Início de mim

Antes, milênios em construção,
meu espírito, novo e nobre,
ainda puro, límpido, cristalino,
mudou o tempo e o espaço;

Antes de tudo, em matéria-prima-primeira,
simples e em aprendizado, elemento-comum,
se fez a gênese da existência,
obra ainda a trabalhar, lapidar,
mudou-se para a carne, humana;

Antes do início, – emana o espírito –
a luz da vida, da consolidação do começo,
do ínicio, eu escolhi o cósmos

Solicitei, de caso pensado e de ponto certeiro,
dividir o tempo-vácuo-espaço-momento
no mesmo instante, exato, da sua experiência
divina de vida, divina, de vida, a sua;

Divida comigo o mesmo mistério
daquilo que não sei; do que sempre soube;
do antes, do ontem, do começo, do príncipio,
do tempo-espaço-momento

Contigo quero dividir a partícula do ser,
que acha que vive muitos, e muitos anos,
e não percebe, inconsciente, que participamos
da brevidade do segundo da eternidade,
que não termina aqui

Mas, começa a despontar para o além-matéria,
mas, começa a se abrir, o portal do futuro-e-passado
no momento exato da paixão, escolhida ainda no nada,
no vácuo do nada, do nada, do nada do universo;
ainda quando se preparava o elemento propício
para chamar você e eu, de nós;

Tudo começou do nó que era o projeto eu,
tudo começou do nó que era o projeto você,
nós que nunca conseguimos, a qualquer tempo, dizer não
ao outro, ao outro dessa vida, da anterior, da próxima,
agora, – e muitos antes – e muito além do início-fim;
você e eu, nós, início de mim

Ao meu tempo

Tem tempo que o tempo não me visita mais,
que a poesia não me visita mais,
que a inspiração não me visita mais

Tempo que eu não me dedico ao verso,
e, se verso, é para passar ao tempo
que eu tenho tempo pra receber qualquer afago

Afeto, ao tempo eu pedi,
e veio você, em tempo, pra me fazer refletir…
reflexo de tanto tempo sem o uso das palavras,
meu poema emudecido ficou de boca fechada
por não ter nada a dizer

Até que, mesmo assim, a vida, dona de tudo,
do tempo, inclusive, disse-me: Venha por aqui.
Há tudo no seu tempo, e eu te apresento,
o tempo de sorrir

Seu nome, eu prefiro guardar no tempo,
e com o tempo, te descobrir.
Pudera eu ter tempo, e com mais tempo,
não te deixar partir,
sigo em silêncio, dizendo tanto
que ao seu encontro, não me deixe mentir.

Tente, por todo tempo do mundo,
revelar quantos tempos eu escrevi
pra me aproveitar justamente – do tempo –
pra te dizer que eu te quero aqui.

Tempo de…

O pós-moderno,
o tão careta,
tão sem nexo,
tinta na caneta

Bauman com o líquido…
o século XXI tão esperado,
frágil, raso, falho…

Teoria do centro do ego,
desejo que ganhou potência de ato
para deixar sentimentos, certezas,
beleza, relações tão firmes, hoje…
incapazes de se sustentar

Não dá pra deixar pra lá,
que passe batido…
acidente de percurso
que a alma sofreu

Labirinto de sensações, o talvez;
ganhou poderes tão fantásticos, a dúvida;
tem contornos tão fortes, a água;
Tudo escorre entre os dedos,
os laços não existem mais, tão frouxos…

Saudade dos amores rígidos,
eu… falo, que erguido, tinha direção,
hoje não…

Tempo de reticências, do afeto afetado,
das paixões de ontem tão loucas, tão cegas, e fortes,
tão certas, com objetivos e metas, e com sorte, com tempo;
hoje, mero estalo.

O rio de Heráclito no pós-homem da pós-verdade,
afoga todos nós em amores líquidos evaporados…

Tem continuação

Aquele par de canetas que você me deu,
ou aquele DVD que não toca mais por medo,
por medo da memória que o refrão vai me lembrar,
ou aquela camisa que hoje aperta o peito,
o nosso amor azul virou esferográfico preto

Nem vou falar do nosso artista favorito,
ou da emoção de encontrar você sem combinar,
o filme que a gente não terminou de assistir,
de tão ruim nos fez rir – de chorar – o dia inteiro

São essas pequenas coisas, as grandes coisas
que me marcam tão profundamente,
os seus presentes do passado que caminham comigo,
lembrando que a gente continua unido no futuro
mesmo sem nos vermos

São fotos que a gente tirou e eu já retirei
do plano de fundo do celular para não admitir
que o pano de fundo da minha vida é você

Não tenho mais seu número na agenda,
mas, se eu tiver uma recaída,
ou uma dor forte de saudade for contraída,
eu ainda sei discar, sei falar seu nome completo,
e mesmo que não esteja perto, sei sua data de nascimento,
seu signo e ascendência, mesmo que os amigos me digam
que perdi a decência, minha consciência ainda diz
os planos que eu fiz, ainda precisam de conclusão

Esse amor é uma confusão sem sentido,
eu sei que sofro e vivo um vício
feito peça de teatro que cancelamos de última hora

É próprio de quem sente que a palavra dita da boca pra fora,
a alma não registra, que você foi embora, porque tudo ficou,
permaneceu, dilacerou

Em memória fotográfica, não adianta rasgar camisa,
guardar em caixas os enfeites de decoração,
o elefante que fica na estante me lembra:
as coisas queimam em física,
mas, a nossa história tem continuação.