Morte ao poeta funcionário público

A moeda matou o poeta,
a inflação, o preço do combustível,
o índice dos alimentos, puxaram a aceleração da recaída,
a alta do padrão de desumanidade, é parte da precificação,
a morte do poeta deu uma aquecida.

A taxa de juros mesmo quando abaixa, corrói;
quando tudo está no controle absoluto do status quo,
a morte do poeta se faz necessária, nessa ancestral hipocrisia,
coisa lendária até, eu diria…

Ah, o poeta que sente e não fala,
a mordaça é um pano de fundo
para uma faca afiada, é guiso,
é rito sumário de um Estado sem rumo,
arruma o funeral do poeta

Que não vê mais graça
no griz dos processos manipulados,
no que é remendado aos fiapos
para manter o orgulho daquele que não confessa,
o fracasso. Não é do poeta, nem da poesia, não.

É do sistema, é do agente público,
do consenso mútuo daquele que não pensa,
só segue sem norte, sem sul, sem leste
farol oeste de patéticas decisões

Daqueles que se vendem por tudo,
funções, gestões sem prumo com a lei,
é morte ao poeta, ao intelecto pateta
de tantos mestres e doutores,
que rasgam seus diplomas, que adoecem:
alugando a dignidade e a honradez

Desce de vez, o caixão
Não sei ser cidadão na cidade
dos muitos sins, poucos nãos, vários talvez,
é o revés do não sei, do não desgaste,
que rasga a parte do poema que versaria sobre princípio,
mas, resolveu falar do fim.

De todos nós, para todos nós,
a se confirmar, ad referendar
a livre manifestação artística
não padece no processo administrativo disciplinar.

Vácuo

No vácuo do tempo
tudo é um estado parado
que não verso mais,
nem de frente se encara

É um movimento solto no tempo-espaço,
é opaco, e sem rumo, o vazio do tempo,
um nada, um vão, é mar seco, e praia sem vento

É o vácuo do sentido literal,
da palavra que não vê fundamento,
é o eco do ethos humano,
a brecha do discurso,
da legislação e do momento

No vácuo do tempo,
sentimento confuso,
não sente nada

É uma faca de dois gumes não afiada,
é a certeza na dúvida, o marasmo,
um fantasma, é a falta de sorte,
é o contínuo não-fim da estrada

O vácuo do tempo é o horizonte no avesso
que se vê de longe, mas, não se sabe o preço.
É a chegada que a gente temia,
o não saber se chegaria… que, de fato, se concretiza
– quando se chega, e não se chega onde –

É o vazio da caneta,
o nada do homem
que nem homem sabe se é

O ego que se diluiu,
o desconforto da falta de fé,
é o vento que ganha espaço,
o nada é o combustível do pé, o nitro
Do avião quebrando a barreira do som,
e o seu som que não me chega ao ouvido.

É o vácuo do tempo,
das embalagens fechadas,
é o nada que quando aberto,
explode na cara

É o termo não descoberto,
o vácuo do significado,
é o sem nexo do movimento,
passo em falso na escada

Perder tudo que não se teve,
o verbo não rasgado, o vácuo do mundo
é o sentido ter mudado, sem rumo

É o amigo que brinca e não toca na mão,
é a sua mão que não segura mais a minha,
o princípio da contradição

O pior dos vácuos da vida,
não é o vacilo que se fez ocupar,
não é o silêncio que fala muito,
é aquele que eu não consigo mais amar…

Vambora

Quem é que te privou do sonho,
que te desanimou um tanto,
quem te fez perder o brilho,
a cor, o tom, o som, a música?

Quem ou o quê, me diga, você!
Foi capaz de esvaziar seus projetos,
parar seu entusiasmo, sua alegria…

Qual sistema, qual forma de organização
desgovernou seus objetivos, quem te fez
perseguido pelo desânimo, pelo fracasso?

Quem é te desfez o direito à felicidade,
tirou o sorriso que você tinha,
tão lindo, tão cheio de vida?

Se for a conta, pague.
Se for o relógio, pare.
Se for o ódio, ame.
Se for decepção, ampare.
Se for o dinheiro, guarde.
Se for a paixão, termine.
Se for a opinião, surdo.
Se for compaixão, muda.
Se for o cansaço, fale.
Se for trabalho, serve.
Se for oração, prece.

Quem é que te deixou de cabeça baixa, ergue!
Você não sai de casa para ser plebe,
foi-se o tempo em que o humano
comprava e vendia o humano.
Se não fisicamente, agora então, menosQ

Menos entrega, menos derrota,
menos julgamento, menos portas fechada.

Sê você e se comporta
como você foi feito pra ser
e incorpora!

O poder que você tem, e jogou fora.
Não deixa ninguém te ditar a vida torta,
você sabe a reta. Pega a reta, a minha mão
e vambora!

Tem continuação

Aquele par de canetas que você me deu,
ou aquele DVD que não toca mais por medo,
por medo da memória que o refrão vai me lembrar,
ou aquela camisa que hoje aperta o peito,
o nosso amor azul virou esferográfico preto

Nem vou falar do nosso artista favorito,
ou da emoção de encontrar você sem combinar,
o filme que a gente não terminou de assistir,
de tão ruim nos fez rir – de chorar – o dia inteiro

São essas pequenas coisas, as grandes coisas
que me marcam tão profundamente,
os seus presentes do passado que caminham comigo,
lembrando que a gente continua unido no futuro
mesmo sem nos vermos

São fotos que a gente tirou e eu já retirei
do plano de fundo do celular para não admitir
que o pano de fundo da minha vida é você

Não tenho mais seu número na agenda,
mas, se eu tiver uma recaída,
ou uma dor forte de saudade for contraída,
eu ainda sei discar, sei falar seu nome completo,
e mesmo que não esteja perto, sei sua data de nascimento,
seu signo e ascendência, mesmo que os amigos me digam
que perdi a decência, minha consciência ainda diz
os planos que eu fiz, ainda precisam de conclusão

Esse amor é uma confusão sem sentido,
eu sei que sofro e vivo um vício
feito peça de teatro que cancelamos de última hora

É próprio de quem sente que a palavra dita da boca pra fora,
a alma não registra, que você foi embora, porque tudo ficou,
permaneceu, dilacerou

Em memória fotográfica, não adianta rasgar camisa,
guardar em caixas os enfeites de decoração,
o elefante que fica na estante me lembra:
as coisas queimam em física,
mas, a nossa história tem continuação.