Pra me redimir

Pra me redimir
peço desculpas previamente

Com o passar dos anos,
abro mão de certas certezas,
Incomodo as minhas incomodações d’alma

Pra me redimir
abaixo o meu ego, reitero
que a vida é curta e o que fica são as relações completas

Quero ir embora com saldos quitados,
com conversas concluídas,
com o espírito descansado da matéria
da vida

Pra me redimir e desfazer desembaraços,
(não se trata de quem quer que seja)
estamos acima das situações e dos contextos

Pra me redimir
não quero pretextos nem definições,
nem respostas de aceites de pedidos de desculpas

Não se trata de carregar culpas pelos aprendizados da vida

Pra me redimir
não busco saídas elegantes,
nem criatividade incentivada
para contornar as iras que causei

Eu sei que pra me redimir
não devo pensar em mim
nem na outra parte como quem ganha um jogo

Pra me redimir
abro o desejo da vida
de seguir seu fluxo
de ser em um só momento
o tempo que sempre irá passar, (por nós)
e mostrar que somos
a própria redenção
do ponto final em reticências…

Democracia estrangulada

Saindo de fininho
com receio de contato,
com cansaço de dizer o mínimo,
de falar o básico,
de explicar projetos de poder,
e das cartadas da mentira,
e do malabarismo com a informação…

Cansado de ver o povo em pesquisa de opinião
sem fundamento, e de questionamentos vazios
e o Brasil sem direção

Cansado de dizer das armações para a mídia
e da milícia da desinformação,
cansado de mentiras e de colocar no outro
as suas verdadeiras intenções…

Saudade do tempo que o Brasil pensava pra frente
e que se era discutido até a privatização
com democracia e com argumento,
sem fanatismo e sem envolver religião

Saudade do Estado laico
e do contraponto,
não essa contradição

Saudade de governo que tinha oposição,
e não opositores em cada agressão
à democracia, ao Direito, ao orçamento público,
às políticas públicas que não transferiram apenas renda,

Saudade de um projeto de política pública de inclusão
do pobre até a dignidade da comida na mesa,
do acesso à Educação, da vacina no braço
e da Constituição

Saudade de um País respeitado como Nação
que tinha voz no mundo, diálogo
e tratava bem sua população

Que desse o mínimo, é verdade, do necessário
que tinha compaixão, que não era um mártir,
nem um iluminado, ou qualquer coisa que o valha,
e não dividida religião

Saudade da civilização,
sem ódio, sem arma como solução

Faz falta é criança na escola,
jovem querendo outra visão de mundo,
mulher escolhendo a profissão que deseja
sem estar com o destino preso e sem direito,
sendo empregada doméstica por falta de opção

Não digo que o mundo era perfeito,
nem tão pouco que não havia coisa errada,
mas, não havia medo em cada calçada,
jornalismo era crível no livre exercício de imprensa

Saudade de um mundo que pensa sem medo
e do cansaço do zelo de levar comida pra casa
Saudade de uma vida em conjunto, e não separada
de gente que somava sonhos, e não críticas e ódios
com ensaios de facadas, de trocas de comandos,
de interferências generalizadas

Não tem literatura que aguente tanta moralidade torta,
tanta perversidade em nome de Deus, tanto alarde com pautas
que não levam nada a coisa alguma, tanta malandragem…

Não aguento mais desmentir alucinações,
e delírios propositais de gente perturbada,
e maldosa, e mentirosa e covarde,
que escancara o pavor, que cita denúncias inverídicas

Saudade do progresso que se almejava,
saudade eu tenho da democracia
antes de ser estrangulada

Diante de suas ausências

Diante de suas ausências
nem mesmo as ilusões sobrevivem
diante de suas faltas
nem mesmo os fatos coincidem
diante das inconsistências
que se agridem
existe um quê do fato
abstinências das realidades que nos oprimem

Diante das percepções distorcidas do todo,
o ontem já deixou de ser ontem e foi embora,
a ansiedade do hoje sem você sumiu
o amanhã me pertence

Não sem memória de que você existiu
e foi embora
não sem lembranças do que a gente viveu
e se evapora

Não se trata de deixar o passado pra trás,
nem de fechar a porta, nem de encerrar ciclos,
nem de acerto de contas, nem de desculpas,
nada disso se elabora

Diante de suas ausências, nem o vazio
me ocupa agora
nem um estado servil
me aflora

Diante de suas ausências
se descobriu que fui eu
que flui embora

Incompletudes imprecisas

Eis que sinto ausências
passadas a limpo
presentes no limbo da memória

Eis que sinto desconfortos d’alma
que a mente ainda não decifra,
sequer investiga, nem busca respostas

Eis que esse estado confunde,
ilude e decepciona sentidos,
sentimentos, semi-círculos de vivências,

Incompletudes guardadas em versos imprecisos

Necessários
Deslocados em estrofes

Eis que sinto vazios não percebidos
lacunas do tempo do eu que não sofre
sem fundamento, e sem angústias

Contemplação das incongruências
de existências não lineares