Regressão

E se eu, antes de pedir ajuda da espiritualidade,
do além-matéria, me lembrasse, sobremaneira,
de que eu, hoje, sou o além-matéria, a própria espiritualidade,
de séculos atrás, antes do agora?

E se eu, antes de pedir auxílio das esferas superiores,
antes de desejar uma direção, orientação do guia,
lembrasse, que já estou em outro caminho diferente,
bem distante do que já trilhei um dia, séculos antes?

Ah, se eu regredisse no meu próprio ser,
nessa própria vida, quanto já aprendi!
Quantos percalços se fizeram dolorosos,
quanta lágrima, quanta angústia, eu venci!

Se eu me lembrasse, nessa vida mesmo – só nessa –
do quanto desejei estar aqui para me redimir de erros imperdoáveis de outrora, ah!
Eu, não me espantaria, se relembrasse o quanto já deixei a punição máxima,
por tantos irmãos que, anteriormente, eu me fiz protagonista no papel de algoz!

Como eu sou tolo! Auxiliando-me em vida, querendo a outra vida, além da matéria,
quero palavra amiga de um guia, espírito de outro lado, de qual lado?
Não existe lado para experiência!

Eu sou a própria ajuda do futuro do meu próprio ontem,
perdoem-me os outros amigos, os meus amigos espirituais,
pelas horas de lamentação, de muitas frustrações não entendidas,
ocupando-me de perturbar outras vidas, lidas de outro ângulo,
quando eu tenho a minha própria…
de ontem, de hoje, de agora, e de amanhã pra cuidar

Eu não quero regressão espiritual,
não quero regredir nessa vida para lembrar de outra,
nem quero antecipar a regressão do futuro para esse instante,
nesse instante, paz e bem, e vamos lá!

Perdão ao tempo que se perdeu no tempo
porque eu não tive tempo para me cuidar…

Resíduos da divindade

Onde mora a paz
senão dentro de mim,
pelo meu caminho,
no meu passo,
pela minha fala,
voz mansa
que alcança
a alma do outro

Onde mora a paz,
senão no meu progresso,
não é no templo,
na circunstância,
no momento

A minha paz,
conhece os nós da vida,
e se diverte,
te recepciona e te recebe
no abraço apertado,
no olhar que ilumina

Irradia o caminho,
a minha paz é um ponto de luz,
não necessita de confirmação,
a minha paz é uma situação
do estado de espírito,
Santo.

Eu sou morada de nada,
daquilo que não se vê,
eu sou morada de reflexos,
raios, feixes de ser
resíduos da divindade

Lastro

Meu ouvido não é absoluto,
mas, sem dúvida, o meu silêncio fala muito,
todas as notas, todos os sons, e melodias

Na minha concentração mora uma ousadia,
mora um mergulho tão profundo e íntimo,
e qualquer vento, qualquer tempo,
assusta

Eu me jogo no lastro do abismo,
e me vigio, e me acho, mesmo
caído e em pedaços

Todos os meus sensores humanos
confundem-se com os meus sentires harmônicos,
e neste momento, paira o indivisível,
e eu saio de mim para provar que não sou
isso daqui que se vê

Não ao tom de voz,
nem essa face cretina,
nem esse tom de pele,
ou a profissão escolhida,
não sou esse nome que você convoca,
nem essa barba postiça,
é o indivisível do corpo e da mente,
o sujeito que você chama de gente,
e eu não sei classificar…

Decodificar

Eu sou a luz,
o que não se vê,
aquilo que tem fluidez

Eu sou o livre ser,
não sei ser matéria,
que me perdoe o invólucro
meu material não cabe aqui

Sou sim, antes de tudo,
o vazio do nada, o imaterial
que escapa sem dar ciência
para a ciência, o que ainda será,
o não aberto…

O descoberto em parte
com uma pequena parcela
do verbo sentir

Que se modifica e se intensifica,
ademais, o que se pode dizer?

Não sou aquele que se pode dizer
sobre o hoje do ontem e do amanhã
dessa vida…

Eu sou luz que se encaminha
para o escuro de pequenos nós do tempo,
ainda que me sinta só no espaço,
no espaço-tempo, sou o que ainda não veio
a canto nenhum do pensar
pois, a própria energia,
do primeiro ser,
não se sabe
decodificar