Passos pelas Ruas

Para o escritor Victhor Ruas Fabiano

Use tuas Ruas, Fabiano!
Mostra-te em meus planos
como a viela por onde escorrega
os meus versos encabulados,
tímidos e sem saída

Usa das tuas passarelas,
abusa de teus caminhos…
A esquina do teu alvo cívico
cruza com a minha cínica poesia
que não diz metade das tuas linhas
capazes de se cruzarem com as minhas

Que dizer senão e finalmente
do meu desejo de te ler livremente,
de andar sobre tuas páginas
e devorar-te a escrita até quando mentes?

Correr, ó Ruas, pelos teus atalhos
e não raro ser reconhecido pelos passos
que não visitaram toda tua extensão…

Cabe

Cabe na noite que se agiganta,
nessa madrugada que começa,
no anoitecer que prevalece
o poema que tece um aconchego

Cabe o que vem, o apreço,
antes de se aventurar ao leito,
antes da entrega à interrupção

Dormir não me cabe
sem dizer o que não cabe
mais esconder,
o tamanho da emoção

Mesmo que sem jeito,
o que não tem como negar,
o que rola no peito
precisa caber no poema
para parar de rolar na cama!

Um sonho não é o bastante,
sei que não sou o flerte perfeito,
mas o começo está aqui
cabe na palma da mão…

Acredita em polipoema?

Te amo, acredita?
Se não, pouco importa
O poema é a porta do amor,
mesmo que a campainha toque no truque,
vou abrir e sorrir feliz

Se não for assim, prefiro o exagero
de uma vida sem sentido, mas não,
eu não fui feito para alternativa,
não sei vagar sem poesia, romântico
do primeiro ao último verso
até debaixo para cima

Acima você viu o que ninguém diz,
amo até o seu não-amor, meu amor
porque transformo a dor em paixão
e pelo não, pelo sim, lê um pouco de mim,
diferente: pode ler esse verso de trás pra frente,
uma vez mais descubro outra função para poucas palavras

Te amo, acredita?
Se sim, obrigado pelo poema,
senão, pela poesia.

Tenta não amar?

Lê de qualquer forma,
como você quiser,
partindo de qualquer verso,
é só uma pequena dose de amor

Sem barreiras

Eu não tenho mais muros com a vida,
para ela me brindar eu não me blindo,
estou aberto para o universo,
já faz tempo que não tenho o comando

Não ordeno e nem me imponho,
no eterno deixar ir vou me mostrando,
me deixando levar, me entregando

Já não coloco condição para a experiência,
sou matéria pequena da existência
que vai somando e somando
sem escudo e sem guerras

Não luto com a vida, nem tudo é dolorido,
minha vida aprendeu a ver os ciclos
de outro modo, mudei de foco

Já não suporto as limitações da carne,
são correntes fracas que eu me liberto
e sem alarde, eu me jogo e me entrego
até que essa energia me diga o tempo certo
de sair do poema, de ter um lugar além
do além dos meus versos também não concretos

Casa da paralelialidade

Do tempo e do vento,
da distância ao livramento,
sensação do não-existir-momento
o nada é uma graça, reabastecimento

Do corpo, o copo vazio,
recipiente que transborda,
agora sabe que nada importa
já aconteceu o que não se queria

Mas, o hoje, mais hoje, mais um dia
o seu afago paralisa a correria
sem sentido, sem o fio da vida;
estar vivo como experiência

Não me canso das aparências,
de perceber as patéticas
impaciências humanas com o vago,
e eu aqui divago, falando o mesmo:

Quero ser o nada, o vazio que ninguém toca,
quero o que ninguém suporta de resposta,
um minuto de pausa dessa caótica visão torta do tudo,
um segundo de nada, de quatro letras que não dão conta
do que eu falo…

É o nada do outro lado da moeda,
não do tédio sufocante, mas outro;
a outra face; a outra fase do nada;
o significado escondido de muitos;
a terceira e outra realidade;
paralelialidade

Página branca

Uma página em branco
para a madrugada preenchida
com o negro dos pensamentos

Nem tudo está como o planejado;
há alguns anos eu tinha metas.
Não as cumpri

O acaso foi concreto, imprevisível
é a vida assim, que decepciona
e surpreende um lado de mim

Eu não me conheço, nunca soube
ser eu plenamente, um terceto de quebras,
algumas quedas poéticas, enfim

A noite suja o papel limpo,
a palavra me polui, e eu,
reciclo e recrio o que não fui

Por homem

Hoje distribuo poema,
ofereço saudade,
oferto abraço,
doo amor

Hoje tenho lembrado
do bem de ontem,
de como é merecido
o riso de canto a canto

Hoje me permito
ser sincero, ser honesto,
presto-me a viver sem protesto,
sem pudores do ego

Amo e amo sim,
esse seu fingimento
de constragimento por mim
quando digo o fato,
no ato, encantado,
mostro o outro lado
da face do amor

Mostro que posso, sim,
amar outro homem,
e que de homem tenho fome,
e por homem tenho sede
e por homem, a delícia,
o apreço e o beijo
revela-se e prevalece
a verdadeira parte de mim

Reverência ao poema

É a minha melhor brincadeira,
minha maior diversão, meu momento,
a hora da negação da negação,
do meu ser não sendo, meu eu
projetado em nós, em você

É minha maior alegria,
caçada das palavras,
não mata e não agride,
se for pra isso: desiste

Meu poema tem outro adjetivo,
outro objetivo, sou optativo,
obrigação só de paz, reverenciado
sempre e sempre mais a água do espírito,
bebo em conta gotas, mas me afogo
de afagos e verdades, mentirinhas…

É assim que minha criança sobrevive
de um poema leve, livre, vive, sorri
e insiste no sorriso bobo, suave,
no contente de um presente pronto,
posto e rasgado, lembrança de um passado,
desejo de um futuro bonito, poema vivo,
delírio que seja, não importa se sem beleza

Divagar devagar ou corrido, construído
no agito de qualquer domingo sem sentido,
buscando a finalidade quando nem a metade foi dito,
e que acabe assim, em um mito, um rito tolo de ponto final?.

Conversa franca

Precisamos conversar
sentados frente a frente
preciso contar algumas coisas:

A gente sabe a situação qual é,
a franqueza sempre foi a nossa medida,
nossa primeira norma-obra-prima
de qualquer relação, bem sabe

Que o papo não precisa ser dramático,
nem tão sério, nem penoso, sufocante;
Realmente a gente conseguiu outra solução,
amenizando sofrimentos e torturas vãos,
nãos entre eu e você: Não

Jogo aberto é jogo limpo,
o que acontece com você,
o que acontece comigo,
o que acontece com um amigo,
o que acontece, filho?

Conta conjunta dessa vida,
sem revolta, encare e aprende;
não há “a vida filha da puta”,
mas há covardia adulta quando tratamos
tudo como crianças

Encara de frente o seu momento,
o nosso problema; precisamos
da saída para o que você precisa
para não causar a saída um do outro
de ambas as vidas…