Fica à vontade

Fica à vontade pra ser o que você é
mesmo que ainda não saiba quem você é.
Eu gosto de descobrir junto com você
o caminho que você está seguindo
mesmo que ali na frente você volte

Fica à vontade pra pensar em voz alta,
fica à vontade pra falar em voz baixa,
fica à vontade pra manifestar a sua dúvida
fica à vontade

Eu vou interagir, não criticar (às vezes, sim)
eu vou participar da construção do seu eu
se você me der essa liberdade

Não tenho olhar terapêutico, nem clínico;
retirei dos meus olhos o vício de ver maldade.
Temos um acordo não dito de reciprocidade
pra você se sentir à vontade, e sentir o que quiser,
e poder chorar, se quiser, e rir também feito louco

Aos poucos, a gente se entende, e se entende que a gente é gente,
e muda o tempo todo, e testa novos jeitos de ser, e sonha e se frusta
de novo, de novo e de novo, sabendo ser mil de nós;
amparados pela mão que não julga, pelo olhar que compreende…
há diferentes formas de existir e de ver o mundo

Eu quero conhecer outros mundos, outros lados,
outros fatos, outras curvas, outras práticas ocultas
que só você sabe que sabe de você mesmo

Descobre comigo, numa companhia madura,
de quem tem a paz de espírito necessária
para ser de toda e qualquer ajuda

Encontro de empatia

(Para Nathália Sepúlveda)

Seu poema está sendo gestado
em tempo impreciso, revisitado;
em que se fez o imprevisto, revisado;
as nossas sintonias se afinaram

Nosso encontro de empatia
queria dizer das trajetórias maculadas,
das solidões d’almas machucadas
não lidas, não traduzidas, nem nada

Agruras da vida, querida
os homens não são normais

Seu passado, meu passado
separados,
tiveram motivos diferentes
para chegarem onde estão

Seu poema lapidado alterna versos,
troca estrofes, compõe-se ouvindo músicas,
busca significados refinados, vai fundo;
se faz inspiração

É o trabalho de ourives da palavra
na vida que as vezes parece incapaz
de compreensão das nossas dores mais profundas

Nossos caminhos chegaram até aqui:
diante de mim, cética, reflexo da razão,
a paixão muitas vezes vale nada, realmente

A mulher que ama muito mais que os homens
sente que a poesia não engana, não mente, nem convence;
o poema pra quem sabe ler não tolera ser simples

Os homens não sentem mais;
são todos românticos falíveis;
todas as nossas expectativas infrutíferas
criaram raízes de experiências

Todas as leituras mal interpretadas de nós
são releituras da realidade de outro alguém,
às vezes, de nós mesmos, passados sobrepostos

Porque não dizer: valeu a pena
o poema não busca a poesia,
mas, a inspiração

As agruras que nos moveram
confundem-se em contramão;
seu olhar encontra o meu
(des)vendo tudo

Manhã de sábado

Um dia eu
me apaixonei
sem dizer pra você
o que sentia

Eu vi poesia desabrochando na manhã de sábado,
campos coloridos me acordaram na manhã de sábado
eu vi raios me cercarem pra me acordar de uma forma diferente

Um dia eu,
acordei com esperança
de ter você aqui do lado
era uma manhã de sábado

Você me veio à mente
nas primeiras horas,
e com você eu resolvi viver
pra sempre

Em nosso colorir de flores,
você fez minha manhã de sábado
valer a pena

Durante todas as manhãs da semana,
eu esperei você vir novamente
nas manhãs de sábado

Porque um dia
você me deu o significado
das manhãs de sábado

Até agora

Teus pedidos
sempre infundados

Meus anseios
sempre reprimidos

se encontraram

Tuas justificativas fugitivas
– infrutíferas em outros tempos –
semearam em oportunidade

Mudou o contexto
no meu peito
teu carinho faz sentido

Teus beijos vazios de significados – ontem –
mudaram de sabor e de forma – hoje –
marcaram a nossa história juntos

O acaso do destino encontrou pretexto
e esse meu verso é um intenso jeito
de dizer que te amo sem qualquer receio
de que a vida me surpreenda de novo
na contramão do desejo

Não busco o controle da vida
nem que siga a minha vontade,
permito-me, de corpo inteiro,
relembrar teu nome com vontade
que nunca tive
até agora