Matuto

Sou chato e sou grudento
o seu carinho eu sustento,
quero você sempre perto,
bem próximo de mim, aguento!

Fiz pra você mais de um poema
e ando prometendo um livro até,
sei que sou homem de muitas palavras,
não sei se você aceita todas as falhas,
mas eu escrevo por uma questão de fé

Para que você acredite em mim
e no quanto eu te amo, sem dúvida,
tanto, tanto, tanto, diga-me, se puder:

Eu sou enjoativo e pegajoso,
sou seu homem virtuoso,
seu príncipe valoroso,
ou, sem definição, é mais gostoso?

Sei que sou repentino e astuto,
das palavras sou um matuto hábil,
busco seu hálito quente e saboroso,
grudento sim, provando do seu gosto…

Espírito da arte

Eu vi o espírito da arte
que paralisou o corpo,
que tocou a alma

Eu vi outros olhos
concentrados no nada
e no tudo, que é a vida

Eu vi o espírito da arte
que colocou homem em outra dimensão,
que cuidou do ser nesse espaço

Eu vi o contato com o além
que ninguém lê, que quase ninguém vê,
que raros tocam, mas ela tocou

Ela estava fora de si
dentro de si, estava
dentro de mim, fora daqui,
fora de mim, eu apenas observei

Eu vi o espírito da arte,
absorvi parte dele
que ela sabe que tem

Eu vi o espírito da arte
e contei para o mundo
eu contei um segredo

Eu vi o espírito da arte,
fiz fofoca pela arte,
faz parte, parte de nós

Catarse de catorze

A energia do ano novo já está crescendo,
vem vibrante e lindo, límpido ao coração.
Paz que bate na porta, que brota, contemplação,
antes que eu desapegue do passado,
meu muito obrigado

Os minutos passam,
dois mil e catorze ou quatorze,
como queiram, vem pé ante pé
dizendo para ir com calma até ele

Não faça muitas expectativas primeiro,
janeiro é apenas uma criança de colo,
e antes que a vida passe e tudo se repita,
mais uma vez, até a chegada do bom velhinho,
precisamos dos trilhos, do caminho, de um futuro
que só nós expelimos, nova idade, novidade.

Pele morta

Pedido de desculpas
devo a você, pele morta,
que vai embora de mim

Que sairá de mim
pelo ralo quando eu…
Eu queria que continuasse aqui
para me que me lembrasse das coisas
de um tempo que passou,
mas permaneceu marcado

Pedido de desculpas
devo a você, pele morta
que suou comigo,
correu comigo
foi na garra agarrada,
até as vitórias,
sentindo o desespero das derrotas

Você que me fez arrepiar,
abriu e fechou seu encanto,
que sorriu comigo, um dia

Pele morta, desculpe
mas você vai embora
com o ano velho

E eu vou reconstruir
tecidos novos
para minha vida

Reconheço

Pela amizade de Igor Calil, nesses dois anos!

Eu reconheço
que tenho
grande habilidade
com a palavra

Reconheço
o apreço
por você,
imensamente

Reconheço
que com ela
posso ser inverídico,
mas não tem jeito

Assim que eu sei me expressar,
e pode até parecer enjoativo,
mas nunca será cansativo,
escrever para você, meu amigo

Reconheço
que sei bem pouco
da vida, da vida,
reconheço, bem pouco

Mas o que é a vida
senão fizer sentido
na vida de outra pessoa

Mesmo que essa segunda pessoa
seja a primeira pessoa
que virou presente de natal

E mesmo que seja contraditório,
reconheço o seu esforço em ser,
muito, muito melhor a cada dia,
mesmo que o natal seja apenas
uma simbologia

Mas eu não cansei de dizer,
e digo mais, outra vez,
pela palavra, pela palavra
eu reconheço que você
deixou de ser só palavra,
coisa bonita só da poesia

Depois que morre fica tudo aí

Depois que morre fica tudo aí,
não adianta chorar pelo defunto,
não tem nada de luto, acabou de partir

Paletó de madeira, pensou muito, deu bobeira,
a vida passou assim, pensou que era brincadeira,
caiu na besteira de achar que tinha tempo

Pra quê? Que tormento, acabou seus momentos,
a vida não é passatempo, passa rápido,
e você, que fiasco, virou muquirana, deu um de bacana,
preocupou-se com tudo, não conheceu o mundo,
mas fez a viagem, estamos aqui de passagem,
coisa curta é a vida, capricha no caixão,
seu dinheiro, levou pra onde, patrão,
sete palmos ao chão

Pensou que teria casa no subsolo?
Morreu com remorso, não tem mansão,
não tem gaveta, não tem ilusão,
a família briga pelo que sobrou
enquanto pra você acabou

Depois que morre fica tudo aí,
o carro de luxo, o telefone mudo,
deixa na caixa postal que foi ladrão

Mas o celular não é seu,
querem dividir a herança
seu tempo de bonança
ficou na lembrança
dos infortunados

E você, pobre coitado,
morreu, deitou em espuma qualquer,
economizaram um pouco o que você guardou feito louco
– e defunto precisa de conforto?! É tudo igual! –

Vai decompor, não adiantou o título de doutor
nem de barão, afinal de contas vai cair na escuridão,
depois que morre fica tudo aí, tudo aí, para usufruir

Coisa que você não fez, fazer o quê?
Depois que morre fica tudo aí,
depois que morre fica tudo aí
fica tudo aí, depois que morre!

Futuro de um presente pretérito

Se eu buscasse seus defeitos
não seria seu amigo
mas se eu os amasse,
seu namorado eu gostaria
não de ser, porque não sou seu, – ainda –
mas de estar com você, bastaria

Não caberia minhas mãos nas suas,
parecer de ironia, pareceria,
mas é que minhas mãos são grandes
para caber em você como eu permitiria

Se eu puder dizer, no futuro próximo,
o quanto essa poesia disse do futuro
do pretérito – esse que vou viver, quem sabe, um dia –
eu direi novamente que valeu a espera,
eu obviamente esperaria, esperaria, esperaria

Retratada

Estou procurando um novo amor
porque o amor dela acabou
mas o meu não morreu,
meu amor transbordou,
meu amor sobreviveu

A fonte dela secou,
mas o meu rio desaguou,
meu amor é grande, enorme
o oceano absorveu

Agora eu sou mais eu
o amor dela secou,
mas não o meu

Ando procurando
alguém que queira
mergulhar nesse oceano,
que queira ser grande
deixar de ser torneira
como um dia eu fui

Sou água que flui de prazer,
quero ser de novo eu e você,
sobrevivi como quem transpassa
água retratada pra sorver

Agora eu sou mais eu
o amor dela secou,
mas não o meu

Feliz aniversário

(Para Darci Tomellin)

Pensa que eu esqueci
do quanto você me presenteou
com seu sorriso, sua energia
essa sua poesia viva

O sorriso, a astúcia de um palhaço
candura que despertou pra vida
pra minha vida, na minha existência
você fez festa, agora, agora,
feliz aniversário

Mais feliz, aniversário, bem vinda
novidade, nova idade, o mesmo ser
se é pra você, feliz, feliz, aniversário
e de novo, repito, feliz, feliz
feliz aniversário

Aquilo que se repete,
novamente, idade diferente
a vida renascendo
pra quem sabe viver

E quem a sério não leva
quem acha palhaço pateta
não respeita o corpo pintado
não sabe o quanto tem sido vazia
uma vida sem significado

Há quanto tempo conhecemos
um a outro, outro a um;
Nós dois sozinhos vivíamos bem,
mas celebrar contigo tem um porém
capaz de multiplicar,
controvérsia de duas sensibilidades somadas

Somos mais, bem mais vivos
duas máscaras de um teatro
não opostas, duas faces sorridentes
espero ter sido convincente de fato,
feliz, feliz, feliz aniversário

Poema Público

Baseado no álbum “Público” de Adriana Calcanhotto para atividade de figuras de som proposta por Vania Bernardo. Linguística II. Letras/Literaturas/2013.2. IF Fluminense.

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Ao mundo Público de Calcanhoto
publico estes meus versos
e peço, pego, desapego,
emprego de excitação
o ritmo, o ato, um laço
visto, me calço, abotoo
soo Mais Feliz, sou assim

Intérprete, desperte,
Devolva-me esse clímax,
essa luxúria, loucura
de poeta, candura na voz
pudera, quimera da arte,
alarde tamanho, essa doçura;

O som carregado me chama
ao meu sentimento, momento,
invento, tributo e luto
comigo e com essa voz a sós,
Maresia que vem atroz
me deixa partir, inunda assim
meu coração que ama sem fim

Vambora que esse álbum
reflete, me pede na mansidão
o silêncio, o vazio
aqui eu venho e crio,
recrio, reviro, repito
e vivo, sobrevivo,
insisto agora contigo

Sem sentido eu nado,
ardo, me completo, me calo,
me armo deitado dos recados!

Que canções desse porte me afoguem
e eu não me debato, deitado, deixo
que por Esquadros, meu mundo perca a cor…

Coisas de literaturas que conversam
por um pedido, e eu, solícito à Vania Bernardo,
atividade de figura de som vai além de linguística
querida, detém, retém inspiração enquanto ouvia
com essa chuva que cai tardia, Adriana me consumia…

Grandiloquente

O universo, tão sábio,
me trouxe logo após um sábado
de descanso físico, um novo amigo,
descanso da alma

Eu, grandiloqüente inspirado,
preparei as minhas energias
para vibrarem paz e poesia

No final do dia, quem diria,
nós nos encontramos e, sem querer,
nos identificamos
com carinho, respeito e MPB

Brotou aqui alegria tamanha,
deixo pra você, minha criança,
o material de um sentimento
que não sei dizer de onde veio,
mas, sem receio, é para você

Obra-prima

Quando eu vi você feliz
mais uma vez, eu me vi assim também,
outra vez

Meu coração se desprendeu do seu
sem as correntes do ciúme,
eu sei que o amor é verdadeiro
quando deixa o outro impune
pelo roubo que cometeu

Coração desarmado foi assaltado sem amarras,
de mim você foi levado por terceira alma apaixonada

E eu não cumpro prisão perpétua
de desgosto, e até aceito o outro
como amigo capaz de fazer por você
coisas que eu não preciso dizer,
nem vou revelar o quanto queria juntos,
bem mais que poesia

E não me acabo de arrependimento,
o destino eu não lamento
se você aceitou outra mão antes da minha,
a minha continua aqui pra outra forma de companhia,
porque o amor mudou de foco e de tom,
mas não deixou de ser a cor da obra-prima

Réu primário

Você sabe que me tem e me esnoba
um dia a coragem vem e eu te jogo fora
mas antes disso você bem sabe que leva tempo
desprender-se de um amor que fere machuca por dentro

Você sabe que me tem na mão
e antes o que servia de afago, contradição;
Afogo-me no amor que eu pensei que tinha
sem a menor possibilidade de ser poesia

Vou definhando por maus tratos da paixão,
choro um bocado, dilacerado e ainda peço perdão
por coisas que nem de longe eu fiz
só pra me manter perto de você

E ainda tento inocentá-lo por me fazer sofrer
sou um pobre coitado me achando devedor de carinho
sou réu primário desse crime de vazios duplicados
só pra não ser condenado a ser triste sozinho

Travessia

Para o amigo e ator, Darci Tomellin

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Você é a felicidade
no sorriso, na música
que traz você, refrão

Você e seu sorriso,
prenúncio de paraíso,
fascínio no olhar

E eu quero sonho soberano,
continuo sonhando com a felicidade
que passa, mas passa por você
com maravilhosa energia

Aí que percebo toda sua alma vibrante
não sei se me perco agora aqui
ou outrora, observando novamente

Poesia por você
que me faz ansioso
com garra, com cuidado,
sou um mero acaso,
eternizando o bocado…

Oh, alma linda, longe de mim
aprisionar a sua fantasia de viver,
que beleza, como você é assim?

Veio ao mundo brincando com coisa séria,
vida que leva leve, leve, leve, minha vida, leve,
é toda sua, carregue, nessas linhas minhas,
pensadas nas suas ruas, travessa, travessia em mim,
anda em minhas palavras, sorri, ri nas minhas esquinas,
pare nas minhas vias, envio, poesia travessa,
como você, você, você, como… você!

Insônia feliz

Seja minha companhia de noite
que eu sonho com o pouco,
aquela pequena amostra
de carinho

Fica comigo nessas horas
prévias de descanso,
vem incentivar meus planos
de um dia melhor

Não peço cuidado,
mas você tem se mostrado,
sem que eu pedisse
nada em troca,
contagem para todas as horas

E eu pretendo ter você
noites seguidas,
já me acostumei
se bem ou mau,
fica a dúvida,
a pergunta profunda…

Eu não vou responder,
já troquei as palavras que eu queria,
toquei a seda macia do meu pijama
vou pra cama, cansado, bacana,
ter você do outro lado, me chama

E eu pretendo ter você
noites seguidas, é claro;
Se as madrugadas serão em claro
é uma alternativa um bocado
irritante, se eu não tivesse você
nesse instante pra me dizer

É claro, sem luz acesa,
que eu quero você acesa
para me incendiar, acessa
minha insônia feliz

Correntes da literatura

Eu sou um apaixonável
o amor é volátil
completamente aberto
a quem quiser contato

Não troco ninguém por ninguém
posso me entregar a mais de uma pessoa
e desde que, verdadeiramente, não,
eu não vejo culpa alguma

Estou disponível
– e aqui vou além do eu lírico –
cansei dessas coisas da literatura
de que autor e personagem diferem,
se a palavra não me define
por que eu estaria escrevendo?

Os meus versos agora tem correntes,
científicas ou não, estão aprisionando…
E eu que pensava, apenas escrevia
agora escrevo, pensando…

Segundo pensamento

Pensei rapidamente em você
essas coisas que não se pode dizer
em pequenas e poucas linhas

Pensei por alto e rápido,
uma lembrança do passado
ainda bastante recente

E esse flexe tem sentido
agilidade consumindo
a falta de coragem

Feito raio que vem caindo
sem direção é conduzido
caiu por compulsividade

E assim você me rouba os segundos
um momento de quase nada pro mundo,
de tão pouco, banalidade

Quem dera eu não me perdesse nesse segundo,
você não me prendesse por minutos,
e esse poema não ficasse pra eternidade

Que aí sim seria perfeito,
esse segundo preso em meu peito,
meu momento de êxtase somente,
vingaria na semente da felicidade

Desgastes

Eu não sei nada sobre mim
penso que sei, talvez, alguma coisa
pelas coisas que fiz, o carro que tenho,
os amigos que me relaciono, penso

Pensei que sei algo de mim
porque o trabalho que tenho
diz alguma coisa, as escolas que passei,
os cursos que fiz, falam qualquer coisa

Penso, talvez, mas não sei
se isso me define, se é o bastante;
Conta na minha biografia,
cronologia de uma vida

Isso é poesia?
As sequências de fatos
de uma vida de fragmentos,
realizações, momentos…

Eu quero uma pausa
uma pausa para a poesia
a vida é poética?
Uma vida para a pausa poética
uma pausa, isso é vida
a vida é uma pausa
sem tempo, parada, é vida,
é a vida, poética…

O amor do meu amigo

Para Ramon Martins, namorado de Rodrigo Moura, grande amigo.

Ele é o amor do meu amigo
o amor do meu amigo é meu amigo também
eu gosto dele como amigo, mas não como
o meu amigo gosta dele, cheio de paixão

O amor do meu amigo cuida dele
de outra forma, com mais atenção,
é mais intenso, mais seguro

O amor do meu amigo, cuidando do meu querido,
também cuida de mim, porque amigo feliz,
amigo feliz, me faz feliz também

É uma terceira pessoa cuidando de outra pessoa
que eu gosto tanto, e essa terceira pessoa
me ajuda, essa primeira pessoa, a proteger,
a guardar com requintes de amor crescente,
aquele pelo qual nós dois desejamos novamente,
e sempre, sempre, sempre bem…

Tercetos de devolução

Licenciatura em Letras/Literaturas, Instituto Federal Fluminense. Para alguém que ficou pelo caminho em 2013.1….
_______________________

Você foi embora,
mas eu tenho duas coisas
preciso devolver

A primeira é seu sorriso,
tímido, eu sei, mas recolhi…
Ficou preso na mente

A segunda é seu olhar,
assustado, menino,
eu compreendi

Talvez só nós dois
sabemos o que você me deu
sem chegar perto de mim

Eu guardei com carinho,
está aqui na memória,
afetiva, quando escrevo pra você

Corri demais, tentando dar conta de tudo,
agora, enquanto penso mudo, mudei coisas de lugar,
tirei a poeira do fundo, e encontrei você de novo

Em seu sorriso tímido, em seu olhar que mediu o medo,
eu que nunca fui bobo, percebi o pouco que você fez,
eu notei o muito que mexeu comigo, e a resposta chegou…

Desculpe a demora, fiquei observando o que me entregou,
e eu que queria devolver, acho que vou aceitar mesmo,
mas ainda assim, fique com esse poema, afinal, devolvi…

Teoria da Literatura

Selecionei você
dentre tantos que me fizeram sonhar…
A diferença é que você realiza em mim
algo que nem em sonho fui capaz de chegar

Selecionei você
sem nenhuma pretensão de escolha,
sem pensar previamente,
sem expectativa, sem nada

Tudo foi acontecendo
a realidade se tornando sonho,
a vida prática é a melhor teoria

Teoria é isso daqui, a poesia
a compilação de um não sei
do que sentir, do que amar

Se é você por inteiro,
seu corpo, seu jeito,
seu sorriso, meu apego,
seu afago, seu cabelo,
seu falar, meu ouvido
que ouve coisas com sentido
que nenhum sonho sem sentido
foi capaz de me fazer acordar

Sem contrato

Ah, eu arrumei um amor
daqueles quase amigo seu,
que entendem, que curtem a vida em par

Ah, eu disse que não me negaria mais a nada,
vou viver o que chegou cheio de conversa fiada,
veio manso feito água que escorre na folha,
como passagem de brisa que sabe a hora de se agitar

Ah, que você sonhe comigo e construa
porque a sua vida também vive comigo,
e a minha respira a sua

Ah, eu arrumei alguém
que sabe sorrir e me dar alegria
com a presença que contagia,
irradia o motivo de viver junto

Ah, eu já fui cego, carrancudo,
dei as costas para a felicidade,
mas nunca é tarde pra zelar
pelo meu coração

Ah, eu vou cuidar do que me faz bem
e no momento o que bem me faz
sem cobrança, sem laços conjugais
é você, que sabe ser meu
sem contratos nupciais…

Fim de primavera

Quando seus olhos falaram comigo
gritando pra mim mais alto que o seu corpo,
aí eu notei que o amor tinha chegado
mansamente

Quando duas óticas de beleza se apresentam
e eu escolho a mais simples, a mais suave,
é sinal de que alguma coisa mudou em mim

O detalhe mais banal foi o que despertou
um carinho crescente, delicado,
armadilha convincente para a alma

Busquei o caminho mais rasteiro,
aquele olhar que eu não vi primeiro
tem agora nova proporção

Sem comentar aqui o seu sorriso,
ressalva para outro poema,
esse belo carinho largo

Vou me permitir outro verso
para seus lábios, suas pernas,
seu braço, calo, costelas

Talvez eu homenageie você
com um sem-fim de adjetivos,
vício de um nativo apaixonado

Não cale o merecimento,
simples transbordamento
dos seus olhos misteriosos

Não cale a meiguice viciante da vida,
simples como a última rosa a desabrochar
na saída da primavera que não terminou
em mim