Overdose de hormônios

Ainda tem o seu cheiro no meu quarto
Não é questão de saber a marca do perfume
O meu olfato ficou apurado,
do nosso encontro não saiu impune

É preciso ir além de simples borrifadas
A minha alma ficou calada
tentando identificar a combinação
de uma colônia com a sua pele

Entrou por minhas vias
como uma espécie de droga olfativa,
contaminando tudo por dentro

Desta química não quero me curar,
nenhum encontro anônimo,
vou mesmo me identificar
em overdose de hormônios

Essência

O seu perfume me embriagou dominante,
ainda o sinto forte na memória,
agitou todo o meu sangue,
despertando meu instinto animal

Você tem o cheiro de Campos,
das matas invadidas à noite,
e o seu hálito quente ao meu encontro
se deteve ao borbulhar nas minhas veias
o desejo da liberdade

Do ponto que nossos corpos se encontraram
em esbarrões involuntários e propositais,
a sua pele fina e macia em contato com a minha
fez carinho.

Não esperava tudo isso,
nem sabia ser capaz de potencializar
normas comuns do corpo,
– de humano tenho pouco –
— Sou Poeta —

Esta essência impregnada em você
tornou-se inconfundível a mim
como quem sabe reconhecer de longe
a pessoa que vem distante
capaz de me seduzir alucinante

Ajudante

As tuas bênçãos, meu Pai, agradeço!
O apreço que tens por mim, agradeço!
Por ter me dado muito mais do que mereço, agradeço!

As minhas recompensas, agradeço!
Por teu zelo, carinho, agradeço!
Por confiar a mim tantos desafios, agradeço!

Por me motivar, me dar força,
por fazer de mim vitorioso, agradeço!

A propósito Pai, sei que demanda
sob mim as tuas vontades,
mas não tens me isolado,
pelo auxílio, agradeço!

Sou guiado por ti, meu Pai,
nada mais; Me leva,
eleva a Ti, por mim,
permito-me.

Pai, em mim apenas a certeza
de que sem ti não poderia
nem mesmo metade do que me propõe

Agradeço por me dar condições
de a ti ser devoto,
obrigado pelo voto de confiança

Por me abrir portas sem pedir duas vezes,
por tocar quem precisa me dar passagem
por me permitir seguir por ti,
agradeço por ser assim, seu ajudante

Sem honras, sem fantasias,
mérito apenas de tua boa vontade
para fazer das minhas necessidades
apenas te servir.

Antecipação

Novecentos e noventa e nove poemas,
e quantos deles pra você, quantos?
O milésimo, o mais importante…

É pra você, o milésimo, marcante
escrevo fora de ordem, fora de hora,
você antecipou a marca, o ponto,
pronto, é o poder do coração

Visitar o futuro sem ter vivido o presente,
e falar de passado com você, ser condizente
com tudo o que já lhe disse, com tudo que preguei

Prematuro o rio desceu fluente,
entrou nos mais finos versos
sem pedir licença ao tempo
cronologia que não se respeita

Aceita o meu corajoso ato
de atender primeiro ao milésimo fato,
antes de outros oito calos poéticos

Prioridade para o sentimento sublime,
não há como deixar mais pra frente,
ele vem, o de número mil, assim mesmo
como quem não viu o papel que pegou

Empurrou, jogou pro canto
e eu espero que não cause tumulto
nem espanto, se ele for pra você
que merece outros mil tantos poemas,
despertou em mim outra fase de poeta
para renovar palavras não ditas d’alma

Confinamento

Nunca recitei meus poemas,
ouvir minha própria voz
pronunciando minhas próprias palavras
ah, isso já é demais

Parece que ficando só no papel
estão guardadas, escondidas,
mas se eu as disser
vão correr até seus ouvidos,
e isto não quero

Ficando no silêncio da escrita,
lidas pela sua voz,
as minhas palavras são suas

Emitir os sons que trancafio nas letras
é dar liberdade condicional às palavras…
Se fosse essa a intenção, eu as falava
cara a cara, eu as diria…

Mas como sou poeta, que ironia,
quero que elas se eternizem,
perpetuem-se nas linhas,
caladas nas vias da fonação

Que qualquer entonação minha
não formalize o amor,
que ele não entre em formação,
não por mim…

Que ele parta de uma atitude sua,
na aguda curiosidade de saber
se os meus versos são seus
pela interpretação

Até que eu os confirme, ou não

Transfiguração

Coloco Deus na frente
e os aliados me cercam,
iluminam minha mente,
tirando-me das sombras

Parado não fico,
sou útil e vivo
me preparando
para as coisas do bem

O caminho é intenso,
não dói nenhum momento
as muitas tarefas propostas

De resposta o meu corpo
coleciona apenas cansaço,
mas minha alma não se importa,
diz que sou feito de aço!

O espírito agradece,
o conhecimento enriquece,
liberdade que emocionada,
transfigura o corpo,
enaltece a vida
que transborda!

Mania de perseguição

A sombra dá medo
era alguém escondido
querendo lhe assaltar

O colega de trabalho fofoca
sobre uma atividade que não lhe compete
e nem lhe interessaria

O amigo é falso, traidor,
se indica pra uma promoção
mas pede segredo a sua companhia
para lhe inscrever

A caixa do supermercado, implicante,
passou uma lata de ervilha
duas vezes, sem querer, de propósito

O semáforo está sendo consertado
em hora indevida só pra atrapalhar
a sua ida pra casa

Até o banco vinte e quatro horas
parou de funcionar pra lhe prejudicar,
não importa se o estabelecimento fecha
vinte e três e trinta

Se a gasolina sobe,
não é falta de sorte,
o dono do posto
não foi com a sua cara

Se o garçom não passa na sua mesa,
nunca mais volta no restaurante
pouco importa se ele está
sozinho no trabalho,
por causa de outro colega que não veio,
estava com a mãe no hospital

E não interessa se até a chave de casa
não está no seu bolso…
Culpa do seu amigo que lhe distraiu,
ao apertar sua mão e ir embora,
esqueceu que naquela hora
a chave ficou em cima da mesa do bar

Mania de perseguição, loucura!
Tratamento nessa altura do campeonato
não seria também causa de punição?

Inverso do poeta

Já disse tudo o que queria.
Meus versos você não quis interpretar,
os que quis, não soube;
Eu cometi o ato insano
de me autointerpretar

Você mesmo assim não entende,
ou quer mesmo que eu entre
com a franqueza cega dos apaixonados
que resolvem, calados de razão,
se prestarem ao papel, humilhados,
a oralisar tudo o que bate por dentro

Pior ainda são aqueles loucos,
mesmo depois de escrever,
explicar e dizer, ainda acham pouco

Falta ainda o buquê de rosas,
a carta cheirosa de admiração,
falta ainda a aliança que deseja colocar no dedo,
mesmo que ainda se pague à prestação,
tudo isso jogado fora, negado na contramão

Sem saber, entretanto, que na ânsia de falar
deste ponto de amor, antes de tantas atitudes,
faltou, sobretudo, saber escutar o primeiro não

Sempre bem disfarçado de delicadezas
para não causar estranheza nem constrangimento,
para não deixar para trás a amizade que ao outro
é o necessário somente

Se o coração não fosse tão insistente,
não aceitaria um gracejo de dispensa convincente
como incentivo dos carentes de continuar no erro,
sendo apontado pelos outros como um louco, alucinado,
apaixonado e demente

Tolices

Eu sei o tanto de amor que eu disparei no universo,
se for quantificar em forma de estrela, fiz constelações inteiras,
apenas com meus versos

Não me importo se este amor não volte,
o principal é ir e que dê sorte
de encontrar o coração certo
na hora certa, e ambas as vítimas
não ignorem os fatos

Que a semente vingue
e não se vinguem um do outro,
se um terceiro tolo atrapalhar

Porque tolice em dupla dá certo,
mas em trio, eu não vejo muitas
bandas sertanejas de sucesso
falando do ato de amar

A não ser, sei lá, meia dúzia de cornos
com cotovelos doídos de tanto sofer,
amargos os afagos comprados
que esse podre legado
pode oferecer

Conduta de amigo

Nós já passamos tantas madrugadas juntos,
e sonhamos unidos pensando na vida.
Fizemos tantos planos que não deram em nada,
daqueles que se perdem nos dias

Mas até esses pequenos fatos
foram apoiados com alegria,
entusiasmo fantástico
de quem acredita no outro

E mesmo tão longe,
a sua viagem não mudou nada,
continuamos nessa estrada,
no coração, bem perto

Eu tive tantas desilusões,
e tamanhas as minhas conquistas,
preciso creditar a você,
parcela considerável de vitória

Porque quando desacreditado
você me disse, luta!
E quando eu insisti em me chamar de derrotado,
você me disse, luta!
E quando eu chorei machucado
você me disse, luta!
Esteve tanto a meu lado,
qualquer sorriso acanhado,
culpa sua!

Obrigado, e obrigado, eu sei que não precisa,
como percebi também não ter critério,
você esteve a meu lado quando minha vida era muda
Agora que está alegre, e te digo sem maior cuidado,
grito, nem um pouco acanhado, mil vez obrigado pela sua conduta
de amigo!

Remendos

E fica na imaginação
melodias para canção,
sendo a vida escrita;
Os versos vivem de imitar

Paixão, quando chega
cabe apenas contemplar…
Prazer, estou de volta

você me conhecia,
só não lembra,
agora recorda
é a nossa hora de amor

Agora não precisa ceder,
se você acha loucura, tudo bem,
mais tarde, quem sabe, você acredita
que eu fui escolhida pra você

E se acha isso tudo besteira,
utopia de incorrigível apaixonado,
deixo a vida demonstrar tudo o que eu falo

Não sou profeta, nem adivinho
é apenas o fio correto
sendo desenrolado e puxado
para a outra ponta,
depois de tantos remendos errados

Sentinela da felicidade

Então vem assumir suas escolhas
não vou te prender nessa bolha de poema
você é bem mais do que pequenos versos
rimas que eu quero apenas guardar
pequenos fragmentos de você

Recomece vivendo cada momento
sabendo que ele é seu.
O tempo é seu, o passo meu
é apenas pra ficar do seu lado

Sentinela da felicidade,
nunca é tarde pra sorrir.

Acompanho você enquanto der,
se for pra te auxiliar,
a minha vida perto da sua,
e seja o que Deus quiser

Não quero nenhum obrigado
porque não faço nada que eu faço
para ganhar parabéns no final

Para você não há exigências
meu desejo apenas recomenda
sensatez para que você não sofra

Não me comova com lágrimas,
com nenhuma tristeza feita de descuido,
me desculpo a falta de guarda,
nesses tropeços do mundo

Apago

Já é o quinto ou sexto
verso que apago, me desapeguei
de palavras, desapego de tudo

E vou vivendo como as demandas
que mandam a vida seguir
seu curso sem diploma algum no final

O meu rascunho antigamente não tinha borracha,
mas agora as coisas mudaram, vou amassando papel,
sem compromisso com nenhum coronel, coração

Vou jogando com você e comigo,
com a vida, com os amigos,
vou jogando pelo vício
de jogar pra fora esse meu castigo

Sendo perturbado por todos,
por vozes altas
e perturbador de silêncios inteiros

Interiores primeiro falam de mim,
quando você apenas lê assim,
versos soltos que estavam presos aqui

Agora eu me permito terminar
pequenos trabalhos, artesanatos da alma,
lapidando as palavras em mais de um dia

Duas versões do mesmo eu-lírico,
dois autores no realismo
de ser apenas o corpo que entrega,
que transporta, e faz a ponte
que te leva a outro mundo,
literatura desconexa

Que conversa contigo
desconversando comigo
para dialogar com nós dois
tão distantes e distintos

Rebelião

Hoje eu não vou atormentar ninguém,
estou atordoado em mim, e isto fica comigo
não vou passar nenhum problema a pseudo-amigos,
não mais

Cada um que resolva o seu próprio problema,
e que responda o seu próprio dilema,
coisas de quem vê vários dias banais

Esgoto aqui qualquer tentativa de compreensão,
coisa pouca, ou não, para quem quiser me decifrar,
se é que vale a pena tanto esforço

Se eu feito louco já escrevo no automático,
dando vazão quase que sem filtros ao pensamentos,
nem tanto assim límpidos que desejam falar…

E a quem quiser maiores detalhes, não me indaguem,
não perguntem, deixem a curiosidade de lado,
esse é apenas o momento vago para deixar a mente vazia

Sem qualquer ironia, apenas para dar liberdade
a tantas e tantas palavras que se juntam,
cansadas do aprisionamento

Fizeram rebelião na minha mente
para reivindicarem a luz das ideias
materializadas no poema!

Pedragogia

E não me falem de pedagogia,
não aguento mais essas teorias,
tudo se mistura, não adianta

Só mesmo sendo muito sem sentido
para separar a educação em ritos
de tortas evoluções

Ainda se transmite conhecimento
na linha reta entre professor e aluno,
tradicional ainda, mesmo com tanta informação

Escola, de nova, não tem nada, nem a fachada
para fazer política, nem para isso tem servido…

Olhem cá o meu umbigo, e digam
se pensam mesmo no aluno, que nada!

Não me convencem estes tecnicistas,
cientistas da educação que pensam
na contramão da realidade,
a burocracia, a ironia de colocar no papel,
processamento surreal de aprendizado

E cá vou eu nos meus resumos poéticos
tratar também das teorias não críticas,
expressas nos versos acima, a utopia
de mudar o mundo com a escolarização

E os pessimistas dirão que não há volta,
que a escola é um ato de manobra
para firmar rico no alto, e pobre abaixo,
confirmando a marginalização

Fiquem então associados que os coronéis
do Estado pressionam os currais enfileirados
para colocar o professor de capacho
vendendo ideologias compradas,
fazendo-os acreditar que vão mudar tudo,
aspirando o mundo melhor

Que ironia, está tudo programado
até esta proposta de poesia crítica
seria crítica mesmo, ou era esperada de mim
está revolta, esta ira em versos
para registrar o quanto eu quero
cooperar com o sistema da educação?

Estou estudando por mim
ou para cumprir etapas de um processo
já arquitetado, pensado para corroborar com
doses de perseguição e manipulação em massa,
tendo a audácia de chamarem isso de revolução
para um país, paradoxalmente, sem educação?

Pedragogia no meu sapato!

Poetinha

Eu só quero saber se o fato de você ter um rostinho bonito,
se é apenas isso que me encanta, ou se tem algo a mais.
Ainda tento descobrir qualquer outra característica
que me coloca à risca de não desistir de lhe ver.

Não sei se é toda a ousadia que você vende,
esse jeito louco com cara de inocente
apenas procurando se encontrar…

Não sei se é o fato de eu estar carente,
ou se é o coração querendo o controle
da minha razão pra dar vazão a um outro
rumo em minha vida, se for essa mesma a saída,
eu posso mesmo me deixar levar?

Você é só um rosto lindinho,
de um homem nem tão bonito assim,
apenas querendo me encantar?

Será que basta apenas a sua vaidade
para dizer a minha sensatez:
– Não precisa mais se imunizar?

Ou será que eu quero mesmo é essa brincadeira
para fazer uma nova forma de poesia,
reinventando o que por anos
pensei ter o controle?

Será que por você eu quis perder esse controle
ou talvez eu apenas tente invadir seu mundo
para buscar lá no fundo outras formas de viver,
sendo ainda sensato, mas corajoso e com cuidado
para não me perder de mim em você?

Aperfeiçoamento

E volto ao papel seis anos depois
para registrar nesse mesmo espaço
o que o meu desejo gritou anos antes,
aconteceu

E fica neste espaço o que meu pensamento
forte e insistente solicitou profundamente,
atendimento depois de muita preparação.

Nesses frios corredores o que era
quente em meu peito um dia, derreteu!
Causando delírio constante
enquanto palavras escorrem

E fica aqui o meu alerta de compromisso
para não ser ingrato com o destino
que, sabendo o melhor pra mim,
presenteou-me com o melhor disponível
para que hoje eu pudesse ser lapidado de novo,
em um aperfeiçoamento contínuo

Lançamento

Hoje anoiteci com vontade de lançar um livro.
Eu sei que para o autor é complicado.
No presente lanço o meu eu do passado a um futuro incerto.

Aqui está a grande questão.
Lançamentos são pegadinhas do tempo.

O que me vale mesmo é render homenagens,
hora de reunir pessoas especiais
para declarar tudo o que vem antes das palavras

Os versos não são nada sem as pessoas,
mesmo que elas não se deem conta disso.
em momento algum.

Vejo diante de mim amigos queridos,
pessoas que mereciam este lugar,
este meu momento de destaque também.

Porque eu preciso de cada semente
de sentimento para mostrar aqui, nesse momento,
o valor de cada um, de cada um, de cada um!

Vou falar o que me der na telha,
sabendo que hoje não merecerei puxão de orelha,
por nenhum descuido com essa tal Portuguesa
companheira antiga de cada um de nós

E direi com liberdade, com isenção poética,
daquele que mesmo sendo lapidado na própria língua
não se deixa domar por qualquer rima mais simples

E nem tão pouco vai elevar o vocabulário
para demonstrar que este operário aprendeu alguma coisa,
não preciso de exibição, não.

Aqui fica apenas a constatação do ser,
puro e simples, ser oportuno do que cria,
e não escravo da criação