Insciência

Não deixe que te façam acreditar
não merecer tudo o que tem,
a felicidade que habita em ti
não provém de ninguém

Não deixe que te façam acreditar
na desvalia do ser,
no ato diminutivo de grande existir,
confunda-os, não se confunda com eles

Que a tua grandiosa fonte ainda é vasta,
não se gasta com pequenas castas de seres impuros,
cria teus muros, não se resgata os impuros,
cada um se transforma naquilo que quer

Saiba das tuas verdades, ciente de teu longo progresso,
reverso daquilo que foi o ontem, pronto a ressoar o amanhã,
é vã a ilusão de corrigir o todo,
é pouco o que te dão na mão

Diga não a todo o resto,
é verbo o principal
é ato o fundamento
momento precípuo,
viva, a vida é só instrumento

Cale-se no momento certo,
sê reto, probo e leal
é real o poema, não o verso;
a rima é o adorno da arte,

Arde e queima a tua insciência,
entre o núcleo e a Terra,
e o condutor do destino,
há meras experiências

Habituais

Você não sabe da missa, a metade
ainda que eu cante outros cânticos,
batuque em outras tribos,
profetize em outras línguas,
dialogue em outros ritmos
você não sabe da missa, a metade

Ainda que eu cultue os índios
e justifique os anjos,
ainda que eu veja espíritos,
e movimente as energias da vida,
você não sabe da missa, a metade

Ainda que eu evoque a ancestralidade,
até chegar ao princípio da matéria
e olhe, ao mesmo tempo, para o futuro,
em novas esferas do progresso,
ah, você não sabe

Nem da missa,
nem do culto,
nem da roda,
nem da mesa,
nem das máscaras
da minha tribo,
nem das regras dos planos espirituais,
nem do oriente, nem do ocidente,
que passaram ou que virão

Você não sabe o que eu pesquiso,
o que eu conheço, o que eu sinto,
nem dos avisos dos seres evoluídos
que eu recebo pra tomar um café da manhã

É assim, a intimidade de quem acorda,
de quem convive, de quem dorme e de quem se levanta,
cercado de amigos, de todos os tempos e de todas as formas,
habitais

Devolução

No desenlace da matéria,
no fim da carne e do corpo,
na troca de morada, no novo,
é que quase tudo vem à tona,
reflete na eternidade, prorroga o tempo;

No contexto mais amplo,
revela-se o plano da recente existência,
soma-se os pontos, subtrai-se as experiências;

Na compreensão do quase todo,
um punhado de dezenas de aniversários humanos
é o sorriso simples do espírito,
que não sabe até quando vai viver a ilusão do vício;

Troca a pele, o peso, o sexo,
troca a oportunidade, o emprego, o verbo,
troca o pai, a mãe, a escola, as escolhas,
experimenta até a oportunidade de ser médium;

Comunica por um fio, poucas palavras,
pequenas sensações se manifestam,
imprime as dificuldades, aprofundam-se os méritos;

Nas relações variadas, uns amigos vão e outros vêm,
são trocas por opções que mais convém ao universo
e de dimensões distintas, em tempos impróprios,
a venda nos olhos – da morte – é apenas um marco infra espacial

A relação de oportunidades são escolhas capazes do discernimento,
a vida não espera dos momentos certos, os aprendizados necessários.
a sensibilidade traz a capacidade de antecipar prioridades
e postergar vaidades no tempo certo;

Sábio aquele que não utiliza todas as fichas que tem,
e aprende na intensidade da vida a devolver os créditos que obtém.
Em qualquer mundo, o desperdício precisa ser evitado,
não por escassez de recursos, – o universo é abundante –
mas, pela troca mútua em ser ajudado e ser ajuda aos milhares necessitados

São esforços imensos, os feitos de um projeto cármico,
são espíritos de todas as esferas, os envolvidos, nada é prático.
Até o cordão de prata chegar próximo a pele, o mundo espiritual se revela,
se reverte, inquieta, são muitas mãos terrenas, muitas energias atentas
ao mesmo potencial, autorizações são concedidas, o espírito máximo se aproxima
para a criação, o sopro da vida é muito mais complexo do que mera imaginação.

Re-flexos

Aprender que o sentimento é vivo
e que deixar passar batido é natural,
essência que retém poeira não faz bem,
a alma não deve se prender ao banal

O tempo que o vento sopra,
tudo vira nada na ladeira
do verso perdido

E tudo ganha outra forma
de vida, divida, querida
outrora, imagine só
se viramos pó, não somos nada;
se acabou tudo de uma vez só, nada

E digo mais:

Se insistimos no retorno,
o bem que é bem se faz pouco,
amanhã na imensidão do tempo,
o inimigo é resquício do perigo,
hoje chamo de amigo pra me tornar uma pessoa melhor

Não se prende a alma com coisa pequena,
o cordão de prata que nos amarra à Terra
é vivo, é vida em perigo na matéria,
é luz que recebeu o ultimato das trevas,
a evolução que se espera em quimeras

E se tudo for um ato falho,
um prato raso, um copo meio cheio,
e se alma for um tanto vazia,
se tudo ficar no meio termo,
relativiza e suaviza a vida,
é um grão no pão de centeio

E a estrela não se perde no meio do breu do espaço,
onde ela se vê em escuridão por todos os lados,
não se dá conta que sozinha encaminha luz,
e nós, desse lado, visualizando o macro,
distância anos-luz, estrela solitária uma da outra,
não são poucas, constroem o divino céu