Resíduos da divindade

Onde mora a paz
senão dentro de mim,
pelo meu caminho,
no meu passo,
pela minha fala,
voz mansa
que alcança
a alma do outro

Onde mora a paz,
senão no meu progresso,
não é no templo,
na circunstância,
no momento

A minha paz,
conhece os nós da vida,
e se diverte,
te recepciona e te recebe
no abraço apertado,
no olhar que ilumina

Irradia o caminho,
a minha paz é um ponto de luz,
não necessita de confirmação,
a minha paz é uma situação
do estado de espírito,
Santo.

Eu sou morada de nada,
daquilo que não se vê,
eu sou morada de reflexos,
raios, feixes de ser
resíduos da divindade

Lastro

Meu ouvido não é absoluto,
mas, sem dúvida, o meu silêncio fala muito,
todas as notas, todos os sons, e melodias

Na minha concentração mora uma ousadia,
mora um mergulho tão profundo e íntimo,
e qualquer vento, qualquer tempo,
assusta

Eu me jogo no lastro do abismo,
e me vigio, e me acho, mesmo
caído e em pedaços

Todos os meus sensores humanos
confundem-se com os meus sentires harmônicos,
e neste momento, paira o indivisível,
e eu saio de mim para provar que não sou
isso daqui que se vê

Não ao tom de voz,
nem essa face cretina,
nem esse tom de pele,
ou a profissão escolhida,
não sou esse nome que você convoca,
nem essa barba postiça,
é o indivisível do corpo e da mente,
o sujeito que você chama de gente,
e eu não sei classificar…

Decodificar

Eu sou a luz,
o que não se vê,
aquilo que tem fluidez

Eu sou o livre ser,
não sei ser matéria,
que me perdoe o invólucro
meu material não cabe aqui

Sou sim, antes de tudo,
o vazio do nada, o imaterial
que escapa sem dar ciência
para a ciência, o que ainda será,
o não aberto…

O descoberto em parte
com uma pequena parcela
do verbo sentir

Que se modifica e se intensifica,
ademais, o que se pode dizer?

Não sou aquele que se pode dizer
sobre o hoje do ontem e do amanhã
dessa vida…

Eu sou luz que se encaminha
para o escuro de pequenos nós do tempo,
ainda que me sinta só no espaço,
no espaço-tempo, sou o que ainda não veio
a canto nenhum do pensar
pois, a própria energia,
do primeiro ser,
não se sabe
decodificar

Dá paz

De vez em quando eu me dou conta
que as contas não importam tanto,
nem tantos egos que se digladiam
para ganhar mais um quinhão de mixaria,
furtando, sim, as oportunidades de quem, ainda,
nada tem.

Certo de que cada um vai se cobrar, no futuro,
os juros da própria consciência…
Não perco o meu ponto de referência, a eternidade,
a infinitude de ser um pequeno nada de muitos segundos

De vez em quando o poder humano seduz,
loucura humana de se achar acima da própria alma,
perseguindo o mínimo dos excessos,
preservando o mínimo de decência,
ainda que nada possa fazer, ou quase nada,
Paciência

Para suportar a energia pesada,
o desânimo, a falsidade e a desavença velada,
rumos que a gente não quer,
é preciso respeitar,
Paciência.

A gente só pede o embate,
o compromisso, a energia,
só nos casos em que a sua vida,
de outras vidas sem saída
estiverem sendo prejudicadas
com a última porta fechada

Fora isso, ademais, suporta,
é horda que não sabe o que faz,
nem o que quer…

Podem até ver futuro,
mas, asseguro, não percebem os impactos do caminho,
Paciência.

Para não entrar nas vielas que não valem nada,
nos atalhos do dinheiro fácil que não te compra,
mas, que te vendem.

Não entre, não vale a pena.
A sua estrada é estreita e de muitos desafios,
mas, você sabe o caminho da luz

Muitos pedem carona, não embarcam
nas suas lutas, não querem ajustar nada.
É fácil sorrir e pegar outro vagão
quando o seu desgovernar

Quem te orienta é o céu,
deixem os homens serem réus
e os seus próprios juízes,
assiste sem culpa, sepulta…

A tristeza não vem de você
quando você não intervém, não te cabe,
não é isso que se pede.

Pede, pede prece, por tanta gente,
que tristes – eles – te cobrem
com o cobre que lutaram tanto pra ter
e não reluz

É luz que supera o agora,
atravessa a sua vida,
te revigora.

É luz que se propaga, e não o som.
O que reverbera de verdade é o que você sabe fazer melhor.
Paciência

Espírito que entra no umbral não pode se deixar levar,
espírito que entra no conflito, na sombra, não pode apagar
espírito que cansa de bater as asas, não pode matar a pomba branca da paz,
dá paz, ciência do espírito.