O poema inédito

Essa poesia é inédita
até o momento em que
aquele alguém que me interessa
a ler

Vai continuar a ser inédita
se outra pessoa garantir
que foi o melhor
meta-poema que já fiz

Vai permanecer inédita
se aquele alguém não tiver compreendido
que a expressão “aquele alguém” é você

Que seja inédita, passados tantos anos,
se cair em domínio público
sei lá depois de quantos anos,
se aquele alguém morrer

É inédita para o poeta
se o poema não chegar
àquele alguém que deveria

A poesia é inédita,
a palavra não;
O sentimento do poeta,
menos ainda, nunca foi inédito;

Mas se é para perder de fato
o ineditismo, eu preciso
que você, “aquele alguém”,
use a poesia, não apenas leia
o poema inédito

Fim

Eu quero me afastar
deixar de lado
o tempo que passamos juntos
nós nunca estivemos perto

Eu quero
cancelar todos os planos,
descumprir todas as normas
da eternidade, do para sempre

Eu quero chegar à finitude,
não desejo mais contar os anos,
vou embora amanhã

Eu não quero despedida,
isso não é um ultimato,
nem um aviso prévio

Eu já fui e você não me deixou,
já estou do lado de fora,
meio indiferente

Não guardo saudade,
já passei dessa fase,
não peço desculpa,
não tenho o que pedir,
nada mais

Não vou relembrar
os melhores momentos
e os piores apertos,
não faça isso também

Não deixe espaço na memória
para o meu nome, nem para a minha vida,
e não houve uma nossa, em momento algum

Não tenho do que pedir perdão,
nem te perdoar, nem tão pouco
culpar o tempo por nada

Acabou e está acabado
isso não é um basta,
e não guarde esperança,
definitivamente não tem recomeço

O que acabou está aqui
sem dor nem piedade,
nem amor, nem maldade,
é apenas o fim das minhas letras
em três letras apenas…