Um dia de chuva

Vem que eu quero dizer
o quanto te quero bem
aproxima seu coração do meu
chora toda a sua dor

Diga-me o que sente
vem e não mente
eu sei que você sofre

Entenda de uma vez por todas
que o meu amor não é a toa
e se eu digo para você desabafar
é porque o mar está secando,
preciso das suas lágrimas pra desaguar

Rio da vida quando a vida ri de mim
chora que outra hora, a lágrima que caiu no chão,
vai para nas nuvens morar
e então, na tentativa de ressussitar,
cairá sobre as nossas cabeças

A mesma água te vi um dia derramar
hoje cai em meio aos nossos beijos
é a chuva que nos molha
mas a gente não se importa em nos amaro

Estação

Partiu às 11 dos trilhos frios de uma cidade pequena
viajou com delicadeza, o vermelho-ferro-enferrujado
a dar um tom diferenciado à mata verde; multicolorida
de pigmentos das aves desse país diversificado

Carregava à carvão, as rodas pesadas
passageiros apressados, desesperados
ia em grande velocidade, rasgando o tapete
à copa das árvores com rajadas de vento

E avançava quilometricamente por horas a fio
por dias e dias: uma mulher dava à luz,
um homem dormia com uma folha de jornal na face
enquanto que por fases via-se a lua sumindo
era essa a rota em que um mês atrás eu via o trem partindo

Envenenamento

Vem-me à veia seu sangue, seu suor
Vem-me à veia quando lhe beijo,
uma onda à garganta, um nó

E na tentativa incerta de acertar o seu ritmo
vem-me à mente seu coração em um grito
que sinto silencioso quando lhe beijo
a nadar num doce rio vivo

Entre desejos e corações desequilibrados
um abraço não tem condição, são mãos e pernas
tremulas a apalpar sem distinção

E quando vejo somos perdidos
e perdidos nos queremos
entregamo-nos um a outro
outro dia não mais teremos
é uma descoberta única a que temos
na próxima não será tão intensa

Descobriremos novas coisas
mas esse mesmo extase jamais
repetiremos, a descoberta fulgaz
o fulgoso veneno que de trocas mútuas
envenenamento

Amor simultâneo

E quando emitimos energias boas
E damos ao pensamento vazão
E transmitimos às pessoas certas
nossos sentimentos mais sinceros
somos recompensados

Quando digo que te amo
amo mesmo, não engano
e quando digo que vivo
e vivo mesmo em paz com você
não há quem possa me convencer
de que você, amigo que é,
quer meu mau

Pois que ao lhe mandar energias positivas
e idas de meu coração, há uma troca
sendo que recebo de ti novas vibrações
e esse ciclo se renova para o bem
sempre para o bem,
porque o amor entre eu e você existe
e os momentos em que ele reinou serão
inesquecíveis

Violão

Junte-se aqui comigo, sente-se à beira-praia,
violão e areia, nos pés, nostalgia e sentimento, nas mãos,
composição sem partitura, letra sem sentido,
a boca vai muiscalizando os pensamentos
que se deixam levar pela brisa triste
de um passado distante,
não se via, nos lábios do jovem músico,
o doce paladar do beijo,
não veio, ficou a água salgada
quando mergulhava no mar da paixão passada….

A empresa

Mordiscou os lábios. 12:30. Quarenta minutos de atraso, inadimissíveis quarenta minutos. – Transito desgraçado. Um passo a cada três minutos.

– Eu lamento Jorge, mas não posso largar o carro no meio do tráfego. Por que não remarca essa reunião?
– Você só pode estar brincando! Sabe quantos milhões estão em jogo com o fim desse encontro?! Não podemos ter nem mais um dia de atraso!
– Que se dane! Vou chegar aí em 15 minutos, podem esperar. – Jogou o aparelho celular para o banco do carona.

Tomou a calçada, não queria saber das consequências. Acelerou, quase bateu em uma árvore, por pouco não atropelou os pedestres. Nada deixaria ela longe da promoção mais significativa da carreira – e já teve muitas etapas importantes na sua vida profissional.

Cinco minutos mais tarde, bem mais cedo do que esperava chegar, estacionou em frente ao monumento de vidro. Antes de sair, pegou seu batom vermelho, retocou as falhas feitas pela ansiedade do trajeto, ajeitou os belos cabelos loiros, e saiu em direção ao último andar.

– Sala da diretoria, por favor. – Mesmo anciosa sua aparencia não denunciava seu estado. Seu sorriso enigmático e a voz macia, conferiam-lhe ar sereno.

– Estou subindo Jorge, mais trinta segundos. Prepare minha cadeira.

Bateu o telefone e olhou-se no espelho do elevador. Consigo mesmo dizia nessa fração de segundos:

– Preparada minha querida?
– Não me resta dúvida da resposta – Disse baixinho.

Caminhou pelo corredor principal com a maleta na mão, com o passo mais firme que nunca. Abriu a porta rapidamente, não olhou para os lados em nenhum momento. Sentou-se na sua cadeira de costume ao lado do presidente da companhia. A vice-presidente, logo confortável em sua cadeira, disse com voz sisuda:

– Perdoem-me a demora, o tráfego estava um inferno. – Não prolongou muito as descupas – Sérgio, quais são as nossas realidades na contabilidade – Apontou a caneta dourada para o colega de equipe um pouco a frente, a sua direita.

Sérgio era experiente: 22 anos de profissão deram a ele visão de futuro, seja em qualquer mercado, estável ou instável. As moedas poderiam estar inseguras, mas ele não:

– Não vou enganar vocês, nossa situação é difícil, a perda de clientela têm nos deixado por baixo.

Viviam pareceu não dar atenção a uma das vozes mais respeitadas da empresa:

– Claudio, qual é a nossa força de trabalho? – Dirigiu-se ao rapaz mais afastado da esquerda.

– 35 mil homens, 15 mil mulheres. 3 unidades, além desta central.

Viviam não pensou muito, pediu para que todos saissem. Deixando ela e Jorge, o presidente, a sós.

– Sabe que sua decisão pode te dar o maior cargo da companhia. Diga-me o que pensa em fazer.

– Passar o pente nos meus cabelos.
– Como? – Jorge não estava impressionado, mas sorriu gostamente.
– A malha fina da companhia. Vamos tirar os gordos que comem rosquinhas de trás de suas cadeiras, tirar seus ar-condicionados e pôr todos ao trabalho. – Jorge levantou a sobrancelha direita – Tem mais, proseguiu a aspirante à presidencia – Cortaremos a força de trabalho masculina pela metade e aumentaremos a força feminina em 45%.
– Tem certeza?
– Ela o encarou seriamente nos olhos – Veja, – Viviam apontou as planilhas de levantamento – as mulheres produzem dois produtos a cada 5 minutos, os homens, levam 7 minutos para produzir o mesmo. Temos perda significativa no final do semestre.
– Certo, vamos testar seu esquema e no próximo bimestre montaremos novo encontro.
– Testar?! Você sabe o quanto suei para chegar neste posto?! Não fosse por um prefixo besta, temos os mesmos cargos. Você não me “testou” em nenhum momento.
– Vamos decidir isso de outra forma então.

Toda aquele stresse incomodou os dois cargos mais importantes de uma empresa com um futuro incerto, mas às portas fechadas, deram vazão ao que desde que se encontraram, como meros empregadinhos da mesma fábrica, desejavam fazer. Elevaram seus lucros, luxúrias e juros sexuais a uma margem de lucro fora de questionamento.

Sétimo andar

Entrou no prédio correndo. Atravessou o hall num piscar de olhos. Pegou o elevador.
– Para qual andar senhora?
– último
– Pois não
Assim que o rapaz virou-se ela foi categórica em lhe dar um beijo. Estavam a sós na cabine. Duas cameras no alto gravavam a cena. Chegou ao destino. Largou do jovem num salto e partiu para aquilo que deveria fazer. Hoje. Agora. Nesse exato momento. No corredor, avistou a sacada.

– Vamos!
– Temos razões para acreditar que ela entrou naquele edifício, vamos depressa!
– Portaria do Edificío salazar, com que morador deseja falar?
– Polícia. Precisamos entrar.
– Um momento. O porteiro olhou para o televisor que gravava as imagens da rua. Dois policiais estavam na porta exibindo suas crendencias oficiais. A porta foi destrava e aberta.
– Uma mulher ruiva, com mais ou menos 1,80 cm entrou a pouco aqui?
– Sim, a senhorita Júlia. Mora no 302.

Os policias foram correndo ao elevador mais próximo.

– Com licença, poderia me informar para que andar a senhorita Júlia do 302 desejou ir a pouco? – Esse foi o nome que ela deu aos funcionários do hotel, pensava o policial.
– Pois não, estranhamente ela foi para o último andar. Ela deveria parar no terceiro, mas não foi o que…
– Precisamos chegar até ela o mais rápido que esse elevador puder subir! AGORA!

Em questão de minutos estavam no andar desejado.

– César, mire os refletores próximo ao sétimo andar. – O colega foi avisado pelo rádio. Se estiver vendo uma pessoa na sacada, não aponte a luz diretamente para ela, entendeu?
– Certo, senhor. – Alguns segundo se passaram e então ele retornou: Sim, parece ser ela.
– Estamos perto dela também, vamos tentar uma abordagem amigável.

– Já devem estar aqui. Não vou perder tempo. Não aceito ser trancafiada, nasci livre e livre serei, nem que for na eternidade. Jogou-se.

– Não foi possível fazer nada, ela se jogou.
– Ela morreu! Tudo muito rápido, não conseguimos salvá-la.

Causa mortis: Suicídio
Motivo: Não declarado
Passagem pela polícia: Assassinato, furto, depredação de patrimonio público, perturbação à ordem e à moral pública, atentado violento ao pudor, abuso sexual, tráfico de drogas, formação de quadrilha, sequestro.

Falta de amor. Não teve vida digna, sem enterro decente. Na eternidade seria mais feliz…

Desenfreada

7:04. Acordou abruptamente. Xingou aos quatro ventos, acordara irritada. Sonhou o que não queria. Fez de tudo para não relembrar disso ao menos dormindo, queria um sono tranquilo e não o teve. Acordou frustrada.

Deu um salto, vestiu-se, pois que era de costume dormir sem amarras. Dizia a si mesma que dormir libertava a alma, e qualquer coisa que a prendesse poderia impedir que viajasse por outros mundos. Sim, queria libertar-se desse mundo, sem loucuras, mas desejava fugir.

Era uma mulher infeliz, de meia idade, esperta e vivida. Meiga, mas séria. Fria, mas encantadora. Ríspida e sedutora. Descrvê-la fisicamente não será necessário, não era espetacular, mas sabia usar suas armas quando queria, e fazia bem feito. Brincava com homens, eram previsiveis e completamente tediantes.

Saiu do quarto, bebeu seu café forte, leu a manchete do jornal local, fumou um, dois cigarros, pegou as chaves do carro e saiu. Não iria ao trabalho hoje. Ver as mesmas caras, as mesmas reclamações, ter os mesmos pedidos.

Decidiu dobrar a esquerda, e não a direita. Gostava das esquerdas da vida, davam mais graça pra continuar. Nessas esquerdas da vida, um dia, tinha se perdido, gostou de se perder. Nunca mais foi a mesma.

Fumou mais um cigarro, colocou a cabeça para fora da janela, xingou um motorista e jogou o cigarro fora. Queria ir em alta velocidade para uma vida mais dinamica, onde gostava de não dar as cartas. Toda pessoa gosta de ser guiada sem saber o próprio rumo. Ela sentia falta disso…

O ambicioso

Sou o controle, a grana e a ordem
Sou o poder, a cobiça e a sorte
Sou ego inflado que consquistou respeito

Sou a ganancia, a inveja e o insurpotavel
consigo o que quero sem quem me impeça
Sou a avalanche a cair sobre a floresta
e dissimar toda a vida, congelando-a

Sou a determinação em traço forte
Sou tudo aquilo que me ajude a chegar onde quero
Sou a morte no gatilho sombrio
Sou o desprezo em meio à dor

Eu sou apenas eu,
esqueci quem sou
Sou nada,
nada foi o que sobrou
da minha cobiça desenfreada
que me suicidou

A conversa silenciosa

Venha aqui e sente do meu lado. Quero ouvir você dizer que não está preocupado com as horas hoje. Quero que você sente e relaxe, respire fundo e aspire todas as energias que te pesam o corpo. Diga-me, além de seus conflitos sentimentais, os seus sorrisos de felicidade justificáveis por um momento inesperadamente alegre de encontrar alguém que não via há muito tempo. Quero olhar em seus olhos e ver a força do brilho intenso da sua vitalidade e garra. Do seu rosto simples, a insegura de levar poucos e brilhantes anos da vida. Não foi um roubo, foram bons momentos vividos e aprendidos em sua essencia para se tornar o que hoje você é. Mas, sentado a minha frente não é bem isso que penso em dizer para uma das pessoas que mais me fez crescer até agora. Eu não quero dizer nada, porque nada tenho a dizer, prefiro observar.

Menina-moça

Sinto falta do seu cheiro doce, do seu beijo doce, do seu sossego, moça
Sinfo falta do seu sorriso singelo, do olhar que quero, da lua nova, moça
Sinto falta do seu jeito simples, da sua fala simples, da sua roupa, oh moça
Sinto falta daquele molejo, do seu desejo de despir-se à toa,
Sinto falta da moça que um tanto boba foi me deixando tonto
e quando eu me vi perdido, sendo da moça bandido,
fui me perdendo todo pela menina moça
que lavando a louça um dia me cativou

Sinto frio

Sinto falta de te ver banhando-se nas margens de um rio límpido de águas cristalinas, completamente nua a explorar cada centimetro do seu corpo da forma mais sensual que uma mulher poderia chegar a fazer, tentando desesperadamente, através do tato, se autoconhecer ou simplesmente levar às mentes masculinas o orgasmo sem freios. Escondia-me, mas alguma coisa me dizia que você tinha conhecimento da minha presença, e acho que foi isso que te tornou um pouco mais desafiadora, vulgar e impressionantemente mais cobiçada por cada neuronio meu que desenfreadamente trabalhava na cena de ver-me deitado em cima de ti fazendo amor…. Sentia que isso seria possível se investisse nas palavras certas ao te abordar; mas esse momento jamais chegou. Voce nao saiu daquele rio. Ao mergulhar, não mais voltou à superficie. Fiquei longos dolorosos minutos esperando seu retorno, mas voce afogou a propria vida em um suicidio tentador: na sensualidade e na frustraçao de nao poder realizar tudo que planejei.

Adeus

Estou indo embora, adeus
quem sabe outra hora eu volte, adeus
adeus meu sol, adeus, adeus minha cama
adeus, adeus, meu silencio reservado, adeus
adeus ao amor de minha mãe, adeus mãe
adeus aos amigos que fiz nessa vida
adeus, estou indo embora, adeus

Cansei, adeus, lutei pra dizer, adeus
construi, persegui, venci e persisti,
mas, mais uma vez, adeus

Adeus ao pássaro que não ouvi cantar
Adeus à flor que não vi desabrochar
Adeus ao cheiro de terra molha que não pude cheirar
Adeus aos meus filhos que eu não pude ensinar
Vou indo, adeus

Adeus ao rio que eu não vi desaguar no mar
adeus aos peixes que não eu pude pescar, adeus
adeus aos parques que eu não pude observar
vou indo embora, adeus

Adeus ao dono do banco, ao dinheiro que não pude sacar
Adeus ao padeiro que eu não pude aprovar seu trabalho
Adeus ao porteiro que eu não vi o sorriso de bom dia, senhor
Senhor, adeus

A Deus eu rogo que me perdoe
vivi tão cegamente que não vi a vida passar
preocupei-me com coisas fúteis e a elas
tenho remorso de dizer: Adeus

Reencontro fluvial

Eu tava na chuva
molhando mais do que meu corpo
eu tava na chuva, chorando aos poucos
mas não pense que era choro diferente do doce da chuva,
se duvidar era o choro mais doce que eu poderia chorar

Molhavamos-nos de suor, desejo e luxúria
a água que deixava sua blusa mostrar os seios
era a mesma que molhava o enrijecido
e na tentativa de nos fazer felizes
nos consumiamos com tamanha intensidade
incrivel rapidez que se por ali alguem passasse
nao saberia mais o poder de um segundo de reencontro

E de tudo que do céu caia vinha morar em nossas bocas
a chuva que lhe banhava a boca, invadia nossa paixão louca
descontrolada, talvez tola e nos afogavamos em amor

Esconda-se, menino

Esconda-se em baixo da cadeira, menino
procure uma mesa pra se proteger, menino
o mundo está tremendo, menino
e tudo no fim das contas desaba em você, pequenino

Seus pais já são visitas na própria casa
sua mãe não te gerou, o pai não pagam
irmão, se tiveres, menino, tens sorte
pelo menos um laço de sua família
contigo vive

Quando os genitores chegam, menino
já vão todas as horas do dia
e tu, ainda menino que és
o sono derrota, não importa
se queres o beijo materno
cansas ó criança, não consegues esperar

E na falta de presença de quem lhe deu os sobrenomes
crescerá um homem que só isso levará dos antescendentes

Quando lhe caiu o primeiro dente
sua mãe dando aula
seu pai no consultório
veja que ironia, fazendo extração

Quando seu joelho ralou
sua mãe almoçava com as colegas
seu pai em reunião

Quando seu corpo evoluiu
sua mente expandiu sem controle
sua mãe continha um aluno revoltado
seu pai calado remarcava consultas

Sem se darem conta que nesses dias
você perdeu o dente
aquele que não precisou de extração
você precisou de ajuda em matemática
aquela conta que sua mãe ensinava
você precisava almoçar com sua mãe,
reunir-se com seu pai
aquele mesmo tempo rápido
E quando você precisava que alguém contivesse
sua mente de adolescente confuso
seu pai não marcou uma consulta que lhe ajudasse

Enfim, menino, você enfrenta o mundo sozinho
Esconda-se em baixo da cadeira…

Beijo corrosivo

Meu nome eu nao sei
de onde venho esqueci
se tenho maioridade, sei não
se adormeci no banco não percebi

Se choveu à tarde, quem sabe
se me molhei, pela metade
ou se foi choro, nao vi
se as lágrimas tinham sentimento, menti
tudo que lembro é que eu nao vivi
o suficiente pra dizer que fui feliz
ao seu lado, foi um beijo curioso
um tanto raro, que de tão rápido
se fez o mais longo e o mais corrosivo
apagando da minha mente qualquer momento
antes de te ter nos meus braços

Troca de energias

Hoje não se quer mais ouvir, um amigo já não divide com você todos os seus sentimentos, preocupações, alegrias, conquistas ou derrotas. Agora chegamos na era da troca de energia, saimos da divisão, para o particular, o fechado, o solitário, ou, se não, negociamos nosso tempo e nossa disposição de divisão.

Barganha-se os sentimentos, as sensaçôes: Ouça-me enquanto falo, desabafo sem folego, e digo e repito todo o meu tormento, o que me aflige. Aconselha-me, seja o meu guia, ande comigo, mas não diga nada, agora sou eu que preciso de ajuda.

Se você for forte o suficiente para apenas ouvir lamúrias, cale-se, sente-se e ouça seu próximo até que lhe esgote a saliva, e nesse micro instante de pausa, responda com a cabeça um “Eu te entendo e prossiga” até que tal pessoa se vá e nem chegue a perguntar como você está, ou simplesmente se precisa de algo.

E, quem sabe outro dia, o ciclo se inverta, pois que ajuda mutua não existe mais. Agora isso é o que vale: eu te ajudo e amanhã preciso ser ajudado…

Pacto nupicial

Aproximou-se do templo
o vento tremia o tempo
as pernas balançavam
o coração nao batia mais
(era tão acelerado,
já não podia mais distinguir suas vibrações)

Aproximou-se dos portões
(portões? estaria ela no céu?)
com sua veste trabalhada
com seus cabelos escovados
com a beleza ao ápice naquele dia
ela sorria, e se pudesse ver sua magia no espelho
se autoconfundiria com um anjo

Entrava a canção de boas-vindas
a cada passo não se cabia em si
todos ali naquele espaço a esperavam
ansiavam pela presença
da divina, do anjo-menina
que abençoaria os dias
de um soldado de Deus

Assim os príncipes
na união angelical
seriam rei e rainha
e a posse seria consumada
noutro dia

Veio então
passo após passo
a igreja ruia
o palco da festa pronto
chegava àquele ponto
palavras trocadas
amadas e abençoadas
e pronto

Aplausos se faziam tanto
que os Deuses certamente
ouviram o acalanto
na troca de olhares
e os mares, ah os mares!
secaram por um momento
no beijo em que dois mundos se uniam
ondas iam e viam trazendo
ondas e mais ondas de paixão…

Rio de luz

Você é luz, controle
direção, caminho
trilha na selva da vida
entre árvores tremendas
que as folhas impedem
a passagem do sol,
na escuridão total
eis você

Um rio: das suas águas bebo
doces palavras refrescam
e acalantam, antídoto
para as serpentes
da flresta,
da mata fechada
perigosa

Você é o canto
da mais colorida
da mais serena ave
que com sua voz suave
corta os ares com suas asas

E de manhã se faz bom dia
benvindo ao novo amanhecer
com a passagem lenta das suas águas
faz-se despertador simples
ao mesmo tempo necessário

E com o passar das horas
quando começo a fugir
da sua sabedoria
a sede dá um nó na garganta
não adianta tentar desviar
do seu lado devo ficar
nos seus afluentes de energia
desaguar para da paz em abundancia
ser feliz

Soldado de Deus

Pranto em Deus, tanta emoção
a palavra invadindo, arrebatando
as maldades desse mundo
não me farão mais confuso
a minha estrada não tem caminho torto

Sou a canção de louvor
sou a lágrima de confiança
sou aceitação das melhorias

Ele propõe, o tempo age
Ele ordena, o tempo age
Ele perdoa, o tempo aceita

Ninguém me fere, Deus aqui está
e eu trabalho em prol Dele
sua obra concretizarei
sou instruido a vencer
conquistarei seu coração
em nome da salvação
em Cristo, rei

São guerras prontas
lutarei no exército do Pai
vencerei e pela compaixão
conquistarei uma vida melhor
para ti, irmão

Quartos escuros

Quartos escuros
portas trancadas
janelas fechadas
não se vê luz
não se vê nada
não se tem velas

Desespero, ninguém lhe ouve
fobia, não há ajuda
ninguém passa, socorro
gritos não se escutam

Chore no canto,
com o rosto entre os joelhos
cai lágrima, cintila um pouco
veja um fio de luz através dela

E de repente, Deus está diante
nos olhos, agora brilhantes,
a chave da escuridão

Luz se quis, com fé conquistou
o resgate chegou, és mais feliz
não pelo pedido atendido
mas sim, pelo anjo que não lhe deixará mais
sozinho num quarto escuro

Calypso

Levada agitada, cantada com swing
até que enfim algo novo
música do povo também se faz no Pará

Bahia, Bahia o que!
esquece axé e a dança do bambolê
a levada louca dessa vez
se vê com Calypso

As letras decora quem quiser
nesse ritmo o que valé
é dançar sem compromisso

Rebole, se quiser
aqui não tem samba no pé
não precisa de alegoria
ou fantasia, basta energia
pra que a alegria reine

Doença sem cura

Olha minha linda
seus olhos de menina sofrida
não me impedem de te amar

Olha garota sombria
não desisto da sua luz
que em mim ilumina

Olha guerreira
é triste ver você
perder batalhas…

Se eu pudesse lutar por você
esteja certa que morreria em combate
mas veja a maldade desse mundo
nós dois não vamos ficar juntos…

São doenças irreversíveis
quero te poupar mais sofrimento
não quero lhe condenar a morte
por sorte, você terá outro alguém

E este será eu realizando o meu sonho
quando eu partir…

Livre arbítrio

Ele é a voz que comanda sem ordenar, sussura, fala baixinho, só a você o cabe escutar. Pois que não há obrigação em aceitar, embora se pregue que Ele é o melhor caminho, você tem todo direito de nega-lo. Não obriga você de nada porque entende que fazer o que não se quiser não vale como aprendizado, e sim frustração, o que atrapalha qualquer forma de ensinamento.

Você caminha na praia e mergulha nas águas criadas por Ele, mas não se sinta na responsabilidade forçada de agradecer, usufra das riquezas deixadas sem necessidade de pagar qualquer tipo de tributo em troca. Ele não quer seu dinheiro, não quer comprar sua alma, não quer te vender a salvação. Até isso é escolha sua.

Não dê falsos sorissos quando quer chorar, você cuida de si mesmo, não precisa aceitar a ajuda de ninguém. É um direito seu a solidão.

Ele não quer lhe convencer que te salvará porque isso você tem que perceber por si só. Não há uso de manobras, marabalismos, mandingas, sinais ou nada que impeça você de nega-lo. Mesmo que tudo isso ocorra, você ainda poderá dar-lhe as costas e ir embora negando todos os avisos.

Pois que não se quer um boneco do lado Dele, apenas um objeto de companhia. Quando for a hora e o dia você perceberá que deve se incorporar a Ele de bom grado e sem máscaras.

Deus não o obriga a aceita-lo, apenas quer que isso venha de você pela plena vontade e crença no seu trabalho de evolução por completo, sem fantasias.

Reforma ortográfica

As palavras resolveram discutir,
umas não acreditavam que a reforma ia sair
mas já que está valendo, algumas gostaram
outras não arredam o pé do passado

O u, que tinha dois olhos
entre o q ou g e mais uma vogal,
ficou indignada, achou palhaçada
não poder mais espiar os dois namorados

A idéia gostou da ideia
de perder o acento,
veio em bom momento, confidenciou

Ao ser ridicularizada pelo i e a,
ela não conseguiu evitar a grosseria:
eu perco o chifre que os dois me deram
mas não perco o som que me marca a melhor

O voô reclamou
cortaram-lhe as asas
agora não pode ser
confundido com os pássaros

Quem não se importou foram
as proparoxítonas, indiferentes
não lhe modificavam nada

Os hífens, apesar da salada
no seu uso, não foram convidados,
não sabiam se na casa da mãe joana
eles eram usados, resolveram estudar
a tal reforma ortogrática…