Soleira

Sua janela
está sempre aberta
está bem próxima
quando eu preciso
olhar para fora de mim

Estou sempre atento
quando ela fecha,
e quando ela abre demais,
retraindo-se na solidão,
ou abrindo-se para a imensidão

Eu também aprendi
a olhar para o outro lado,
o lado que eu não vivi,
mas que eu vejo que precisa
de reparos, amparos, cuidados,
conservado no silêncio
que sempre diz muito de nós

Eu não estou só,
você não está só,
eu vejo sóis em dias de chuva,
quando se chora por nada
eu vejo chuva em sorrisos de sol
quando inunda a felicidade passageira

Eu vejo na soleira da janela
o cuidado que a vida tem comigo
pra me proteger no abrigo
do amor que você não tem ideia que possui,
dois céus gris, fizeram-se, então, azuis

Fugitiva

A palavra
fugitiva
da minha vida
resolveu
entregar-se

Foi presa
pela verdade
dita, maldita,
sem papas na língua,
não foi covarde

A minha palavra
manteve quem vive mudo
em absoluto descompasso
cárcere privado de intenções

Transitada em julgado
foi absolvida de todos os crimes
suprimida a dor que a palavra causou

Ilesa, em legítima defesa
chocou os reféns do silêncio,
traumatiza quem dorme vivo,
sobrevivente falho
que em potência se coloca no atalho
do progresso que não espera

Na espreita das ações bem guiadas,
a rota traçada ao ouvido,
palavra, palavra, palavra,
posta à prova sem colete
à prova de balas, sem delito