Farsa das palavras

A palavra fria
da sílaba fraca,
a frase vazia,
o ponto que não para.

Na sua vida tardia
minha poesia não fala,
sou vírgula vadia
não, não há vaga?

Sinto muito que me traia
palavra vendida, calada.

Sinto não ter sintonia contigo
quando faz tempo ela não envolve.

Palavra que não cativa,
castiga e me comove.

É outro sentido
– aquele que eu não quero ter –
por uma falta de sorte
– nem eu, nem você –

Sinto muito se não sigo as ordens…
Hoje me dei conta de que não sou nada.
Autor farsa das palavras.

São elas que me dominam
e ditam as regras,
são elas que se transmitem
e eu sou via de regra

Não as enlaço, nem as condeno
a viverem abaixo dos meus punhos,
não sou eu quem as compreendo,
um fantoche de dois mundo

Sei o que quero dizer
mas elas não dizem por mim,
têm vontade própria de um ser
que não faz terceira pessoa ver
o que vem lá do fundo

E não me adianta tentar
essa batalha é inútil.

O que me adianta segredo
se o que vai em meu peito
não chega aos meus dedos
por um capricho confuso…

Curtida

E na curtida eu tô de olho,
não comento, não compartilho,
mas tô por dentro

Eu estou atento,
não sei se entendo,
não sei se entendo,
estou rindo de você,
eu não aguento

Curtindo eu vejo tudo,
observo tudo, de tudo me oriento,
estou atento a tudo, observando sedento

Eu estou curtindo tudo,
curtindo tudo eu estou!
Sei que pra você não é nada,
mas está sendo notificada,
está sendo notificada
que estou sabendo!

Eu tô curtindo tudo,
curtindo tudo eu me atendo,
desnorteando você,
estou só querendo, querendo!

Coisas do facebook
intimando o meu intento,
vou te bloquear por dois dias
pra você ficar perdida,
vou te corroendo

Aí eu volto do nada
e você vem me consumindo
de perguntas desnecessárias

Só ir absorvendo
que eu estou em tudo,
estou curtindo meu mundo
mesmo sem você por perto

E se começar a curtir tudo meu,
eu sei que sou seu, compreendo,
é só cutucar ali do lado
que vou te respondendo!

Música digital

Estou com a mesma música o dia inteiro.
Sei que não sou o primeiro de todos,
mas serei o verdadeiro.

Reflito nas vozes fortes,
não me chame de cara de sorte.
Sei que luto, talvez, comova.

Deixei de pentear os cabelos,
esqueci a escova lá.
É simples e banal, não faz falta.

Não guardo nada na gaveta,
o rancor eu boto à mesa,
para me livrar logo

Posso ser decente, amando, sim.
Não fico me arrastando feito inseto.
Você me esmaga longe ou perto.

Escovo, sim, você por dentro.
Remorso não dói, nem dura.
Sua candura já passou batida.

A esperança é minha amiga,
a felicidade, quase prima.
O amor é meu irmão gêmeo.

Confidencio-me com eles,
mais sinceramente do que leio.
A música se repete incansavelmente

Eu tenho um novo refrão.
Acorde, desafinado.
Sua canção já passou.

Eu me desliguei desse rádio mau sintonizado.
Vivo de música digital, de alta definição.
Meu coração merece mais qualidade.

Ressecado

Desencantei
Quando um não quer
não adianta insistir.
Sei de mim.
De você no entanto
eu não imploro um sonho…
Propus um banho nas águas do amor.
Antes de entrar você já se secou,
já se trancou no não.
O que eu senti por você, perdão.
Não vou falar mais nada!
Água trancada não vasa,
e minha boca molhada
ainda não cansou de transbordar amor
Um copo d’água ofereci.
Você virou no chão…
Colocou meu carinho na condição do não.
Disse não merecer um eu e você…
Você encheu você de você
deixando-me com um eu que não quer ser meu…
Vou me afogando em mim
enquanto você resseca em si

Bichano

Felino do coração ferido,
esquece isso e vem cá
arranhar outras almofadas,
tenho um sofá velho pra você rasgar

Cruza em mim suas pernas
sua maciez de bichano,
arrepia minha pele
eu não lhe engano

Não precisa de sete vidas,
viva apenas uma comigo
que pelas outras eu acompanho

Fala, num sussurro, em doce miado,
um “eu te amo” com garra,
que eu permito que você passeie
por cima dos meus muros,
eles estão despencando

Pode até, nessa brincadeira,
abusar da caixa de areia,
dos meus trapos, farrapos,
pedaço de humano

Quero a lua contigo ficar observando
sem brigas, sem tristeza, nada disso;
Não vou permitir que se perca dos meus sonhos
que em cama de gato eu fico perdido por você,
pensando, pensando, pensando….

Bilhete

Ainda não é você
que faz meu mundo melhor,
que faz minha criança
crescida viver,
que faz o mundo descer

Mas mesmo assim
você me ensina
eu sou grato por isso,
você sabe que não é pela rima,
eu não minto

Sintonia de primeira,
estranha essa nova fase,
sem máscara trapaceira,
sem alarde

Sei que o que sente é recíproco.
sem falsidade
Nem penso se desisto,
não faço mais sabotagem

Desses meus escritos inéditos,
o verdadeiro ser poético
é aquele que se entrega
sem metade

E o que eu digo é sincero, insisto,
pela minha própria vontade, sei de tudo,
fui um tolo, fazendo o jogo da crueldade
fingindo ser o que não era por vaidade

Hoje sei bem o que desejo
e o meu desejo é você,
mesmo que seja passageiro
eu quero um bilhete

Não escrito, nem secreto,
pode ser pouco lhe ter por perto,
pode ser curto o nosso trajeto,
mas pago pela viagem…

Expoente

Eu me entreguei de mão beijada,
como quem decora tabuada
fui infeliz me subtraindo
pra somar com você, me dividindo

Fui fácil, não lhe dei nenhuma prova
– dos nove – fui incapaz de criar barreira…
Multipliquei anseios desde criança,
o amor precisa ser complexo,
fiz uma besteira

Na raiz, bem lá no fundo,
fui tapada, quadrada,
eu sei de um absurdo:
Ter a conta errada
por um sinal vagabundo

Sem trabalho algum fui zerada,
coisa que, se tem valor na matemática,
não tem peso no meu mundo

Fui infeliz na sua mira,
não contei nem um vintém,
se tive alguma serventia
não me contem

Não quero servir
como imposto nessa conta,
pagando altos juros,
sendo alíquota inútil

Nesse universo dos números
caí em negativa, expoente
suicida da paixão

Carta amante

Sou carta na tua vida
na manga, sou carta coringa.
Corto teu baralho, sou a final,
um às, de paus

Sou teu jogo mais mirrado,
coisa que cartomante
não faz fiado

Sou tua algoz
se tu não fazes por nós,
sou tua lâmina na ferida

Sou tua aposta de quebra-banca,
nem te dou um futuro bacana,
tua sorte invertida,
tua carta viés na partida

Sou tua armadilha,
passei tua vez na saída,
corto tua mão preferida

Matuto

Sou chato e sou grudento
o seu carinho eu sustento,
quero você sempre perto,
bem próximo de mim, aguento!

Fiz pra você mais de um poema
e ando prometendo um livro até,
sei que sou homem de muitas palavras,
não sei se você aceita todas as falhas,
mas eu escrevo por uma questão de fé

Para que você acredite em mim
e no quanto eu te amo, sem dúvida,
tanto, tanto, tanto, diga-me, se puder:

Eu sou enjoativo e pegajoso,
sou seu homem virtuoso,
seu príncipe valoroso,
ou, sem definição, é mais gostoso?

Sei que sou repentino e astuto,
das palavras sou um matuto hábil,
busco seu hálito quente e saboroso,
grudento sim, provando do seu gosto…

Espírito da arte

Eu vi o espírito da arte
que paralisou o corpo,
que tocou a alma

Eu vi outros olhos
concentrados no nada
e no tudo, que é a vida

Eu vi o espírito da arte
que colocou homem em outra dimensão,
que cuidou do ser nesse espaço

Eu vi o contato com o além
que ninguém lê, que quase ninguém vê,
que raros tocam, mas ela tocou

Ela estava fora de si
dentro de si, estava
dentro de mim, fora daqui,
fora de mim, eu apenas observei

Eu vi o espírito da arte,
absorvi parte dele
que ela sabe que tem

Eu vi o espírito da arte
e contei para o mundo
eu contei um segredo

Eu vi o espírito da arte,
fiz fofoca pela arte,
faz parte, parte de nós

Pele morta

Pedido de desculpas
devo a você, pele morta,
que vai embora de mim

Que sairá de mim
pelo ralo quando eu…
Eu queria que continuasse aqui
para me que me lembrasse das coisas
de um tempo que passou,
mas permaneceu marcado

Pedido de desculpas
devo a você, pele morta
que suou comigo,
correu comigo
foi na garra agarrada,
até as vitórias,
sentindo o desespero das derrotas

Você que me fez arrepiar,
abriu e fechou seu encanto,
que sorriu comigo, um dia

Pele morta, desculpe
mas você vai embora
com o ano velho

E eu vou reconstruir
tecidos novos
para minha vida

Futuro de um presente pretérito

Se eu buscasse seus defeitos
não seria seu amigo
mas se eu os amasse,
seu namorado eu gostaria
não de ser, porque não sou seu, – ainda –
mas de estar com você, bastaria

Não caberia minhas mãos nas suas,
parecer de ironia, pareceria,
mas é que minhas mãos são grandes
para caber em você como eu permitiria

Se eu puder dizer, no futuro próximo,
o quanto essa poesia disse do futuro
do pretérito – esse que vou viver, quem sabe, um dia –
eu direi novamente que valeu a espera,
eu obviamente esperaria, esperaria, esperaria

Retratada

Estou procurando um novo amor
porque o amor dela acabou
mas o meu não morreu,
meu amor transbordou,
meu amor sobreviveu

A fonte dela secou,
mas o meu rio desaguou,
meu amor é grande, enorme
o oceano absorveu

Agora eu sou mais eu
o amor dela secou,
mas não o meu

Ando procurando
alguém que queira
mergulhar nesse oceano,
que queira ser grande
deixar de ser torneira
como um dia eu fui

Sou água que flui de prazer,
quero ser de novo eu e você,
sobrevivi como quem transpassa
água retratada pra sorver

Agora eu sou mais eu
o amor dela secou,
mas não o meu

Feliz aniversário

(Para Darci Tomellin)

Pensa que eu esqueci
do quanto você me presenteou
com seu sorriso, sua energia
essa sua poesia viva

O sorriso, a astúcia de um palhaço
candura que despertou pra vida
pra minha vida, na minha existência
você fez festa, agora, agora,
feliz aniversário

Mais feliz, aniversário, bem vinda
novidade, nova idade, o mesmo ser
se é pra você, feliz, feliz, aniversário
e de novo, repito, feliz, feliz
feliz aniversário

Aquilo que se repete,
novamente, idade diferente
a vida renascendo
pra quem sabe viver

E quem a sério não leva
quem acha palhaço pateta
não respeita o corpo pintado
não sabe o quanto tem sido vazia
uma vida sem significado

Há quanto tempo conhecemos
um a outro, outro a um;
Nós dois sozinhos vivíamos bem,
mas celebrar contigo tem um porém
capaz de multiplicar,
controvérsia de duas sensibilidades somadas

Somos mais, bem mais vivos
duas máscaras de um teatro
não opostas, duas faces sorridentes
espero ter sido convincente de fato,
feliz, feliz, feliz aniversário

Poema Público

Baseado no álbum “Público” de Adriana Calcanhotto para atividade de figuras de som proposta por Vania Bernardo. Linguística II. Letras/Literaturas/2013.2. IF Fluminense.

—————–

Ao mundo Público de Calcanhoto
publico estes meus versos
e peço, pego, desapego,
emprego de excitação
o ritmo, o ato, um laço
visto, me calço, abotoo
soo Mais Feliz, sou assim

Intérprete, desperte,
Devolva-me esse clímax,
essa luxúria, loucura
de poeta, candura na voz
pudera, quimera da arte,
alarde tamanho, essa doçura;

O som carregado me chama
ao meu sentimento, momento,
invento, tributo e luto
comigo e com essa voz a sós,
Maresia que vem atroz
me deixa partir, inunda assim
meu coração que ama sem fim

Vambora que esse álbum
reflete, me pede na mansidão
o silêncio, o vazio
aqui eu venho e crio,
recrio, reviro, repito
e vivo, sobrevivo,
insisto agora contigo

Sem sentido eu nado,
ardo, me completo, me calo,
me armo deitado dos recados!

Que canções desse porte me afoguem
e eu não me debato, deitado, deixo
que por Esquadros, meu mundo perca a cor…

Coisas de literaturas que conversam
por um pedido, e eu, solícito à Vania Bernardo,
atividade de figura de som vai além de linguística
querida, detém, retém inspiração enquanto ouvia
com essa chuva que cai tardia, Adriana me consumia…

Grandiloquente

O universo, tão sábio,
me trouxe logo após um sábado
de descanso físico, um novo amigo,
descanso da alma

Eu, grandiloqüente inspirado,
preparei as minhas energias
para vibrarem paz e poesia

No final do dia, quem diria,
nós nos encontramos e, sem querer,
nos identificamos
com carinho, respeito e MPB

Brotou aqui alegria tamanha,
deixo pra você, minha criança,
o material de um sentimento
que não sei dizer de onde veio,
mas, sem receio, é para você

Obra-prima

Quando eu vi você feliz
mais uma vez, eu me vi assim também,
outra vez

Meu coração se desprendeu do seu
sem as correntes do ciúme,
eu sei que o amor é verdadeiro
quando deixa o outro impune
pelo roubo que cometeu

Coração desarmado foi assaltado sem amarras,
de mim você foi levado por terceira alma apaixonada

E eu não cumpro prisão perpétua
de desgosto, e até aceito o outro
como amigo capaz de fazer por você
coisas que eu não preciso dizer,
nem vou revelar o quanto queria juntos,
bem mais que poesia

E não me acabo de arrependimento,
o destino eu não lamento
se você aceitou outra mão antes da minha,
a minha continua aqui pra outra forma de companhia,
porque o amor mudou de foco e de tom,
mas não deixou de ser a cor da obra-prima

Réu primário

Você sabe que me tem e me esnoba
um dia a coragem vem e eu te jogo fora
mas antes disso você bem sabe que leva tempo
desprender-se de um amor que fere machuca por dentro

Você sabe que me tem na mão
e antes o que servia de afago, contradição;
Afogo-me no amor que eu pensei que tinha
sem a menor possibilidade de ser poesia

Vou definhando por maus tratos da paixão,
choro um bocado, dilacerado e ainda peço perdão
por coisas que nem de longe eu fiz
só pra me manter perto de você

E ainda tento inocentá-lo por me fazer sofrer
sou um pobre coitado me achando devedor de carinho
sou réu primário desse crime de vazios duplicados
só pra não ser condenado a ser triste sozinho

Insônia feliz

Seja minha companhia de noite
que eu sonho com o pouco,
aquela pequena amostra
de carinho

Fica comigo nessas horas
prévias de descanso,
vem incentivar meus planos
de um dia melhor

Não peço cuidado,
mas você tem se mostrado,
sem que eu pedisse
nada em troca,
contagem para todas as horas

E eu pretendo ter você
noites seguidas,
já me acostumei
se bem ou mau,
fica a dúvida,
a pergunta profunda…

Eu não vou responder,
já troquei as palavras que eu queria,
toquei a seda macia do meu pijama
vou pra cama, cansado, bacana,
ter você do outro lado, me chama

E eu pretendo ter você
noites seguidas, é claro;
Se as madrugadas serão em claro
é uma alternativa um bocado
irritante, se eu não tivesse você
nesse instante pra me dizer

É claro, sem luz acesa,
que eu quero você acesa
para me incendiar, acessa
minha insônia feliz

Segundo pensamento

Pensei rapidamente em você
essas coisas que não se pode dizer
em pequenas e poucas linhas

Pensei por alto e rápido,
uma lembrança do passado
ainda bastante recente

E esse flexe tem sentido
agilidade consumindo
a falta de coragem

Feito raio que vem caindo
sem direção é conduzido
caiu por compulsividade

E assim você me rouba os segundos
um momento de quase nada pro mundo,
de tão pouco, banalidade

Quem dera eu não me perdesse nesse segundo,
você não me prendesse por minutos,
e esse poema não ficasse pra eternidade

Que aí sim seria perfeito,
esse segundo preso em meu peito,
meu momento de êxtase somente,
vingaria na semente da felicidade

O amor do meu amigo

Para Ramon Martins, namorado de Rodrigo Moura, grande amigo.

Ele é o amor do meu amigo
o amor do meu amigo é meu amigo também
eu gosto dele como amigo, mas não como
o meu amigo gosta dele, cheio de paixão

O amor do meu amigo cuida dele
de outra forma, com mais atenção,
é mais intenso, mais seguro

O amor do meu amigo, cuidando do meu querido,
também cuida de mim, porque amigo feliz,
amigo feliz, me faz feliz também

É uma terceira pessoa cuidando de outra pessoa
que eu gosto tanto, e essa terceira pessoa
me ajuda, essa primeira pessoa, a proteger,
a guardar com requintes de amor crescente,
aquele pelo qual nós dois desejamos novamente,
e sempre, sempre, sempre bem…

Teoria da Literatura

Selecionei você
dentre tantos que me fizeram sonhar…
A diferença é que você realiza em mim
algo que nem em sonho fui capaz de chegar

Selecionei você
sem nenhuma pretensão de escolha,
sem pensar previamente,
sem expectativa, sem nada

Tudo foi acontecendo
a realidade se tornando sonho,
a vida prática é a melhor teoria

Teoria é isso daqui, a poesia
a compilação de um não sei
do que sentir, do que amar

Se é você por inteiro,
seu corpo, seu jeito,
seu sorriso, meu apego,
seu afago, seu cabelo,
seu falar, meu ouvido
que ouve coisas com sentido
que nenhum sonho sem sentido
foi capaz de me fazer acordar

Sem contrato

Ah, eu arrumei um amor
daqueles quase amigo seu,
que entendem, que curtem a vida em par

Ah, eu disse que não me negaria mais a nada,
vou viver o que chegou cheio de conversa fiada,
veio manso feito água que escorre na folha,
como passagem de brisa que sabe a hora de se agitar

Ah, que você sonhe comigo e construa
porque a sua vida também vive comigo,
e a minha respira a sua

Ah, eu arrumei alguém
que sabe sorrir e me dar alegria
com a presença que contagia,
irradia o motivo de viver junto

Ah, eu já fui cego, carrancudo,
dei as costas para a felicidade,
mas nunca é tarde pra zelar
pelo meu coração

Ah, eu vou cuidar do que me faz bem
e no momento o que bem me faz
sem cobrança, sem laços conjugais
é você, que sabe ser meu
sem contratos nupciais…

Fim de primavera

Quando seus olhos falaram comigo
gritando pra mim mais alto que o seu corpo,
aí eu notei que o amor tinha chegado
mansamente

Quando duas óticas de beleza se apresentam
e eu escolho a mais simples, a mais suave,
é sinal de que alguma coisa mudou em mim

O detalhe mais banal foi o que despertou
um carinho crescente, delicado,
armadilha convincente para a alma

Busquei o caminho mais rasteiro,
aquele olhar que eu não vi primeiro
tem agora nova proporção

Sem comentar aqui o seu sorriso,
ressalva para outro poema,
esse belo carinho largo

Vou me permitir outro verso
para seus lábios, suas pernas,
seu braço, calo, costelas

Talvez eu homenageie você
com um sem-fim de adjetivos,
vício de um nativo apaixonado

Não cale o merecimento,
simples transbordamento
dos seus olhos misteriosos

Não cale a meiguice viciante da vida,
simples como a última rosa a desabrochar
na saída da primavera que não terminou
em mim

Caído na vida

Sou seu anjo de asas cortadas
caindo do céu em disparada
pronto para me acomodar nos seus braços,
tratado como ele ou como ela, não machucada

Doce, simples essa alma pura materializada
soube muito tranquilamente da lição requisitada…
Alma pura, coração é uma convenção limitada
esse ponto de luz que dele ou dela irradia,
energia abençoada

Toque leve, suave e delicado,
não precisa de prece,
já não se pede intermediários

Nos exemplos é que se tece
milagre pela coisa amada…
Que amor seria esse de um anjo
tão perfeito, ainda quer complemento?

O amor é um julgamento dos homens,
tratamento equivocado, anjo não precisa
de amor, ela não precisa;
Mas ele aprendeu a dar amor,
caído na vida