Poema dado

Se eu pudesse me disfarçar
de festa, de sorriso largo,
se eu pudesse dizer que me faço
de abençoado o tempo todo,
que bom seria a vida,
se eu pudesse escolher
o que eu faço e como me sinto.

Mas, na verdade, o sorrir é um mito,
o abraço de amigo tenta confortar,
mas, só eu sei o que eu quero juntar
nesse entrelaçar de carinho

O meu vazio me permite
o falso preencher de contentamento,
mas, por dentro, lamento;
é um mundo obscuro que eu entro,
e me tranco, e me lanço, e parece,
que mesmo em prece, eu não consigo voltar

Se eu falasse o que dói de verdade,
se eu soubesse identificar,
o que está por dentro do corpo,
eu não precisaria me arriscar
a perder a vida, tentando ganhá-la

Essa minha fala, tão simples,
e tão verdadeira…
me sinto a beira do silêncio,
e
vou
me
jogar

Assumo as consequências, e peço clemência
à divindade que me criou, mas, eu não consigo suportar,
que nessa vida, eu não tenho vida, e na próxima,
se houver alguma, eu também não terei,
temerei eternamente o que eu não pude aproveitar

Por isso, responsabilizo o mundo,
sou fraco, querendo ser forte,
e me sinto imundo,
mas, o poema vai me limpar…

O poema vai me benzer,
o poema vai me proteger,
o poema dado foi lançado
pra me demover do não viver,
pra reviver

Curadoria

Sua beleza incomoda a minha íris,
tão chocante é aos meus olhos
que reação não me permite,
o meu corpo te assiste

Paralisado fica todo o meu ser,
a obra de arte que a vida cedeu ao viver.
É um escândalo, que não tenho voz,
perplexidade faz os meus dedos virarem em nós.

Perdoe-me o silêncio,
a falta de palavras,
o contemplar por mero instante,
fui ultrajado pelo tempo terreno,
mas, a minha mente é eterna viajante

Sinto muito até mesmo a desculpa,
tenho que dizer que não é minha culpa,
pelo imóvel que perdeu os alicerces
e desmorona antes da reintegração de posse
consciente.

Para que você fique ciente do tudo que me causa,
quando não me faz nada, obra de arte tombada,
preservo até os escombros desse conto em verso,
conto apenas com a sorte da memória, ora revelada.

Seu corpo, seu cheiro, sua voz,
seu cabelo, seu jeito gentil e veloz,
a minha quietude, minha taquicardia,
minha fala que não saia,
inauguraria, muito antes,
o encontro das duas artes

Curadoria que não curaria
nem metade dos impactos históricos
causados em qualquer tarde.

Solzinho

É meu pequeno príncipe,
minha história infantil preferida,
meu amigo, minha companhia,
meu sincero verso, tão sutil,
tão singelo, meu guerreiro,
combatente, com você sou mais gente,
meu cuidado mais próximo, meu presente,
meu pensamento distante e próximo,
meu elo com a vida, sem solidão.
É meu sorriso mais simples,
meu brinde de fim de dia,
é minha primeira alegria na manhã,
minha ligação de cuidado,
é meu contato, meu comparsa preferido,
é meu abraço, meu abrigo, meu imprevisto,
é meu desejo mutável, meu fardo favorito,
é minha emoção, meu pequeno botão,
meu bordão, meu coração que bate feliz,
é tanto, o meu tudo, meu eco profundo,
meu viaduto para atravessar o escuro,
é passado tão recente, repito, meu presente,
enquanto eu tiver vida, meu futuro,
o amor causa esse impulso, tão parte de mim,
que me sinto seguro, mesmo tão instável,
é o meu silêncio imediato para não chorar no poema,
que diz tanto, na eternidade, sempre seu, sempre metade do Tavares

*Para Hiago Tavares

Depois da vírgula

Para o músico, o maestro;
para o aluno, o professor;
para o poeta, o firmamento;
para o doente, o médico;
para a abelha, a rainha;
para o índio, o cacique;
para o faroeste, o xerife;
para a banda, o vocalista;
para a nostalgia, o tempo;
para o bebê, a mãe;
para o órfão, a tia;
para o esporte, o técnico;
para o pintor, a tela;
para o ator, o diretor;
para o evangélico, o pastor;
para o católico, o Papa;
para o espírita, Kardec;
para stephen hawking, o nada;
para o eu, o verso;
para a vida, a eternidade;
para o escritor, o editor;
para Joelma Vieira, o RJU;
para o convidado, o anfitrião;
para o manobrista, o patrão;
para a canção, o ouvinte;
para o rádio, locutor;
para o empregado, o chefe;
para o colaborador, o líder;
para os livros, bibliotecário;
para o País, o Presidente;
para a mente, psicólogo;
para o carente, o colo;
para o bloco, o mestre-sala;
para a fala, a palavra;
para o ateu, o fim;
para o pijama, a cama;
para o artífice, o belo;
para o desejo, a ação;
para tudo, um exemplo;
desse lado, ou do outro;
para o pouco, o muito;
para o seguidor, liderança;
para os atos, segurança;
para depois da vírgula, confiança;