Estado de epifania

(Para Cadu, pela suas lives tão alegres, por uma amizade leve, por um ano novo especial)


Tenho pressa de viver
de realizar projetos
de cuidar de mim
de progredir na vida
e melhorar a realidade

Tenho pressa de cuidar de você
de te levar alegria, e fazer sorrir
como se só me restasse empatia
para te citar em poesia e colocar
em meus versos rápidos o que de fato
a descoberta por si só não me sacia

Você é fantástico em todas as melodias
e sem saber que é, já tem sido a minha companhia

Quando dança por nós,
e se dispõe diante da vida
a depor sobre o pôr do sol
calando todos os girassóis
na madrugada melancolia

Nem todas as coreografias
ensinam os passos a serem feitos
onde o ser perfeito não ensaiaria

Porque a nota máxima
está na vida, em ser refeito
cada ato como se fosse o primeiro
estado de epifania

Encontro de empatia

(Para Nathália Sepúlveda)

Seu poema está sendo gestado
em tempo impreciso, revisitado;
em que se fez o imprevisto, revisado;
as nossas sintonias se afinaram

Nosso encontro de empatia
queria dizer das trajetórias maculadas,
das solidões d’almas machucadas
não lidas, não traduzidas, nem nada

Agruras da vida, querida
os homens não são normais

Seu passado, meu passado
separados,
tiveram motivos diferentes
para chegarem onde estão

Seu poema lapidado alterna versos,
troca estrofes, compõe-se ouvindo músicas,
busca significados refinados, vai fundo;
se faz inspiração

É o trabalho de ourives da palavra
na vida que as vezes parece incapaz
de compreensão das nossas dores mais profundas

Nossos caminhos chegaram até aqui:
diante de mim, cética, reflexo da razão,
a paixão muitas vezes vale nada, realmente

A mulher que ama muito mais que os homens
sente que a poesia não engana, não mente, nem convence;
o poema pra quem sabe ler não tolera ser simples

Os homens não sentem mais;
são todos românticos falíveis;
todas as nossas expectativas infrutíferas
criaram raízes de experiências

Todas as leituras mal interpretadas de nós
são releituras da realidade de outro alguém,
às vezes, de nós mesmos, passados sobrepostos

Porque não dizer: valeu a pena
o poema não busca a poesia,
mas, a inspiração

As agruras que nos moveram
confundem-se em contramão;
seu olhar encontra o meu
(des)vendo tudo

Palavras insuficientes

Para o amigo João Vitor P. Alves

Sem qualquer clichê
– nem mesmo o japonês –
eu quero agradecer a você
muito mais que os animes,
e as risadas que a sua convivência traz

Foi assim, sem querer (pra nós), que a vida
me apresentou você, sabendo o que faz
e mais, mesmo que a gente não converse sobre os nós
que levamos no coração e na alma, eu sinto,
que a nossa calma, unidos, muda todos os dias difíceis

Mesmo mudos, já te vejo – de tão longe –
mais perto de mim, e é assim que noto
na voz e na maneira de falar
quando a tristeza toma o lugar do sorriso

Mesmo assim, eu não me importo
com seus momentos inglórios,
é próprio da amizade
essa parte que ninguém vê

Para além do estado de graça,
eu quero que você saiba
durante todos os dias da sua vida
que a sua presença tão querida
suaviza a minha própria existência

É para um reencontro com o carinho,
para ocupar os vazios
e as inquietações do mundo,
que nós fizemos o nosso próprio caminho
de amor e consideração…

E porque não dizer também,
que esse poema só acaba
porque pra você não há palavras
suficientes

Servidor

Por que ser servidor?
Refletir, primeiro o sonho,
nosso projeto próprio, individual,
lembrar das mudanças que se fizeram distantes,
hoje, tão reais

Servir por missão coletiva,
pela capacidade de pensar além,
servir porque ninguém faz nada sozinho,
doar-se para ampliar horizontes,
renovar, buscar esperança,
mudanças de uma sociedade

Por que servir ao Estado, e não a um patrão?
Servir por opção de vida, pelo projeto de Nação
para garantir, na lida, comunhão:
Servir Educação!

Para mudar o rumo da história,
dar outra dimensão,
por acreditar nas oportunidades
e fazer do improvável, a realização

Por questão de dignidade,
pela melhor opção,
servir por igualdade,
pela qualidade da força humana…
Como pedra que cai na água
e provoca ondas,
promovemos mares de sabedoria

Servir por um passo de luta,
para não perpetuar o sofrimento,
resistir nas curvas, e nos ataques,
e nos impasses de destruição

Servir para não ficar à mercê
das inverdades (mal ditas) sobre nós,
para dar credibilidade ao que nós construímos

Um espaço multi-indivíduos que aceita, acerta e acata
o pobre, o rico, de direita, de esquerda, de raça, de religião (ou não)
o diferente:
tendo sempre um direito a alcançar pelas nossas mãos.

Servidor com sentido,
consentido,
sem servidão…

Estrelinha

Minha estrelinha preciosa,
que não sabe o valor do seu brilho,
se não fosse você,
como a noite seria clara?

Estaria o mundo no breu total, escuro;
Você, sempre puro, não me alegaria sorrindo,
servindo de pretexto para a minha felicidade

Quem se junta no caminho do bem,
se encontra sem saber como,
a vida não cruza os braços,
promove encontros, mesmo distante-,
entre estrela e poeta nas formas de poesia

É a sua vida valendo de obra-prima para o verso,
seu sorriso, o verbo, suas lutas que ninguém sabe,
é arte, querido, pura arte, mesmo sem entender
faz parte do espetáculo vivo,
até te chamar de amigo

É a capacidade de ser estrela,
que não seja cadente,
é o meu desejo
para a amizade

Muito há dizer

Ainda não há muito o que dizer
além do seu sorriso fácil
do seu humor solto,
de tantas curiosidades
dos meus beijos de pescoço

Ainda não há muito que dizer
além do seu corpo esguio,
além dos ritmos do seu corpo,
e do seu carinho

Não há nada a declarar
sobre as nossas trocas de olhares
dos paladares que eu vigio e cuido

Nada há a acrescentar
além da minha falta de ar,
enquanto de desnudo

E é humano te bem-dizer,
ter segundos com você
antes de começar o dia

Deveria ser regra,
mas eu não vou seguir,
não vou detalhar nada mais além
dos seus cabelos enrolados
e o fato de seus abraços,

e seu colo – postergarem a ida,
prorrogam a rima,
nem dá vontade de fechar estrofe

Eis que a vida quis,
eu e você. feliz
em rumos diferentes

Fugindo pela esquerda,
correndo à direita,
a poesia nos colocou frente a frente,
finalmente.

Falando pouco,
dizendo muito,

inconsistente ao mundo –
coerente se faz
o nosso silêncio

Há tempos

Para Tais Freitas, atualmente Diretora da Escola de Formação e Desenvolvimento de Pessoas/Reitoria do Instituto Federal Fluminense, pela excelente profissional, de tantas qualidades, e amiga. 

Há tempos que o poeta tem observado
a sua ação, e hoje, nas horas finais do dia,
render homenagens é obrigação

Aprendi, desde que reconheci o meu ofício
ter, por oficio de trabalho, a observação.
Nesse tempo de convivência,
– perdoe-me a incongruência da cronologia exata -,
tomei nota das incertezas da chegada,
da voz trêmula das primeiras convocações

Tomei nota das iniciativas inseguras,
das indagações prematuras, da dúvida
constante, da constância da ternura,
dos posicionamentos equivocados,
da postura pura, simples e ingênua,
de quem se via pequena
tentando acertar

Vi a armadura ser trocada várias vezes,
vi aceites corajosos e a audácia
de quem aprende aceitando de presente
aquilo que não se sabia se poderia ofertar

Presenciei dias de tormenta, e percebi
com o olhar apurado de poeta –
noites de sono nem sempre dormidas

Constatei dores de renúncia,
daquela que queria tomar conta de tudo,
sendo simplesmente uma só.

A mãe tão presente dividir o presente
com o árduo trabalho.
A profissional competente reconhecendo limites,
não desapontando os amigos por consideração.
A esposa, tão cuidadosa, indo além do que as forças permitiam.
A filha que sempre atende as ligações.

Presenciei a professora de outra época
tentando aprender os rumos não-numéricos,
e descobri, que para ser o que se quer,
às vezes, é preciso ser multitarefa.

Pelo olhar da convivência,
vi as dúvidas ganharem direção,
vi a anfitriã se percebendo,
a diplomacia ganhar dimensão.

Tomei nota, em muitas reuniões,
dos olhos atentos e dos ouvidos abertos,
ensinando e aprendendo,
que falar no tempo certo,
e ouvir na hora certa
é talento lapidado

Vi, até muito recentemente,
o cansaço bater na porta
de quem tanto faz e faz,
– mais e melhor -,
achando que ainda não é suficiente

Eu vi tantas em uma só
que até achei que não fosse sempre.
Aí eu descobri o melhor:
Que a vida nos dá de presente
a capacidade de ser diferente,
de transpor os limites da mente.

Eu vi tantas em uma só
que eu preciso deixar ciente:
A acolhida foi tão compreensiva,
que o poeta ganhou amiga
pra seguir em frente.

Aparte

Para Iago Reis
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Fico feliz quando você me toca o corpo,
me abraça, e me beija na face,
e me faz de transbordo dos sentimentos
pelos quais não se sabe
(se existiam ainda dentro de mim)

Fico feliz quando me fala dos seus gostos,
e quando contempla, a tarde,
e eu me finjo de bobo
pra não falar da missa-metade

É tudo ainda muito novo,
ouvir a sua voz doce e suave,
ter a sua companhia simples,
seus sorrisos, sem vaidades

Não necessito visitar a utopia,
ainda não é tarde para acreditar na poesia
que vive em mim, ainda, escondida, em parte.

Você com simplicidade costura tudo,
o mundo, pelo qual eu não vejo mais encanto,
cala bem antes do começo, o meu pranto,
meu desencanto, minha enfermidade

Da alma, do espírito, da carne,
você revigora, cicatriza, energiza,
cumplicidade

Um estado de paz, de poucas palavras,
de meios gestos, de observações,
você me devolveu a capacidade…

De escrever de novo, vivo e belo,
com sentido, sentimento e serenidade
o poema-humanidade

Sonho alto e lindo, novamente,
a realidade…
de ser pleno, acima de tudo,
quando te observo, à parte

Segundo dia

Para Thaís Almeida, amiga e colega de trabalho da Gestão de Pessoas/Reitoria do IFFLUMINENSE.

Acima das futilidades mundanas
você, figura humana;
acima das tolices da matéria
pretérita de outra existência,
você, essência que apraz;

Acima do momento, escassez do ser
você sabe ser, antever o que não se pode dizer,
cansada do sou, do eu: é o meu pensamento também.

Amém ao futuro
que antes, o passado,
– antes desse futuro -,
no ontem, cê fonte
de esperança

Pequena ruptura
meus versos apontam
na alegria, na coragem,
na ousadia, cansaço de vaidade

Hoje e até agora, você não entendeu
porque a vida, ou Deus – como quiser –
te fez mulher, mãe da Ana Letícia,
pai e mãe dos seus, pai e mãe,
amiga de tantos amigos em comum

Incomum e sem pretexto,
meus versos – antes tão corriqueiros –
retornaram ao grande defeito de ser poeta:

É sentimento em alerta, que você vai dizer: Presente.
Não, presente, não. Que você sabe, mais do que ninguém:
Data nunca me obrigou a nada, sem muito motivo, é Graça, de graça,
como sempre faço.

O correto, ainda que não soubéssemos lá atrás,
é chamar mais um ano de vida, de vida corrida e corajosa,
de um imenso e inenarrável privilégio.

Como tudo que passa um dia na mente da gente,
já veio tanta história… que alegria poder narrar trajetória
que os anos propuseram e você, aceitando o mistério da vida,
mudou de rumo, de rota, de carreira, de rito, de ritmo, de rima,
amiga de consideração, que não passa, transpassa essa dificuldade do ser

Há de ser agora, e novamente, no segundo dia de maio,
um calendário para a vida toda, para toda sorte
e para qualquer missão.

Substitutivo de saudade

Gosto de gente que tem caráter,
que fala e sustenta a fala até o fim.
Gente que tem princípio,
quando diz sim é sim,
daqui cinco minutos ou cinco anos
 
Gosto de gente que questiona,
que rebate, que argumenta,
gosto de gente atenta e de olhos abertos,
de gente do tipo esperto, ligado,
capaz de desconfiar das intenções terceiras
 
Gosto de gente parceira
que não vai me jogar na fogueira
na primeira oportunidade
 
Gosto de gente certa por completo,
que não olha o nome do processo,
e fica fazendo média
 
Gosto de gente que erra tentando acertar,
e se assume, e se corrige, e se retrata também.
Gosto de gente que, como ninguém, sabe falar o necessário,
sem ofender, sem criticar demais por puro desprezo,
gosto de gente sem rodeios, que diz o preto no branco,
sem enfeitar, sem os floreios
 
Gosto de gente que não assina embaixo sem ler,
gosto de gente que revisa, sugere, suprime e acrescenta,
gosto de gente que ensina sem arrogância, aprende sem prepotência,
gosto de gente que pede da paciência à clemência sem perder a autoridade,
gosto de gente que fale de moralidade, praticando,
gosto de gente que comenta de impessoalidade sem olhar o sobrenome
gosto de gente, de gente, gente, que assume a figura pública
sem perder a particularidade.
 
Gosto de gente, de muita gente,
de gente que ficou insubstituível
no substantivo saudade.