Cartas

Tudo tem um tempo de existência.
Amizades, embora juremos
que são para sempre,
a distância faz com que
nos afastemos e que
ela diminua a cada dia,
até que raramente nos lembramos
um do outro.

Paixões intensas
parecem eternas,
mas quando caem na monotonia
acabam se desfazendo
até deixarem de existir.

Família também não é eterna,
apesar de ser tudo para nós,
os pais um dia morrem e os irmãos
constroem suas próprias famílias,
esquecem um pouco de nós.

O que sobra são fotos
porque a memória falha,
o que sobra são cartas,
são papéis envelhecidos,
consumidos pelo tempo
mas, que em muitos momentos
trazem lembranças honrosas.

Escreva a sua história
o papel carrega vida
e se quer guardá-la,
volte a escrever cartas.

Casamento surpresa

Lágrimas não me farão esquecer,
desculpas não vão resolver.
Dizer que tudo não passou
de um mal entendido
e que poderás explicar tudo…

Nada, nada,resolverá.
Gritar, agitar, bater, ameaçar,
de nada vai adiantar…

Calada!

Nada me fará esquecer
tudo o que você inventou
naquela noite, e o pior…

Eu disse, calada!!!

ah, sua ingrata,
o pior é que eu
não havia feito nada
naquela noite em que
cheguei mais tarde.

Somente preparava
toda a papelada
no escritório de advocacia
para que, em um futuro próximo,
nós pudéssemos constituir família
como marido e mulher.

O registro

Prédios com o tempo caem,
tapas com o tempo são esquecidos,
doações com o tempo são consumidas,
namoros com o tempo terminam,
palavras são momentâneas.

O que ficam são os registros,
são as folhas manchadas
com caneta e um sentimento.

Minha alma é entregue
a cada letra,
por isso acho que
o que escrevo vai superar
a morte e o infinito,
vai ficar escrito
pra tudo novamente
ser revivido.

O cemitério

Noite sombria de ar gélido
a lua traz fantasias e a neblina melancolia
noite calma, sem vozes a me chamar…
Escuridão total, não enxergo nada a minha frente…
Mas de repente bato num túmulo empoeirado…
Silêncio…
Não vejo gente e nem ouço sons a me atormentar,
a me deixar com mais medo do luar fúnebre que parece me observar,
a acompanhar todos os meus movimentos dentro desse cemitério…
Ando mais um pouco e nada,
nada que possa me ajudar a encontrar a saída eu conseguia visualizar…
Andando, tropeçando, machucando o corpo nas plantas espinhosas…
A perna ferida, sangrando, suado, com fome e frio,
horas ali dentro e nada,
nada da saída, o ambiente completamente vazio….
Espanto…
Uivos e latidos, e gemidos, silêncio e nada mais…
Parei, olhei pra lá e pra cá,
pude perceber um vulto cada vez mais perto…
Agora gritos, desespero e pedidos:
Ajuda! Ajuda! Socorro…
Não suportando mais a agonia,
corri, ou melhor tentei…
Quando puxei a perna gemi de dor,
passando a mão, sangue escorrendo senti.

[Acorda!!]

Oh droga,
estragaram o melhor pesadelo
dessa figura gótica
que só queria saber o desfecho
do pesadelo de uma figura nostálgica.