Três vias

Será que você se interessa por mim
além do texto do poema, da poesia?
será que você se interessa para o além do eu,
do eu-lírico, do poeta?

Será que eu posso,
será que eu tenho autoridade pra isso…
será que eu posso  combinar a obra com o autor?
Será que os meus escritos te inspiram para a vida?

A minha rima, será bendita, será que extrapola
a beleza do texto?
Será que eu e você, tem jeito?

O verso, é pretexto para o texto
que eu desejo resposta,
será que você pode dizer agora:

Lendo meus poemas,
algo mais aflora,
será que já passou pela sua cabeça,
as mesmas perguntas?

Será que a estrofe curta
vai te fazer entender que eu quero
alongar essa história?

Será que eu envio, será que chega ao destino,
serei eu seu melhor remetente, será que a gente
não extravia?

Será que essas vidas se entendem?
a sua, a minha, a literária,
será covardia
um contato de três vias?
inteiro tremor.

Discreto

Discretamente
eu não me aborreço com pouca coisa,
minha alma recolhida, não se acolheu em n’uma outra

Discretamente
vejo tudo passar
todos passam com seus egos,
seus belos rostos,
seus sorrisos frouxos,
seus corpos próprios
seus apegos falsos

Discretamente
minhas vestes não investem
em status social
tudo passa com seus perfumes,
grifes, meias, cuecas, calças,
capas, acatas os rótulos

Discretamente
a gente se sabota
com medo do sonho ser real,
e me desacata

Discretamente,
tudo ganha resignificado,
desdobrado em decepções
desajeitadas que se rasgam
dia a dia

Discretamente,
do jeito que eu te observo,
você não me olha,
não me importa se me vê

Discretamente,
eu vivo dando importância
ao que minha vida pede,
esse ser poeta
se interessa
pelo discreto da vida

Meu sorriso se completa
quando você passa por mim
e quando a gente se dá as costas
em direções opostas
discretas histórias…

Nenhuma cobrança

Você inventou muitas teorias
para se afirmar na prática,
tem muitas respostas na ponta da língua,
e doa hipocrisia de graça

Você sempre comenta que está vivendo a vida,
descobrindo o mundo, diz que está pronto pra tudo,
mas, eu sei que é só fala, fala, fala

De tudo: atitude, falta muito,
e não é nenhuma cobrança,
você insiste em se vender como adulto,
mas, se troca com criança

Faz caridade falsa e se ilude,
achando que pode ajudar o tempo inteiro,
não percebe que cercado por todos os lados,
os outros também, rasteiros, aprendem sós.

De tudo: atitude, falta muito,
e não é nenhuma cobrança,
você insiste em se vender como adulto,
e eu não compro confiança

Você inventou muitas teorias
para ter algum lugar social,
para ser aceito num grupo,
cercado de alguns perdidos teóricos,
pensando ser um achado

De tudo: atitude, falta muito,
e não é nenhuma cobrança,
tem gente que não quer sair da cela criada,
presídio de segurança máxima,
nem recebendo fiança

Pequenos ponteiros

Não há pausas para a vida,
disso só me resta dizer que são evidências,
ora, serve, segue e guia
porque quando você deixa de prestar atenção em algo,
outra demanda merece seus cuidados

É certo que, nessa curta vida,
não temos um só segundo de descanso,
porque, desde que nascemos,
somos cercados de desafios

De todo caso, não reclame,
o que você é capaz aqui,
é pequenino perto da grandiosidade da eternidade

Sim, é verdade, que durante as poucas somas de décadas
pelas quais temos vivido, ainda há muito a mudar,
a ponto de parecer luta perdida, coisa que nunca termina

Deus criou você e criou a formiga
e nenhuma obra-prima tem valor menor,
nem a duração equivocada
porque o tempo é uma dádiva
complexa nos segundos,
banal nas horas.

Pirotecnia

Hoje a chama dos meus olhos explodiu
combustão de te amar escondido,
cercado de pensamentos, é bendito,
o sentimento que se alastra pela alma
e comparece

Descontrolado, não há o que fazer,
deixa apenas consumir até o fim,
as labaredas do intenso fogo,
que queima até o último segundo
as noites de sono que eu não dormi

Destroços de solidão se foram,
restos de angústia não deixaram vestígios,
os amores antigos, não se recuperam mais,
a falta de afeto se perdeu rapidamente

Sorridente, esse fogo diferente
aquece o corpo, ilumina a mente,
é estridente, os estalos que a paixão
nos faz contemplar

Somos nós a mais linda pirotecnia
para festejar as viradas que a vida dá,
sem medo e sem receio de se machucar

É quente, é gostoso e aconchegante,
é conforto, cuidado completo
é êxito, excessivo abençoar
o contrário, o reverso do pecado,
que pecado o céu não ter fogo
para o nosso balão de amor subir
por isso, nos amamos aqui na Terra

Não atrapalhe – o silêncio –

Que o dia não nos obrigue
a ficar provando nada a ninguém,
pois, se cada um toma conta de sua tarefa,
é certa a falta de tempo para pesquisas alheias

E se der conta do seu próprio servir,
sirva mais, de outras formas,
antes de vir a mim
dizendo que não faço nada;

A fofoca é praga perigosa
que destrói a horta das boas amizades,
apodrece o respeito e a admiração

Cada um cuida do outro
de um outro jeito que você não cuida
e é por isso, que mesmo na labuta,
as pessoas buscam a todos nós

Pois, que cada um tem uma forma distinta
de desatar os nós da vida,
acolher o outro,
e ajudá-lo a dar a volta por cima

Eu peço, antes de tudo,
que se o desconforto comigo for grande,
não se adiante a comentar com mais ninguém

O silêncio do insatisfeito é falta de respeito
quando não dito a quem se deve,
usando terceiros de escudo

A alma humana tem tantos atributos para serem descobertos!
procure o que fazer, antes de dizer palavras infundadas,
cada um dá o melhor de si nessa experiência abençoada
e eu não desejo mais pra mim, outra palavra confiada,
a não ser – “silêncio” – para a vida perturbada

O incapaz

Eu sou o incapaz do século 18
negro escravizado que não viam como gente,
eu sou o incapaz do século 19
criança e mulher, – velho até – da jornada de trabalho absurda
eu sou o incapaz do século 20,
mulher, subjugada, incompetente para o alto cargo
Eu sou o analfabeto do século 21 que assina com os dedos,
sou o deficiente ainda visto como o doente merecedor de cuidados,
subestimado como o coitado da assistência social,
superestimado como o super-herói que venceu,
o exemplo, fora da curva.

Eu sou o começo de luta
que não podia votar,
não podia usar calça jeans,
não podia sair de casa,
não precisava estudar,
sustento que venha de terceiros

Eu sou o que não aceitou
o fato de ser menor ser humano,
fadado ao fracasso social
certo do destino ingrato traçado

Eu sou o incapaz
de aceitar a incapacidade posta
pelos capazes que sempre viraram as costas
do alto de suas concepções de merecimento

Eu sou o incapaz
de aceitar o farelo merecido aos porcos,
doado aos poucos,
pelos próprios incapazes
de ver a vida na sua plenitude

Eu sou o incapaz de não escrever sobre isso,
sou o incapaz de não ter atitude,
aquele grita mesmo, que fala ríspido e rápido
para ver se me respeitam

Eu sou aquele incapaz de engolir a demagogia
dos espaços das cotas de pouca representatividade,
eu sou a incapacidade da arte não decifrada,
eu sou o que não se dava por nada, – e surpreendeu –

Eu sou o esforço que não cedeu,
vencido pelo preconceito – jamais –
prazer,
– o incapaz

Rascunho

Ainda não é você
que enlouquece de amor por mim,
que se preocupa como eu gostaria,
ou se declara, tentando fazer poesia de atitude,
ainda não é você quem me busca a qualquer hora do dia,
faz surpresa, prefere a minha companhia,
ainda não é você quem me prioriza,
faz de mim lembrança de música, de um momento,
saudade quando está na fadiga,
que quer meu colo quando está sem saída

Ainda não é você que compra coisas pensando em mim,
espontaneamente me chama pra sair, e que diz sim,
sim, eu vou, eu quero, é só chegar, não é você quem diz
você não precisa marcar, não precisa agendar,
ainda não é você que merece viver ao meu lado

Ainda não é você
apesar de importante,
apesar de especial
de boa companhia,
de uma boa dose de alegria,
de paz de espírito,
mas, ainda não

Ainda não é você que provoca o meu espírito
a vir a tona, não é você que acorda o meu passado,
escondido e espaçado, que eu ainda não tive acesso

E, confesso, queria que fosse,
mas, você não é. Não é. Ponto.

Quem sabe, no próximo eu encontro,
mas, você não é. Definitivamente.

Sem meta

Eu já fiz muito,
sei que não se começa assim
um poema de começo de ano,
mas, compondo esse novo momento,
sem nenhum lamento, olho pra atrás,
porque há o que valorizar no ontem

Eu vou fazer mais,
ainda que não saiba
por onde ir, ainda que sem metas,
vida aberta, como o livro análogo,
liberdade de não ter rumo,
não nesse ano

Eu vou ser melhor,
sem rota, sem reta,
sem placa, sem trava,
sem meta

Objetivos, já busquei demais,
cumpri tarefas em excesso,
passei por anos idos de crise,
não quero crise mais, minha vida,
não vai ter mais ajuste fiscal,
não cometo mais crime de responsabilidade emocional

Vou me desfazer das pessoas doentes,
não quero mais ser paciente com quem
não quer se curar, eu vou me cuidar,
vou viver, viajar, me presentear,
vou ser leve, vou rimar mais,
rir mais alto e melhor

Vou fazer piada, chorar de risada,
vou buscar a minha atitude plena,
cansei de ser pequeno em alto mar
vou me derramar em oceanos,
atravessar o mundo, leve,
apaixonado pela vida que corre,
não comporto mais comportas,
não vou me sujeitar a barreiras,
nem buscar companhia… viver,
viver a maresia da minha própria poesia…