Poema profundo

Debata-se
Se acaso não se importa,
meu verso abriu nova porta
no sentido de ser poeta

Não é mais assim tão romântico,
como era feito eu, de esperança, num cântico
de amor, eu diria; se platônico, não sei…
A bem da verdade, dava para realizar,
se quisesse.

Mas, agora, na casa em que essa janela se encosta,
outra fresta de luz insiste em me impulsionar.
É a profissão que me cerca, a árdua labuta de quimera,
é o suor, é o salário, é a conta paga,
é o compromisso assumido e cumprido,
palavra dita e fiel, há realidade.

Meu poema, meu bem, tem outro tom,
tem outro cheiro, outro vigor,
o calor subjetivo é concreto,
o pensamento é reto, trocou tudo:
desde o membro ereto, a língua quente

Hoje é tudo simples, e plausível,
palpável, é verdade… que não divaga mais…

Ademais, o vento mudou de rumo;
o coração mudou de prumo;
a alma, mudou de rota…

Ela agora é porta entreaberta,
nem desistiu de sonhar,
nem acordou para realidade,
mas, sabe, desde então, aceitar visita real
e da plebe, não sei de qual mundo mais bebe
– se do amor ou do mundo –
em todos, porém, afoga

Porta ora fechada, ora entreaberta,
afoga-se, sim, queimando a garganta,
inundando o corpo, rasgando as ilusões,
abrindo os olhos da paixão para o cansaço
de ser do mundo de lá – das ideias –
para ser do mundo de cá – das matérias –

Debate-se o novo poema.
Mergulha-se em estrofe.
Afunda-se em cada verso.

Provas

Diga a todos os seus, o seguinte:
adiante, não esqueçam da fé
seja no que quiser, diga a todos:
promova a fé, a esperança,
a autoestima, a confiança

Diga a todos os seus, o seguinte:
não é tempo de tristeza, ou de apatia,
não desacreditem na vida…
porque já houve tempo bom,
o melhor você já viveu e provou,
eis a prova que tanto pedem,
lembrem-se do passado

Mais feliz e mais sereno,
mais alegre e abundante,
lembrem-se dos sorrisos
e da fartura, da fortuna dos homens
não me vale um tostão, não é isso, não

A matéria é boa na matéria,
mas, é hora do espiritual,
é tempo de elevação,
da transição,
da transcendência…
paciência

Elevar-se não é simples, meu caro,
e não se compra, nem se vende,
como insistem em seus templos,
até os ditos mais humildes…
o mais simples de tudo
é compreender que é na falta de tudo
que se faz, do nada, um ser melhor

Visita seus sentimentos,
e seus defeitos, os seus traumas,
os seus medos, a sua vida inteira…
não precisa do corpo belo,
isso é passageiro,
a alma, verdadeira,
conhecerá várias matérias
afim de aprender muitos conteúdos
em várias formas, situações e frentes

Deus é onisciente porque reencarnou
em todas as experiências e viveu
a máxima da vivência, na morte plena;
e, ainda assim, se fez vivo na carne
para mostrar – aos seus olhos –
e se fez vivo – na alma eterna –
para mostrar a sua capacidade
de também ser alma eterna

Poesia de homem

Esse poema
Não é sobre o seu sorriso
nem sobre a sua aparência
não é sobre ser bonito
nem sobre coincidências

Esse poema
Não é sobre ser amigo
ou sobre ser romântico
não é sobre os mimos
nem os ritos de concordância

Esse poema
não fala da sua pele branca
ou dos reflexos trêmulos dos lábios
ou da rosa na sua boca
não é sobre o sussurro no ouvido
nem sobre a língua no pescoço

Esse poema
não é nenhum erotismo
daquele mais íntimo ou marginal,
pode ter o falo comprido,
o fardo cumprido, e coisa e tal

Esse poema não é sobre a carne
nem sobre o vício, nem meu próprio umbigo
coisa do homem-animal

Esse poema
vai além do bonito,
da arte, do poema,
da palavra, da fala,
da escuta, da escultura,
da imagem, da imaginação

Esse poema
vai além do pensamento
e da distância,
vai além da ignorância,
do sentimento, do momento
e do vácuo do tempo
que nos faz mortal

Esse poema
é a referência
do mundano mudado
é simples por si só
e complexo por nós dois
e depois, te digo mais

Esse poema
é a liberdade
sublime e adorável
da regra desnecessária
da tentativa sumária de dizer
e vou dizer, que o paradigma não é mais complicado

Esse poema
é muda, é semente,
semente que só a gente
pode ver brotar,
só a gente pode cuidar
e ver paisagem diferente

Esse poema é para nova geração
de homens que têm coragem de ser poesia,
de ser pétala delicada a cair de manhãzinha

Esse poema é para a nova geração de sentimento
do homem que tem liberdade pra dizer a outro homem
com capacidade, “amo sem medida outro homem
para além da masculinidade”

Ao meu tempo

Tem tempo que o tempo não me visita mais,
que a poesia não me visita mais,
que a inspiração não me visita mais

Tempo que eu não me dedico ao verso,
e, se verso, é para passar ao tempo
que eu tenho tempo pra receber qualquer afago

Afeto, ao tempo eu pedi,
e veio você, em tempo, pra me fazer refletir…
reflexo de tanto tempo sem o uso das palavras,
meu poema emudecido ficou de boca fechada
por não ter nada a dizer

Até que, mesmo assim, a vida, dona de tudo,
do tempo, inclusive, disse-me: Venha por aqui.
Há tudo no seu tempo, e eu te apresento,
o tempo de sorrir

Seu nome, eu prefiro guardar no tempo,
e com o tempo, te descobrir.
Pudera eu ter tempo, e com mais tempo,
não te deixar partir,
sigo em silêncio, dizendo tanto
que ao seu encontro, não me deixe mentir.

Tente, por todo tempo do mundo,
revelar quantos tempos eu escrevi
pra me aproveitar justamente – do tempo –
pra te dizer que eu te quero aqui.