Poema prático

Você é tudo ao contrário do que eu tenho escrito,
de tudo que eu tenho dito, você é completamente,
sem sombra de dúvida, diferente, outra realidade

Depois de tantos anos escrevendo descobri
a prática no lugar da teoria, o verso,
inverso da poesia da utopia

O mundo construído de fantasia,
idealização da realidade é distante
da arte constante de não saber
por onde se anda

Sei que os poemas me cobram história,
sei agora que não há trajetória para as palavras
quando se entende que a vida não segue roteiro,
esse é o poema primeiro depois de mais de mil,
aquele que não teve início, meio e fim, mas você

O avesso do começo, meio do fim,
fim em meios, começo de mim,
início para nós

Rabisco de poema

Tudo caminhando e eu sigo me perguntando
se posso invadir a sua vida, conhecê-la mais,
quem sabe, desestruturá-lo, tirar você do eixo

Não sei se eu mexo com seus alicerces,
se a minha manobra pode desmontá-lo,
serei eu o culpado de uma alma que padece?

Serei eu o pretensioso mestre
capaz de ensinar a um aprendiz
tão bem, também, sábio?

Eu causarei esse incômodo?
Serei eu mesmo o vilão que suponho,
capaz de te tirar do conforto aparente?

Temo correr o risco,
de eu ser pra você um risco,
arrisco ou te risco?

Viajante

Eu sou uma pessoa que deve agradecer à vida
por não me dar tudo quando eu peço,
por me fazer esperar, e às vezes, ser o último;
ser o primeiro a chorar, o primeiro a sofrer,
o primeiro a tentar de novo, o último a realizar

Eu devo ser generoso com as quedas
e compreensível com as feridas abertas;
Eu sou aluno da vida em repetência
que não vê nenhum demérito nisso,
consciência

Paciência para ir além, corrigindo,
aprimorando, não lamuriando perda de tempo,
experiência não se dilui com passagens

Viajo por essa vida assim mesmo,
retardatário para alguns, apressado para outros,
no tempo do meu passo, respeito a minha caminhada

A estrada não disputa comigo corrida,
sou de todo um sábio quando não jogo
comigo, com o mundo, com a disputa
sem sentido com o outro

Amadureço nessa jornada quando percebo,
nas madrugadas regadas às reflexões,
que, pelo sim ou pelo não, quem é o último,
não raro, sabe o prazer de ser o primeiro
a ver a vida mais a fundo, compreendendo
a grandeza da viagem por esse mundo…

Para outra pessoa

Teu escritor favorito, exclusivo e anônimo
descreve tuas linhas, teus traços, teus pontos
reconhece em ti o outro lado do próprio sonho
percebido às claras, um incômodo

Tu, segunda pessoa do singular
do meu presente subjuntivo,
que tu saibas dos teus valores
mesmo que para o homem não
possa eu mensurar importâncias

Destas torpes ganâncias do ego,
do teu eu que não entende de mim,
desejo meu de expressar outros sentidos
porque não há a possibilidade de equivalência

Quando falo de segunda pessoa,
tu sabes, é sempre complexo,
cada ser único, individual,
indivisível, matéria indissolúvel

Por isso, não cabe qualquer métrica,
qualquer medida paliativa que sobreponha
tua melanina diferenciada, teu corte de cabelo,
teu jeito de falar, teu gosto pelo mesmo corpo

Não cabe para tu o mesmo peso, o mesmo remédio,
não cabe para tu o mesmo sentimento, isto é um…
retrocesso comparativo, não existe eu igual a fulano
até porque, o outro, seu bealtrano, não é beato nem um tanto!

Reconhecimento de saberes, competências e sentimentos

Em homenagem à Hélia Coelho de Mello Cunha pelo seu legado pela Educação. Mais do que pelos três períodos durante o curso de Licenciatura em Letras/IF Fluminense pela disciplina de Leitura e Produção Textual I, II e III, mas por toda a trajetória de dedicação, comprometimento e amor que ganha uma nova fase.

(Poema inédito: com subtítulo: Averbação para magistério)

Aí eu fiquei pensando,
depois do anúncio feito,
depois do fato concreto,
já premeditado e dito,
naquilo que foi posto:

Quanta história, meu Deus,
está descansando, desacelerando,
quanta vida, quantas vidas modificadas:
A sua, a minha, gerações abençoadas

Privilégio da sabedoria não apenas transmitida,
mas interiorizada; aquele saber que transpassa
cadernos, frascos de tinta de caneta, celulares…
carbono que roda, pó de giz, quadro branco, vidro;
máquina de escrever, transparência, slide,
aqui, não faço jus nem a mera metade…

Por enquanto, o descompasso da inacreditável
(in)finitude do magistério; egoísmo de saudade…
Daquilo que passamos, histórias para contar;
tempo também que iria vir (talvez virá)

Tempo para julgar não tive
tempo para absorver não tive,
tempo para dizer não tive,
tempo para dimensionar não tive,
nem quero ter tempo para esses serviços

Não averbam no coração
as despedidas inconsoláveis
de um ciclo de artista
e do legado da arte

Nova via de poema
de quem segue o mesmo caminho,
mas não deu conta naqueles versos,
que, para você, vão além da vaidade,
brotando em desalinho

Aprendi, caminhando para a segunda metade:
ante os meus vinte e três poucos anos,
vou continuar venerando quem iniciou nos idos dezesseis
a luta sem pesar de uma paixão

Mestres e doutores, a hierarquia da educação não comporta
o que, afinal de contas, nós dois já sabemos:
Quando o amor pelo humano se agiganta,
eu beijei a sua mão, agradecendo à moda antiga,
aquela que deixou de ser professora para virar amiga,
até depois da aposentadoria,
até depois…

Além do gozo

Hoje descobri que o meu desejo por você
vem de outro canto do meu ser,
não do lado animal que reproduz
orgasmo, líquido espermático,
que frui

Meu prazer constante, a sensação do gozo sem fim,
vai subindo manso e cauteloso, como o desejo pouco
de tocar seu corpo, acariciar o rosto,
descobrir o seu toque e o seu cheiro

A forma como você fica sem graça e vermelho,
o contentamento dos seus pelos fora de controle,
circulação do sangue que não te obedece,
seus olhos fechados fundamentam a tese
da maçã do rosto que, elevada de vergonha,
sabe muito bem compreender a entrega que vence

Sei que o seu personagem não queria
demonstrar a fraqueza que um dia
sua alma desdobrou, eu sei e você sabe,
e confirmo pela arte, o que pela arte você esconde:

Seu desejo viciante pela mesma carne,
pelo que você já conhece no espelho,
mas deseja em outra pessoa, o mesmo jeito
de fazer carinho

E é isso que me sustenta,
não a loucura pelo ato animalesco
que coloca dois corpos em um leito,
mas o afago do apreço
delicadeza do começo
além da carne e do beijo

Boa leitura

Que te falta senão
a despreocupação do livro,
café amargo com história forte

Que te falta, leitora avulsa,
senão o volume dos grossos livros
presos com vinco, senhora
para acabar

Que te falta o descompromisso,
a graça, leveza das interrupções,
faltas na estante que carecem de preenchimento

E ainda assim não completar teu sentido

Sem hora para fechar, tua livraria favorita
recebe hoje qualquer escritor-artista,
e teu objetivo abaixo do braço
não tem obrigação nem prazo para autografar

Boa leitura

Tríade do poema

Têm palavras que não merecem chegar até você,
não por vergonha ou medo meu, mas responsabilidade
comigo, com você e com a arte, trindade do poema

Têm versos que merecem você, mas não posso pedir: leia?
se eles revelam o seu rosto, se são seu espelho: veja?
se narciso quando se encara, admira: fará o mesmo?

Já não sei se posso causar dor e tenho medo do remorso,
pois já não posso conviver com seus choques existenciais
quando perceber, tarde demais que as palavras falam de você

Receio confessar que você é meu material, minha pedra bruta
receio macular aquilo que é raro na natureza, carece de cópia
ainda que por hora eu ouse guardar você em vias de papel

Sinto o peso que essa profissão me traz sempre uma vez mais,
sinto que estou perdendo o controle e ela me domina, não veto,
sinto ser o certo que no fundo é meu amor que grita: poesia….

Nós em dúvida

Já misturei tantos sentimentos
que não sei se estou apaixonado,
ou se é você o apaixonante,
não sei se represento o mundo
ou o mundo é que se representa em mim

Não sei se sou eu ou se sou alguém,
bem, vem, me permite a confusão,
perdoe esse turbilhão de dúvidas…

Nada muda, é verdade
você não arrisca,
não se permite,
e eu, cá dessa outra metade,
estou tão dividido, vai?

Vaidade já não carrego
digo o que por anos renego.
Afeto eu quero, quero você
mesmo que eu não diga.
Você sabe que sim,
sabe de mim,
sabe dos nós
sabe como desatar

Cama de gato.
Labirinto.
Nem tudo é cama.
Você entende que eu não minto
para nenhum de nós,
que já estamos unidos
mesmo sem querer

Mesmo não conseguindo passar pela sua mão aquilo que sinto,
certo ou errado, esses muitos lados não terminam jogo nenhum,
se foi um…

Aceno agudo

Que diabos importe os meus poemas,
que já não se fazem escorridos de tinta,
que já não maculam papel, sujando minhas mãos,
feridas da pressa escorregadia

Daquele que diz o que queria com a mente,
como se verbalizasse, como se declarasse
pela oralidade corriqueira e ágil,
o que não é fácil manter permanente

Que por deuses minúsculos esta agonia
de saber que a arte, de vez em quando,
não tem importância nenhuma, só serve;
ela só presta, para descarregar a adrenalina
que a palavra conduzia, ansiedade sufocante

Eu não sei quem vai me entender,
mas também não me importa saber,
se tudo que aqui caiu, caiu porque quis,
eu nem sei sequer o que eu digo, fico perdido
tentando me fazer compreender

Mas eu acho que há quem me saiba ler,
cuidadosamente, perceba que o que não digo
é o que está explícito, sem mesmo expor

Sei que você também se perde nas suas alucinações,
a literatura é apenas essa persona, essa criatura
que ganha vida própria, que respira, e implora
mais um segundo de reviravoltas
sem sentido

Sendo grave, aceno agudo

Cruzadinhas

E então, qual é a sua?
Passa por mim e olha torto,
do outro lado da sala,
do outro lado da rua

Você não disfarça,
encara e vira a cara,
olhares se cruzam

Não sorri e nem desarma,
não sei se faço piada,
não sei se devolvo,
se provoco, se estou louco

Olha demais, investiga, sonda,
afinal, afinal de contas,
o que você quer?

Esse cruzamento de dados,
são fatos que não se contam,
mas são percebidos

Mesmo que você não dirija palavra,
nem se esforce para ser sequer amigo
E assim o dia passa, o tempo passa,
passa todo mundo, e você, o último a sair,
não saiu de mim e nunca vai…

Vai…
Hoje eu sei até que ponto seus olhos
iam tanto até o fundo de mim,
Vem…
Eu também percebi, sei tudo que se passou,
e a gente não teve coragem de conduzir…