública
sem perder a particularidade.
 
Gosto de gente, de muita gente,
de gente que ficou insubistituível
no substantivo saudade.