Fofoca

Sou passageiro, viajo com o tempo,
tive vários amores que não dei atenção.
Sou curto na vida de quem poderia durar mais.

Deixo meu recado em breve instante, e vou indo nessa.
Desculpe as promessas quebradas de que não deixaria.
Mas de forma estranha, a partida é natural.

Vou simples como cheguei, sem causar dor, nem lágrimas.
A vida ensina, e comigo se aprende, que não se prende a vida.
E deixo no máximo a boa saudade na lembrança que de vez em quando vem.

A recordação de um tempo feliz e de crescimento.

Desculpe esse momento de saudade dos amores,
dos amores que poderia ter, e não amadureci.
Caminhei adiante antes mesmo que eles pudessem surgir.

Hoje é que eu me dei conta de quantas contas de amor eu não paguei.
Hoje somente senti falta de pelo menos três amores que eram admiração.

E se eu soubesse disso no passado, correria de lá.
Eu fujo do amor para falar dele.
Acho que faço fofoca em versos.

Quando ele está muito perto,
sou eu quem quero ficar distante
O amor assusta, mas eu convenço

Entregue-se a ele, vá até lá,
enfrente o que eu não pude,
o que eu não tive coragem de encarar

E vou eu aqui em meus versos,
sabendo que cansei de fingir,
chegou a hora de ter coragem
para assumir o amor fora do papel

E fazer verso com a vida,
mesmo quando o coração se agita
sabendo que é a presa
de quem ficou preso por muito tempo

Confessionário

Para Analice, professora de Teoria da Literatura, Licenciatura em Letras, primeiro semestre do ano letivo 2013.1, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Fluminense

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Eu gostaria de saber quais palavras usar para esse poema.
Falta a palavra ideal, a pontuação correta,
a entonação no papel para este poeta.

Tudo deixou de ter ordem agora, e isso inquieta.
Talvez seja esse o princípio da inspiração, ou não.
Este congelamento de como dizer, vem de antes.

Porque a inspiração já é um estudo esquematizado
do que a alma expressa, já há um conceito.
Aqui não existe tentativa nenhuma de lucidez.

Nem mesmo na escolha de verbetes.

O dia em que se cala o poeta,
em seu próprio poema,
é o dia em que ele se rende
a sabe-se lá o que, ainda não inventado.

Um sentimento tão forte, e tão desconhecido,
que seria audácia do instinto de escrita,
até mesmo para ele, colocar isso na roda.

Nesse momento a sensação que se tem,
se me permito então qualquer alusão
ao que está terreno, tocável, seria:

Duas torneiras que se abrem,
e a medida que se desce o elevador,
cai uma gota no interior, morando a essência,
e uma gota mora nos olhos, mas não cai

É a emoção no encontro, no ponto…
O oceano que transborda por dentro
não tem a mesma água do mar que salga o olhar

O dia que se calou o poema,
que se trancou o verso no inverso
do desconhecido, calou-se qualquer sentido
de escrita, porque ela limita – muito –
o que se sente, e o que se pinta na sua mente

A palavra agora deixou de ser companheira confortável,
para ser qualquer outra coisa que coça, que provoca,
qualquer outro sentido disperso,
dispenso qualquer nova loucura de dar rosto a essa bela criatura
que não se diz poeta, sendo poeta sem palavra alguma

Afinal, para calar o poeta das palavras
é preciso a poetisa dos sentimentos
que desperta no primeiro o desejo
de capturar a segunda de algum jeito

Ainda não disse tudo:

Não sei se por conta
da delicadeza, jovialidade de espírito,
não sei se o assunto contribui pra isso,
mas querendo ou não, merecendo, ou não,
há naquela que cala o poeta a chave

A autoridade suprema de destravar
duas possibilidades de ver o mundo:
Aquele que toco, que vejo, que recorto em palavras;
E aquele que eu não me lembro, está intocado pela matéria,
por tantos eus poéticos, por mais que se tenha mil personas,
não alcanço o que me trouxe até aqui, o que me fez ser assim,
nem consigo dizer até onde tudo isso deseja me levar.

Contrato de fidelidade

Eu paro o mundo por você
pra te ver feliz, queimo agenda,
remarco compromisso, fico omisso
das tarefas que me demandam

Porque o meu ego não emana
esse vício de trabalho,
e nem me coloca acima do bem,
abaixo do mal, ao contrário;

Não é o cargo que me modifica,
sobretudo quando a vaidade dos outros
fala bem mais alto, grita

São poucos os que estarão comigo
pelo prazer da minha presença,
mas serão muitos os presentes,
na figura do meu posto

Ora, nada disso me enaltece,
só me alerta à prece para saber
separar os oportunistas colegas
dos oportunos amigos que atravessam
muito mais do que uma cadeira
e uma assinatura representam

Com estes amigos de tantos tempos,
assino agora o contrato de fidelidade,
sabendo que não é do papel que vivemos,
mas do coração que nos lembra dos laços,
e lavra na alma o desejo de bem-querer

Caminhos abertos

Não há mais nada a resgatar,
as tuas cartas eu já rasguei,
a nossa amizade já anda sem sentido,
e eu tenho sentido bem menos

Já não há drama, nem martírio,
tu não és mais andarilho no meu coração,
e eu já não mendigo mais tua atenção

Acabaram-se as nossas conversas,
o que nos ligava era o platônico,
amor, acabamos com esse laço,
o fim de uma era que se desliga

Há agora em mim ainda mais vida,
os caminhos estão abertos,
ficastes para trás em minha história,
fostes à outra direção, contrária,
e isto não me contraria mais

Nem abala os meus instintos,
e não, não ousaria agora
chamastes de inimigo,
mas passastes a apenas conhecido,
a quem eu tinha grande estima,
mas não vou mais deter minha autoestima
por ti