Então…

Então eu sei do que somos capazes
quando acreditamos que podemos…
Então eu já sei das dificuldades
quando nos queremos perto estando distantes

Então eu sei o quanto persistimos,
contra a maré, nadamos e andamos
ouvindo “sim” em muito “não”,
jamais desistiremos

Então eu sei que a maioria não compreende
o que só você e eu vivenciamos, desculpem,
eu peço desculpa aos tolos que não não poucos,
verão, eles todos, o quanto se surpreendem

Está pensando que vai sair impune?
Então… eu só queria saber
se você queria casar comigo…

O quando

Vontade não me falta de ser eu,
mesmo que dê trabalho,
mesmo que meus sonhos sejam incansáveis,
vou buscá-los

Meu espaço ninguém toca,
meu olhar tranca a porta
e só eu digo: quem entra e sai

Eu não admito que me invadam,
nem mesmo o melhor e mais plausível
dos seres que eu considero de valor

Jamais alguém arromba e põe abaixo
as portas do meu interior, nem em assalto.
Não estou trancado, cadeados quebram fácil

É uma questão de respeito com o meu eu,
a unidade, o singular, a exclusividade
de ser eu vai ser preservada até quando
o quando deixar de ser advérbio de tempo

Quando o quando for o meu eu,
de vez em quando você vai entender
os meus tantos prazeres e defeitos,
mesmo os adjetivando de sujeito

Cólera

Sentir a palavra na pele
a mover a ira, o amor,
o ódio, o que for…
Provocar desconforto

Ser o encosto do que não se quer ler,
a obrigação do que não quer ser visto;
o meu mundo encantado está se diluindo

Vou na veia, fazer o corte profundo,
dizer que te odeio bem mais do que todo mundo,
jogar na sua cara a agressividade sempre contida,
eu não vou mais deixar você me ultrapassar na corrida

Quero que sinta o poder da palavra que corta,
cansei dos afagos, do carinho do abrir a porta
nas madrugas frias dos seus erros imundos

Espero que erre e erre de novo, que chore,
que grite, sentindo a solidão, o carinho
que você procura, não vai ter mais, cansei

Agora a minha palavra vai mostrar o outro lado meu,
o meu poeta vai ser trancado na tortura, molestado,
condenado sem regalias, sem prevenção alguma

Agora eu digo sem a preocupação da sua ferida aberta
e que ela arda, como arde a cólera quimera.

Brinde

Eu só queria ter a paz
que aqui eu não tenho
te fazer feliz demais
como é meu compromisso
mesmo que eu quebre
todos os vícios da norma culta

Ser o carinho da conduta que você espera
de uma espera sem sentido pela pessoa certa
Ser o amor que você sonha, o carinho
que te ronda, o desejo necessário

Quero ser o paraíso que você merece,
ser a resposta da sua prece no choro,
ser o louco que te aceita mesmo valendo pouco
quando na verdade não tem valor que estime

A estima que me convoca ao poema
é uma tentativa fraca, banal, pequena
desse adjetivo simples de poeta
para um sentimento que não se quebra
em pequenas e boas palavras

Não sei contar meus veros,
os poemas já perdi a conta,
mas meu amor por você não basta
nem nesta vida cancelo a compra

Oferta imediata e prontamente aceita
sou seu amigo, amante, namorado
o que você quiser que eu seja,
mas eu não troco por nada,
esse brinde surpresa

Que é o melhor presente que eu já ganhei
e mantenho guardado, um mimo, uma sutileza
que é ter recebido a honra de ter sua vida
relacionada à minha, em um combo de certezas:

De que qualquer palavra é mínima,
qualquer sentimento é pouco,
qualquer aperto no peito é a saudade
que tem me deixado louco

De que qualquer lágrima é apenas uma água
que não me afoga, nem me mata a sede,
que eu não faço nem a metade do que minha alma tem vontade
pra te proteger, cuidar, preservar no infinitivo,
infinito de mim, imperativo de você, minha ordem,
minha hora, minha honra sem medida, sou parte
de uma parte da sua vida que caminha com a minha…

Pesar

Não esquece da minha poesia
eu estou morrendo, não esquece
do meu riso, da minha rima.

Por favor, não esqueça
que cada letra era sua,
estou partindo nesse instante,
sinto muito ir embora
sem me saciar do que eu tenho a dizer

Sempre tenho mais alguma coisa a falar,
ou melhor, a escrever, mas o tempo
já não me cabe mais um verso

Está dizendo que é hora
de deixar as palavras mortas
sempre vivas, o poema
não escrito na eternidade
do pensamento

Eu estou morrendo
e não tem nada além
que somente o meu amor
por todas vocês,
minhas queridas palavras,
por vocês eu vivi
e mesmo morto

Pelos olhos

Hoje o amor por você falou forte de novo,
tocou fundo o meu coração ver seu sorriso,
seu rosto tranquilo, alegre…
É sempre bem-vindo
como há muito tenho desejado ver

Hoje a memória de tantas lutas vieram à mente
e eu preciso ser coerente com o que sinto,
não vou dizer pra você que eu minto um dia sequer

Hoje e antes, ontem você sempre soube, como também
no ano passado, e no anterior, e antes daquele outro ano,
você sempre soube todos os meus sonhos e planos e eu…
Eu sempre zelei pela sua alegria e o seu conforto

Hoje o amor por você falou forte de novo,
o amor que sabe que existe e me deixa louco
porque quero sempre seu bem e te ver feliz
é uma meta que poucos têm um pelo outro

Hoje o amor por você falou forte de novo,
falou no meu olhar e foi sussurrando uma lágrima,
e fui conversando com você água por água caindo
e fui aumentando o ritmo do rio que flui vivo
e, finalmente, fui gritando um choro incontrolável
de um amor inquestionável e por poucos…
que eu mesmo não sei a extensão do que sinto sem fim

Hoje o amor por você falou de novo
pelos olhos…

Conta da gente, amor!

Eu te amo tanto e muito e quanto
com exagero manso, coisa de quem sabe o que fala,
mas se atropela e repete, fala, conversa e insiste,
que ama, jura que ama, morre de amor, se entrega,
hipérbole do gostar, ama sem pensar, só sabe que gosta
muito, quanto, um tanto, um tanto assim enorme!

Eu te amo, e amo mesmo e mais ainda amanhã, não duvide
e diga para os seus falsos amigos que não te querem feliz,
que te amo, amo mais agora, e mais amanhã e bem mais que ontem
e diga para todos que não duvida disso, se sente seguro comigo…

Vai lá, fala lá que você sabe o quanto é bem, bem querido,
bem amado, bem vivo em mim e que eu vivo pra você, vai lá!
Conta, amor, que sabe o quanto eu faço tudo por você
e que faço ainda mais se você precisar, que a gente se entende,
vai lá, diz para toda gente que a gente se compreende bem distante,
sou seu amante primeiro no fogo e no desejo, na sede e na febre

Diga lá para quem quiser ouvir que você sabe o meu sabor,
que ama, sufoca, aperta o peito, sente calor, que dá pra ver
no seu olhar o quanto está sendo feliz, como nunca!

Conta, mas conta com gosto, com vontade, com delicadeza,
conta com a beleza de ver a vida de frente, de ser feliz finalmente
conta da gente, conta, pode falar, abertamente
que a gente se ama como muita gente não sabe se amar!

Óculos II

Retirei meus óculos
pela perna direita rapidamente,
cruzei-as sob a mesa e pisquei

Pisquei duas longas vezes
contemplando meu pensamento:
Eu via o que eu pensava
ganhando forma, tocando as pálpebras

Mudei de verso e de poema.
Não escrevo do mesmo jeito.
A dor amadureceu em meu peito
e como filho que a gente carrega
e só agora se dá conta da deficiência,
eu posso falar de verbo aberto e limpo:

Não tenho nada contra meu par de olhos falsos,
tenho enxergado muito bem a vida com eles,
mas é sem eles que me dei conta, patético,
das verdadeiras visões da vida

Estou aqui sim, me desculpe,
se você gosta da mesma pessoa que eu.
Olha pra mim
Olha pra mim
Olha pra mim
tira os óculos também,
mesmo que você não os tenha.
Olha pra mim
vamos, olha pra mim.
Olha bem no fundo de mim

Eu também gosto dele.
Olha ele por mim
cuida dele por mim
que eu vou me ausentar.
Olha ele em mim
que quando eu olho pra mim
só penso nele

Coloco meus óculos de novo.
Dou três piscadas profundas
Eu, ele e você
vemos o mesmo sentimento, o amor

Olha pra mim de novo
Olha pra mim de novo
Olha pra mim de novo
Estamos conversados

Cara a cara

Não é mágoa o incômodo aqui comigo,
não é dor, o que eu tenho vivido
não é sofrido, forçando a barra,
no berro, não é grito

Também não guardo calado
o que vem me consumindo,
e eu não faço desse incômodo
o que move o meu dia, a minha vida
é bem mais que esse tempo que me perco
parado tentando desvendar o que nem consigo

Cara a cara você sabe que meu olho
não tem o mesmo brilho, a minha risada
não tem o mesmo timbre do curtir da vida

Cara a cara você sabe onde a minha pele afundou,
você sabe onde está a ruga, a marca, o traço
novo que você fez tão bem, também, no plano físico

Cara a cara você descobre a lágrima presa por orgulho,
você sabe o quanto a represa guarda desse poço fundo,
você sabe o que me deixa amargurado, mas não admito…

Cara a cara, de cara lavada, você sabe porque tenho me esquecido,
porque eu tenho emudecido cada dia mais e porque eu não ligo.
Cara a cara você sabe qual é o incômodo que vem me destruindo.

A água que eu guardo aqui dentro é para não inundar mais você ainda
porque só eu sei o quanto já o afogaram desde que eu venho te seguindo,
só que das minhas águas você não bebe, não se limpa, nem se suja
porque cara a cara eu sou a água benta que vaza em desequilíbrio

Zelo

Para Alex Nilton

——————–

Zelo

O amigo, meu abrigo
companheiro de domingo
dos dias feios e lindos,
sobrevivo

Porque você me puxou
estou contigo, vivo
eu aqui e você no Rio
– São Paulo, de vez em quando –

Eu ando em falta, você,
sempre presente, meu presente,
meu querido, Alex Nilton,
nunca mais duvide do que eu sinto,
apreço verdadeiro e limpo,
sendo ligeiro no poema que vem inteiro

Desculpe a demora, o coração amadurece
o poema, essa coisa pequena de poucos versos…
Esteja certo, desabrochou agora porque a poesia
é quem manda, é ela quem desperta, feito Cinderela
buscando o príncipe, depois de tantos anos

Eu não fiz planos e nem controlo as palavras,
deixo que elas falem sem censura, sem cortes
para te mostrar que a poesia é um pouco de sorte
que atinge o coração, com amor pelas pontas dos meus dedos,
todo o meu apreço, carinho e zelo por você!

Liberto

Vou escrever pornografia
retirem o papel das mãos das crianças,
é melhor rasgá-lo após a leitura
porque a curiosidade causa perguntas
que você não vai conseguir responder

O aviso foi dado, só pra liberar minha consciência:
Que sabe que é ela que libera tudo, não o organismo.
O orgasmo vem primeiro à mente, produzindo
tudo que o desejo incontido reprime

O corpo apenas exprime na carne
o que a alma quer libertar e não sabe:
Por isso, a força bruta, a entrada que sangra,
desvirgina e arranha, desejo não é vaidade

Por isso a língua no canto certo,
a pegada que marca a pele,
por isso as pernas se entrelaçam,
por isso os pulsos se prendem

Por isso meu lado animal na cama,
deixa o lado afetivo para o pós-sexo
deixa o carinho para o pós-venda
quando não houve compra, mas entrega

Por isso, aqui não há metades
alma gêmeas, lamento, essa coisa de sentimento…
Agora é bobagem

Sei que quero o corpo no limite
como faz tempo tem pedido,
os líquidos, fluídos, não darão conta
nem do meu, nem do seu apetite

Coisa muita mais quente, muito além
atitude letal de quem não se preocupa
com o que não deixou de ser ancestral

Por isso, não há dose certa, exagero
por isso me pego em devaneios
muito mais do só querer

É o lençol rasgado pela dor,
molhado pelo ataque que nenhum de nós se poupou,
É o travesseiro encaixado na virilha
e a vida que nasce no urro, no berro incontido
fruto do tudo que foi proibido,
promíscuo somente por quem ainda não amou

Vale as costas arranhadas, a nudez violada,
vale toda carne rasgada, tudo que foi exposto
vale tudo que a outro for digno de nojo,
o prazer guloso

A comida que não se repete,
o mesmo sabor que não volta,
a boca que resseca, sufoca

Tudo que for ereto, aberto,
flerte indelicado, convincente
canibalismo do gozo da gente,
tudo que vier de dentro de mim,
exposto fora de você, cabe mais,
vai mais fundo do que toda palavra
vai, ousada, tentar viver

Avesso

Sou o lado errado
que erra, falha, falta
Sou fera, contrário
que avesso, sem compromisso

Sou o engano, o tolo, fraco
o que cata retalhos, buracos
o que canta, troca letra
Sou o careta, trocadilho
filho daquilo que é vago

Sou o que prejudica
o que se faz de ilha
o que se isola e se afoga
sem água, já sem vida

Sou o avesso do que se espera
o que limita tudo, apaga a vela
aquele que se faz apego e se liberta
o contrário do contrário
avesso do combinado

O poema inédito

Essa poesia é inédita
até o momento em que
aquele alguém que me interessa
a ler

Vai continuar a ser inédita
se outra pessoa garantir
que foi o melhor
meta-poema que já fiz

Vai permanecer inédita
se aquele alguém não tiver compreendido
que a expressão “aquele alguém” é você

Que seja inédita, passados tantos anos,
se cair em domínio público
sei lá depois de quantos anos,
se aquele alguém morrer

É inédita para o poeta
se o poema não chegar
àquele alguém que deveria

A poesia é inédita,
a palavra não;
O sentimento do poeta,
menos ainda, nunca foi inédito;

Mas se é para perder de fato
o ineditismo, eu preciso
que você, “aquele alguém”,
use a poesia, não apenas leia
o poema inédito

Fim

Eu quero me afastar
deixar de lado
o tempo que passamos juntos
nós nunca estivemos perto

Eu quero
cancelar todos os planos,
descumprir todas as normas
da eternidade, do para sempre

Eu quero chegar à finitude,
não desejo mais contar os anos,
vou embora amanhã

Eu não quero despedida,
isso não é um ultimato,
nem um aviso prévio

Eu já fui e você não me deixou,
já estou do lado de fora,
meio indiferente

Não guardo saudade,
já passei dessa fase,
não peço desculpa,
não tenho o que pedir,
nada mais

Não vou relembrar
os melhores momentos
e os piores apertos,
não faça isso também

Não deixe espaço na memória
para o meu nome, nem para a minha vida,
e não houve uma nossa, em momento algum

Não tenho do que pedir perdão,
nem te perdoar, nem tão pouco
culpar o tempo por nada

Acabou e está acabado
isso não é um basta,
e não guarde esperança,
definitivamente não tem recomeço

O que acabou está aqui
sem dor nem piedade,
nem amor, nem maldade,
é apenas o fim das minhas letras
em três letras apenas…

Fases

Licenciatura em Letras/Literaturas. Instituto Federal Fluminense. Teoria da Literatura II. Barroco, Arcadismo e Romantismo.

————————————————–

I

Sou louca, louca,
oca de Deus,
pouco racional
barroca do macaco
homem ancestral

O demônio vive um Deus avesso,
os santos cedem e não intercedem
nem para um, nem para outro
sou uma rouca que grita
na poesia vendida, vadia da prosa

Sou o pouco que me basta
e sou o basta que diz muito
sou a rima rica do adjetivo pobre,
a pobre que se limita à épica

II

Sou mimética e árcade,
cálice de um eu que não bebe,
não teme, apenas vive
sou, por mérito,
uma tola qualquer
vivendo a vida que der
reequilibrando paixão e fé

Sou o banco da praça
que a praga não deixou
grama fincar, sou a cama
sem flores, sem amada,
sem pudores, sou só

Sou o agora que o tempo não cessa,
sou a vela que não se apaga,
nem derrete, sou mente sem deleites
que vive o hoje debaixo da chuva
sou a filha da prostituta
que não sabe do destino da mãe,
filha da mãe, da avó

III

Sou daquela que não se toca
o futuro certo que não vivi,
sou, por todos esse pretérito
do amanhã, vilã de mim

Sou a toca do jabuti
que sonha, alto, tamanha
que corre de si

Sou a fase da idealização,
apaixonada, por que não,
por criação igual a mim!?

Sou a criança que conhece seu destino,
o vício da morte viva, condenada, vendida
que a sociedade vai reprimir já nas cantigas,
a qualquer toque, quem dera, eu encoste na sua virilha

Sou filha do pecado, natureza do lado errado
mas se quero alguém do lado, que seja você
a fuga dessa loucura padronizada
eu, eu, eu amo quem eu quiser,
mesmo que não agora, sou o ontem
e o amanhã, esperando o lado
que não se aconchega no divã

IV

Sou de toda um clássico
ato falho dos movimentos literários,
tive e tenho minhas fases, coisa de fera
que muda, que sonha, que cruza e urge

Sou do tempo do século dezesseis:
adolescente como a rima que se fez,
que não reconhece a própria voz, louca, barroca

Sou do tempo do século dezoito: centrada,
curtida da vida, da mocidade que amadurece
da planta que floresce e borda outro momento

Sou vigente, virgem do século dezenove,
apaixonada e densa que deseja e não pensa,
cabeça de vento, sou o tormento do desejo

Sou as fases que se fundem, se completam,
sou marginal das cronologias, sensual
e irresponsável nos movimentos…

Sou clássica
na atualidade,
sou dualidade
romântica e rude,
como o cuspe
que mata, envenena

Sou aquilo que funde, entrelaça,
sou ave que sobe e voa rasteira e rápida,
sou mulher que transpassa os moldes,
confundida, vivida, predominantemente,
cheguei aos vinte e um

Sincera

Sincera
minha vida
ganha outra
semente

Sincera
sou eu
com um só eu
sem, será?

Sim, cera queimada
não estou mais protegida
e lubrificada, posso queimar
de uma vez só

Sincera, abro mão da eternidade,
sim, será a minha vez de derreter
pela última vez
sem ser quimera

Sincera
minha cara
fica com as marcas
do seu tapa

Meu corpo
fica com os sulcos
que a vida secou
com tudo que foi expresso
espremido pelo tempo

Sincera
morro todo dia
não há segunda pessoa,
ninguém que possa
pisar nas poças no meu lugar

Sincera
eu me afogo
no sufoco
e no afago
de ser
sincera
senzala
sem sala
pra mim
sensata

Imperativa

Preserva
quem te inspira,
respira a alma,
arrisca a solidão
viver a confusão

Aduba o prazer
cultiva a vida curta
pula nua, se desejar

Investiga o que te faz bem,
não precisa da benção, amém!
viva sem permissão pra tudo
seja sua, dele, dela, fruto

Nem canta, nem dança,
o colorido do romance
não te cai, nem valoriza

Risca as idealizações,
apetite do que planeja,
seja, apenas, ceda sempre
as sedes do coração

Sede das contradições,
experimenta fora do posto,
inventa o seu próprio gosto

Viva a palavra nova,
o sentir é um futuro
que já foi o passado
de alguém

Cria a tua própria poesia,
chora tua própria aurora,
arrepia-se do que não se sabe,
monta a tua própria ceita
incendeia outras partes,
faça arte além da carne,
além do coração

Busca o teu próprio
ponto de fusão,
demarca onde você sentir
é ali que a vida começa
pra cada um, um devir

No silêncio

No silêncio
a pausa
é uma benção

No silêncio
afastamento
livre momento

No silêncio
tormento nenhum
volto a ser um…

No silêncio
o problema
é a falta do nada

Eu disse no silêncio,
não no escuro,
eu sou escudo da tristeza

No silêncio eu me calo
para não perceber os calos
de quando eu falo

No silêncio
do silêncio
eu me valho

Vago vagão

Seus traços
rasos risos
sorriso claro
claro pra mim

Caro jasmim
simplicidade fim
noites assim
raras. raras

Cara, coroa;
moeda antiga
esse amor,
trocado por margarida,
rosa querida, nostalgia

Pétalas de música boa,
proa do Brasil, antes do vagão
Porto Seguro é vago,
Pernambuco, meus pensamentos
vagam, vagarão…

Desprezível

Quem de fato foi fiel,
sentiu prazer em acolher seu fel,
procurou você sem lua de mel

Sou muito mais que papel,
mais que literatura de cordel,
sou sua noturna de bordel

Segurei sua mão sem anel,
já rimos juntos sem carrossel,
brincadeiras de babel

Entendo sua língua invisível,
mudei de tom sem o rímel,
talvez incompreensível

Sou sua carne crível
disposição incrível
até a omissão é verossímil

Agora quero que negue o impossível,
se não estou entregue em outro nível,
sou sua compreensível,
desprezada, desprezível

Sorriso frouxo

Ficar sozinho
pensamento vizinho,
da memória, o vinho,
copo vazio.

A mente cheia
chama na lareira
queimando na veia,
alma feia

Ser imóvel, inquilino
cálido, impróprio
óbvio, impávido

Pálido, alma branca,
fechada assiste,
fachada agride, insiste

Visite um dia, o sorriso…
No rosto a lágrima
de um frouxo, vive

Poética patética

Eu tenho direito ao amor
se é por ele que eu escrevo,
pela falta dele que me impulsiono
a necessidade da sua continuidade?

Eu tenho direito ao amor
se é a busca por ele
que me faz poeta?

Eu tenho esse direito
se é pela sua ausência
a capacidade minha da poesia?

Se o amor é o meu elo perdido,
o ponto máximo da vida,
o clímax da felicidade,
será que eu tenho, de verdade?

E qual será o sentido depois,
quando eu concluir esse grande objetivo,
será que eu ainda vou ter um motivo
pra viver?

Serei, então, redundante?
Afligindo-me pela conquista,
mais tarde confirmando e, ainda,
solidificando a pessoa amada?

Será, por fim, por mim e por nós:
Eu devo mesmo encontrar a resposta do amor
se é a interrogação e a angústia por ele
a minha sede poética patética?

 

Pistas da alegria

Quero um par para dançar
na alegria, dividir comigo
esse passo, essa energia,
multiplicando a felicidade

Eu quero essa mão colada na minha,
o riso solto dos timbres, dos sons,
do batuque bom que revigora, revigorará!

Vem pra pista comigo
ser criança de novo,
balança comigo no meio do povo
sem se preocupar

Somente esta intenção de ser você,
de ser pleno, não preciso de pena,
não preciso penar pra ser feliz,
é fácil, fácil, farei!

Você e eu, hey!
Rei da alegria,
sinto muito se
pareço gay
e não me incomodo com isso!

Só abrigo o bem,
estou zeen para as críticas,
ocupado demais com as vidas
que despertaram juntas nessas vias,
pistas de felicidade na pista!

Partida de ego

Mesmo quando se tem todas as cartas na mão,
com tudo pronto pra encerrar o jogo,
levar a mesa inteira, rodada rasteira,
prefiro o blefe da verdade

Sei que posso ganhar,
mas estou retirando a aposta,
dobrei tudo até o último minuto
para perder de propósito

Pensei melhor, nem todo jogo
a gente tem a obrigação de vencer.
E vou dizer uma coisa:
Não é questão de poder

Vale a pena tanta espera,
tantos momentos de tensão,
vale a pena as incertezas certas
das cartas na mão

Vale a pena colocar quase tudo na mesa,
comprar outras tantas de naipes diferentes
sabendo que eu poderia encerrar bem antes
esse jogo que não é prêmio do coração

É por respeito que eu passo a vez
sei que mais uma vez estive perto,
mas não vou embaralhar mais a sua vida
por mais que conserte a minha
só pra te ter por perto

É então um momento de ego…
Frear o meu para não deixar o seu
ainda mais aberto, exposto, decerto
que no fim de tudo, adio minha vitória
vou te dar vitória para que em outra hora
possamos nos perder juntos, eu espero

Ao som de trancado

http://www.youtube.com/watch?v=fAAAeLzopoM

Desculpe se eu não te amo
se enganei meus próprios sonhos
te pintando de perfeito e predileto,
mas o dia a dia me mostrou que esse afeto,
fica na palavra, ao telefone…

Meu nome você não vive nos olhos,
meu carinho não entra na sua via,
vejo sua veia em adrenalina,
coisa que qualquer corpo incendeia

É bem mais que eu esperava,
não que fosse expectativa
de pessoa já machucada,
fui realista sufocado

Não faço, porém, qualquer queixa,
nenhuma denúncia,
concedo o benefício da dúvida
para nós dois de fato

Estamos juntos, eu não nego,
mas sei o que é estar apaixonado…
Com você pode ser carinho em excesso,
falta de cuidado que eu, mesmo experiente,
deixei transbordar para o outro lado

Estou sendo claro nessas rimas,
sei que com esforço você entende…
Não fique em cima do muro
achando que o outro é quem precisa
cuidar da gente…

Sei, acima de tudo, o quanto você precisa
dizer e sentir que alguém se importa.

É convincente não trancar a porta.

Mas a fresta que ficou aberta
não é suficiente pra iluminar muito,
feche a porta e encare
você, outra pessoa que te queira de verdade
e o seu mundo…