Horas depois você aparece

Horas depois você aparece
com um copo na mão como quem não quer nada,
cansada da vida do nada do nada do nada
que tem feito agora

Disse que mora na calçada do tédio
da vida estável e estagnada

Difícil pra mim decifrar o que isso quer conter

Talvez suas horas de análise não tenham chegado a conclusão alguma,
não que fosse necessário, eu sei
Mas, um fio condutor sempre se espera
nessa mania da existência linear

Há verdades perdidas na pia, na louça suja,
uns planos mal elaborados perdidos nas roupas,
um caos qualquer nas contas vencidas
e vitórias não vistas depois de um dia de chuva

É um amor que se desloca no vazio
do não-amor vivido no tempo querido,
e desse presente, no hoje, já não faz sentido
senão fotos velhas guardadas na memória,
senão sorrisos transmitidos errados,
senão o tempo consumido,
senão uma foto guardada no verso,
senão um amor lavado ao vivo

Poucas roupas cobrem a alma,
poucos presentes traduzidos,
poucas as frases sobrevivem ao ouvido,
poucos sentimentos permanecem vivos

Senão fragmentos de ideias perdidas,
senão reflexões interrompidas,
senão há alma guardada no corpo
senão há vida sobrevivida.

Horas depois você aparece
em outros dias, semanas ou meses
horas depois você aparece
anos depois, contam-se décadas
você aparece em desmazelo
no resquício de uma memória,
depois de anos, em meu outro leito.

(T)EU

(T)EU
sem meios termos,
sendo bem terno,
não temo, os erros,
nem tremo de êxtase aos acertos tolos,
toldos da vaidade

(T)EU
tarde da noite,
tento, acima de tudo,
ter o que se espera de um poeta a todo momento,
– tempo sublime –
tido por mim como
terço de poesia

(T)EU,
todavia, espero que não
troquem os meus versos sinceros por
três ou quatro interpretações sem sentido,
tentativas infelizes de me decifrar

(T)EU,
Terminei os rascunhos da minha vida enquanto
trocavam-se em meus olhos, lágrimas,
tocavam em meus sentimentos com farpas que a música
não traduz mais

(T)EU,
Transcrevi para outro papel a minha decisão de viver bem,
transcendi como ninguém o sofrimento da matéria para jogar, à vera, e
transfigurar para primavera, todas as estações do ano

Palavras insuficientes

Para o amigo João Vitor P. Alves

Sem qualquer clichê
– nem mesmo o japonês –
eu quero agradecer a você
muito mais que os animes,
e as risadas que a sua convivência traz

Foi assim, sem querer (pra nós), que a vida
me apresentou você, sabendo o que faz
e mais, mesmo que a gente não converse sobre os nós
que levamos no coração e na alma, eu sinto,
que a nossa calma, unidos, muda todos os dias difíceis

Mesmo mudos, já te vejo – de tão longe –
mais perto de mim, e é assim que noto
na voz e na maneira de falar
quando a tristeza toma o lugar do sorriso

Mesmo assim, eu não me importo
com seus momentos inglórios,
é próprio da amizade
essa parte que ninguém vê

Para além do estado de graça,
eu quero que você saiba
durante todos os dias da sua vida
que a sua presença tão querida
suaviza a minha própria existência

É para um reencontro com o carinho,
para ocupar os vazios
e as inquietações do mundo,
que nós fizemos o nosso próprio caminho
de amor e consideração…

E porque não dizer também,
que esse poema só acaba
porque pra você não há palavras
suficientes

Entre esperas

Diante de tantos corpos fúnebres,
do desalento da morte, não há de ser forte
nenhum homem que preserva a vida humana

Diante do projeto nefasto é fato
a falta de norte, não há sorte
para os restos mortais que ficam
em famílias desmontadas de forma precoce,
na face da vida dos ditos vivos,
nem dos espíritos, do outro lado da ponte

Parece, inclusive, que os lados coincidiram
em colidirem frontalmente, algo parece fora de rumo,
uma curva na rota da existência,
anjos também pedem clemência
ao livre-arbítrio do humano insano

Que sobrecarrega todos os lados da vida,
mudando a trajetória do tempo,
um lamento uníssono do início-fim

Fora de controle e de prerrogativas,
a vida e a morte se encontram,
para a troca de lados, aos montes,
que só a Existência Soberana entende

Não há começo de era,
nem queira, quimera,
o fracasso é um hiato
de tantas esperas
de lições nem sempre aprendidas…

A vida tem seu tempo,
para todos, em poucas dezenas de décadas;
Para nós, a espera eterna não cabe mais,
nem por isso o mundo se oblitera,
é só outro tipo de guerra
que os homens não sabem mais…