Não tenho medo

Não tenho medo do toque suave de sua pele sobre a minha,
não tenho medo dos seus segredos de nostalgia, descoberta linda
não tenho medo do seu passado, que eu não conhecia
não tenho medo de compor o todo seu, entendendo muito mais do que eu gostaria
não tenho medo dos seus olhos fugitivos, nem da sua boca aflita

Não tenho medo, em absoluto
do que queira me dizer,
bem mais do que queira demonstrar
não tenho medo das estrelinhas que me causa,
nem das entrelinhas que não se desvenda em prosa

Não tenho medo das certezas dos sentimentos,
não tenho medo, não,
das suas convicções vazias

Não tenho medo da imediata dúvida,
não tenho medo de casos passados,
não tenho medo dos passos presentes,
não tenho medo de construir o futuro

Não tenho medo de olhares profundos,
não tenho medo do que as lágrimas querem dizer,
não tenho medo da voz embargada, nem dos minutos de silêncio

Não tenho medo de energias pesadas, nem de descobrir o bendito tempo
não tenho medo de esperar o momento, nem de deixar que ele se mostre
não tenho medo de ser sorte, confidente
não tenho medo da gente
e só, não temo

Não tenho medo do termo perfeito,
eu tremo inteiro de desejo,
não tenho medo…

Início de mim

Antes, milênios em construção,
meu espírito, novo e nobre,
ainda puro, límpido, cristalino,
mudou o tempo e o espaço;

Antes de tudo, em matéria-prima-primeira,
simples e em aprendizado, elemento-comum,
se fez a gênese da existência,
obra ainda a trabalhar, lapidar,
mudou-se para a carne, humana;

Antes do início, – emana o espírito –
a luz da vida, da consolidação do começo,
do ínicio, eu escolhi o cósmos

Solicitei, de caso pensado e de ponto certeiro,
dividir o tempo-vácuo-espaço-momento
no mesmo instante, exato, da sua experiência
divina de vida, divina, de vida, a sua;

Divida comigo o mesmo mistério
daquilo que não sei; do que sempre soube;
do antes, do ontem, do começo, do príncipio,
do tempo-espaço-momento

Contigo quero dividir a partícula do ser,
que acha que vive muitos, e muitos anos,
e não percebe, inconsciente, que participamos
da brevidade do segundo da eternidade,
que não termina aqui

Mas, começa a despontar para o além-matéria,
mas, começa a se abrir, o portal do futuro-e-passado
no momento exato da paixão, escolhida ainda no nada,
no vácuo do nada, do nada, do nada do universo;
ainda quando se preparava o elemento propício
para chamar você e eu, de nós;

Tudo começou do nó que era o projeto eu,
tudo começou do nó que era o projeto você,
nós que nunca conseguimos, a qualquer tempo, dizer não
ao outro, ao outro dessa vida, da anterior, da próxima,
agora, – e muitos antes – e muito além do início-fim;
você e eu, nós, início de mim

Poesia de homem

Esse poema
Não é sobre o seu sorriso
nem sobre a sua aparência
não é sobre ser bonito
nem sobre coincidências

Esse poema
Não é sobre ser amigo
ou sobre ser romântico
não é sobre os mimos
nem os ritos de concordância

Esse poema
não fala da sua pele branca
ou dos reflexos trêmulos dos lábios
ou da rosa na sua boca
não é sobre o sussurro no ouvido
nem sobre a língua no pescoço

Esse poema
não é nenhum erotismo
daquele mais íntimo ou marginal,
pode ter o falo comprido,
o fardo cumprido, e coisa e tal

Esse poema não é sobre a carne
nem sobre o vício, nem meu próprio umbigo
coisa do homem-animal

Esse poema
vai além do bonito,
da arte, do poema,
da palavra, da fala,
da escuta, da escultura,
da imagem, da imaginação

Esse poema
vai além do pensamento
e da distância,
vai além da ignorância,
do sentimento, do momento
e do vácuo do tempo
que nos faz mortal

Esse poema
é a referência
do mundano mudado
é simples por si só
e complexo por nós dois
e depois, te digo mais

Esse poema
é a liberdade
sublime e adorável
da regra desnecessária
da tentativa sumária de dizer
e vou dizer, que o paradigma não é mais complicado

Esse poema
é muda, é semente,
semente que só a gente
pode ver brotar,
só a gente pode cuidar
e ver paisagem diferente

Esse poema é para nova geração
de homens que têm coragem de ser poesia,
de ser pétala delicada a cair de manhãzinha

Esse poema é para a nova geração de sentimento
do homem que tem liberdade pra dizer a outro homem
com capacidade, “amo sem medida outro homem
para além da masculinidade”

Ao meu tempo

Tem tempo que o tempo não me visita mais,
que a poesia não me visita mais,
que a inspiração não me visita mais

Tempo que eu não me dedico ao verso,
e, se verso, é para passar ao tempo
que eu tenho tempo pra receber qualquer afago

Afeto, ao tempo eu pedi,
e veio você, em tempo, pra me fazer refletir…
reflexo de tanto tempo sem o uso das palavras,
meu poema emudecido ficou de boca fechada
por não ter nada a dizer

Até que, mesmo assim, a vida, dona de tudo,
do tempo, inclusive, disse-me: Venha por aqui.
Há tudo no seu tempo, e eu te apresento,
o tempo de sorrir

Seu nome, eu prefiro guardar no tempo,
e com o tempo, te descobrir.
Pudera eu ter tempo, e com mais tempo,
não te deixar partir,
sigo em silêncio, dizendo tanto
que ao seu encontro, não me deixe mentir.

Tente, por todo tempo do mundo,
revelar quantos tempos eu escrevi
pra me aproveitar justamente – do tempo –
pra te dizer que eu te quero aqui.