Cartada

Está proibido
de se despir de pudor,
eu não quero mais

Essa sua atitude de solteiro,
solto aos prazeres, chega
agora é comigo…

Eu sei que esse fogo não acaba,
coisa de gente quente,
testada pela vida.

Sou carta curinga
que vence o jogo,
sei que você não é bobo

Me escolheu porque temos
a mesma sintonia,
apetite que não sacia

Finge que não sabia que era amor,
mas nas entrelinhas a gente entende,
que de inocente você não tem nada

Mas de vez em quando ser sonso
pode ser bem convincente,
uma alternativa de sedução

Eu também cansei de aventuras,
de não ter um caso firme,
mesmo que não seja cotidiano e metódico,
podemos construir o nosso próprio jogo
sem azar na partida

Não precisamos perder a emoção,
a volúpia que nos envolve,
que nos deixa em transe
com tantos caras diferentes

Mas chegou a hora de demonstrar
as nossas muitas caras para o mesmo cara,
ficar cara a cara com um só
para sermos muitos nós,
sem nenhuma amarra

 

Bruxa

Pode ser que dê certo
mas se eu disser que não quero,
que cansei de me machucar,
não há curativo que seque,
não é ferida que feche,
cansei de remendar

Não vou viver feito maltrapilha,
farelo de milho não faz pipoca,
eu gosto mesmo é de fartura,
essa falsa candura não vai me ganhar

Cansei de você,
não vou me vender,
nem ser trocada
por vale-promoção

Eu não vou pedir mais nada
cansei de música cantada,
cansei até de cobrar alguma coisa,
de baboseira estou cheia,
não vou mais buscar agulha em palheiro,
ou os uso para limpar os dentes,
ou os queimo

Sendo bem esperta,
agulha é feita de ferro,
ela vai sobreviver as chamas

E eu vou perfurar a cama
para me divertir com raiva,
fazer tipo de sanguinária
para assustar a vizinhança

Até que achem o colchão rasgado,
queimando alto todo aquele mato
que ninguém corta

Vou assustar todo mundo
bancando a louca moribunda,
com cabelo desgrenhado,
com a louca conduta de rasgar o céu
com gargalhada de bruxa

Tentativa

Claro que podemos voltar naquela conversa antiga
podemos, sim, claro, por que não, bater na mesma tecla?
Há alguma regra que nos impeça de voltar ao passado?
Será que devemos abraçar o clichê de não reviver pendências?

Pode falar do outro,
você sente ainda falta, não é?
Ainda não seguiu adiante por isso

Insiste mais um pouco em se machucar
que mal pode ter em querer sofrer?
Quem foi o juiz que determinou
prazo de validade para se esquecer…

Eu sei o quanto você ama
mas não quero ser repetitivo
palavras de amor o tempo todo
cansam o corpo, a mente e a alma

Calma, não estou lhe cobrando
não há juros na vida,
não se preocupe com tempo perdido
o tempo é daquele que se sente vivo

Eu não peço que você deixe de chorar,
se é que você ainda tem essa vontade,
não precisa negar, não economize água.
Ela sempre volta à natureza

É da natureza de quem ama o sofrimento
simplesmente no momento em que se ama
apenas de um lado, é um fato

Ainda assim é amor, meu caro
ainda assim é amor, é seu amor
é o seu amor, mas o amor é seu
mesmo que ele tenha lhe abandonado
mesmo que ele tenha abortado
o amor puro que a ele foi doado

Você não foi doido por ter tentado,
ora, não fez nada de errado,
e essa dor que você sente…

Não adianta, não mente,
só a está sentindo
porque, no mínimo,
apenas o ato de tentar
valeu a pena

Espera aí

Espera aí, deixa eu tentar explicar
o que você viu não é bem assim…
A vida cria armadilhas
pra vê se eu quero mesmo viver

Talvez você nunca me entenda.
Talvez eu seja mesmo complexa
Talvez eu não queira ser entendida,
só vivo entendiada

Eu não inventei nenhuma história,
mas eu acompanhei a sua própria.
Talvez eu tenha feito errado.
Talvez eu devesse agir de outra forma

Mas quando eu fui pensar no mal
que estava fazendo a nós dois,
depois, não tinha mais jeito

Eu tenho consciência de que não sou
tudo o que eu gostaria de ter sido.
Nem tudo o que eu digo tem sentido,
mas boa parte desse todo,
talvez você, tolo, acreditou

Mas não que seja mentira.
Espera aí, não agrida
a nossa amizade dessa maneira.

Nem tudo o que disse foi asneira,
sempre há um fundo de verdade
nas minhas palavras

Desculpe se não estou sendo clara,
não é essa mesma a minha intenção.
Eu só faço alusão ao café e à música,
não que ela expresse o que me vem quente n’alma

Mas tem ajudado bastante a me manter acordada,
junto com as minhas rimas, reafirmam a coisa falha.
Errada fui eu quem aceitou você assim

Vou ter que assumir os meus atos algum dia,
devo começar primeiro na poesia a lhe dizer
que a culpa de tudo nem sempre foi minha,
há sua parcela também, mesmo que você não saiba

E se eu fico calada vendo o horizonte…
Não aponte o dedo em riste para me acusar
temos ainda muito o que conversar.
Eu e você (dentro de mim) precisamos do diálogo
ou eu jogo tudo pelo ralo do meu pensamento?

Eu quero convencer você que vive falando comigo
no íntimo, antes de todo poema,
para depois tomar coragem de trocar o café
e essas músicas de fundo do poço
por cair dentro de você de fato

E realmente eu não sei quanto tempo isso ainda vai levar,
quantas xícaras devo sorver com cuidado
para não me queimar com você

Mas eu vou beber, um dia
ainda bebo você, quente
um dia, eu bebo você

Embriago-me.
Mais dois dedos de você, por favor.
Não me venha dizer que acabou!