Ajudante

As tuas bênçãos, meu Pai, agradeço!
O apreço que tens por mim, agradeço!
Por ter me dado muito mais do que mereço, agradeço!

As minhas recompensas, agradeço!
Por teu zelo, carinho, agradeço!
Por confiar a mim tantos desafios, agradeço!

Por me motivar, me dar força,
por fazer de mim vitorioso, agradeço!

A propósito Pai, sei que demanda
sob mim as tuas vontades,
mas não tens me isolado,
pelo auxílio, agradeço!

Sou guiado por ti, meu Pai,
nada mais; Me leva,
eleva a Ti, por mim,
permito-me.

Pai, em mim apenas a certeza
de que sem ti não poderia
nem mesmo metade do que me propõe

Agradeço por me dar condições
de a ti ser devoto,
obrigado pelo voto de confiança

Por me abrir portas sem pedir duas vezes,
por tocar quem precisa me dar passagem
por me permitir seguir por ti,
agradeço por ser assim, seu ajudante

Sem honras, sem fantasias,
mérito apenas de tua boa vontade
para fazer das minhas necessidades
apenas te servir.

Antecipação

Novecentos e noventa e nove poemas,
e quantos deles pra você, quantos?
O milésimo, o mais importante…

É pra você, o milésimo, marcante
escrevo fora de ordem, fora de hora,
você antecipou a marca, o ponto,
pronto, é o poder do coração

Visitar o futuro sem ter vivido o presente,
e falar de passado com você, ser condizente
com tudo o que já lhe disse, com tudo que preguei

Prematuro o rio desceu fluente,
entrou nos mais finos versos
sem pedir licença ao tempo
cronologia que não se respeita

Aceita o meu corajoso ato
de atender primeiro ao milésimo fato,
antes de outros oito calos poéticos

Prioridade para o sentimento sublime,
não há como deixar mais pra frente,
ele vem, o de número mil, assim mesmo
como quem não viu o papel que pegou

Empurrou, jogou pro canto
e eu espero que não cause tumulto
nem espanto, se ele for pra você
que merece outros mil tantos poemas,
despertou em mim outra fase de poeta
para renovar palavras não ditas d’alma

Confinamento

Nunca recitei meus poemas,
ouvir minha própria voz
pronunciando minhas próprias palavras
ah, isso já é demais

Parece que ficando só no papel
estão guardadas, escondidas,
mas se eu as disser
vão correr até seus ouvidos,
e isto não quero

Ficando no silêncio da escrita,
lidas pela sua voz,
as minhas palavras são suas

Emitir os sons que trancafio nas letras
é dar liberdade condicional às palavras…
Se fosse essa a intenção, eu as falava
cara a cara, eu as diria…

Mas como sou poeta, que ironia,
quero que elas se eternizem,
perpetuem-se nas linhas,
caladas nas vias da fonação

Que qualquer entonação minha
não formalize o amor,
que ele não entre em formação,
não por mim…

Que ele parta de uma atitude sua,
na aguda curiosidade de saber
se os meus versos são seus
pela interpretação

Até que eu os confirme, ou não

Transfiguração

Coloco Deus na frente
e os aliados me cercam,
iluminam minha mente,
tirando-me das sombras

Parado não fico,
sou útil e vivo
me preparando
para as coisas do bem

O caminho é intenso,
não dói nenhum momento
as muitas tarefas propostas

De resposta o meu corpo
coleciona apenas cansaço,
mas minha alma não se importa,
diz que sou feito de aço!

O espírito agradece,
o conhecimento enriquece,
liberdade que emocionada,
transfigura o corpo,
enaltece a vida
que transborda!

Inverso do poeta

Já disse tudo o que queria.
Meus versos você não quis interpretar,
os que quis, não soube;
Eu cometi o ato insano
de me autointerpretar

Você mesmo assim não entende,
ou quer mesmo que eu entre
com a franqueza cega dos apaixonados
que resolvem, calados de razão,
se prestarem ao papel, humilhados,
a oralisar tudo o que bate por dentro

Pior ainda são aqueles loucos,
mesmo depois de escrever,
explicar e dizer, ainda acham pouco

Falta ainda o buquê de rosas,
a carta cheirosa de admiração,
falta ainda a aliança que deseja colocar no dedo,
mesmo que ainda se pague à prestação,
tudo isso jogado fora, negado na contramão

Sem saber, entretanto, que na ânsia de falar
deste ponto de amor, antes de tantas atitudes,
faltou, sobretudo, saber escutar o primeiro não

Sempre bem disfarçado de delicadezas
para não causar estranheza nem constrangimento,
para não deixar para trás a amizade que ao outro
é o necessário somente

Se o coração não fosse tão insistente,
não aceitaria um gracejo de dispensa convincente
como incentivo dos carentes de continuar no erro,
sendo apontado pelos outros como um louco, alucinado,
apaixonado e demente

Tolices

Eu sei o tanto de amor que eu disparei no universo,
se for quantificar em forma de estrela, fiz constelações inteiras,
apenas com meus versos

Não me importo se este amor não volte,
o principal é ir e que dê sorte
de encontrar o coração certo
na hora certa, e ambas as vítimas
não ignorem os fatos

Que a semente vingue
e não se vinguem um do outro,
se um terceiro tolo atrapalhar

Porque tolice em dupla dá certo,
mas em trio, eu não vejo muitas
bandas sertanejas de sucesso
falando do ato de amar

A não ser, sei lá, meia dúzia de cornos
com cotovelos doídos de tanto sofer,
amargos os afagos comprados
que esse podre legado
pode oferecer

Remendos

E fica na imaginação
melodias para canção,
sendo a vida escrita;
Os versos vivem de imitar

Paixão, quando chega
cabe apenas contemplar…
Prazer, estou de volta

você me conhecia,
só não lembra,
agora recorda
é a nossa hora de amor

Agora não precisa ceder,
se você acha loucura, tudo bem,
mais tarde, quem sabe, você acredita
que eu fui escolhida pra você

E se acha isso tudo besteira,
utopia de incorrigível apaixonado,
deixo a vida demonstrar tudo o que eu falo

Não sou profeta, nem adivinho
é apenas o fio correto
sendo desenrolado e puxado
para a outra ponta,
depois de tantos remendos errados

Apago

Já é o quinto ou sexto
verso que apago, me desapeguei
de palavras, desapego de tudo

E vou vivendo como as demandas
que mandam a vida seguir
seu curso sem diploma algum no final

O meu rascunho antigamente não tinha borracha,
mas agora as coisas mudaram, vou amassando papel,
sem compromisso com nenhum coronel, coração

Vou jogando com você e comigo,
com a vida, com os amigos,
vou jogando pelo vício
de jogar pra fora esse meu castigo

Sendo perturbado por todos,
por vozes altas
e perturbador de silêncios inteiros

Interiores primeiro falam de mim,
quando você apenas lê assim,
versos soltos que estavam presos aqui

Agora eu me permito terminar
pequenos trabalhos, artesanatos da alma,
lapidando as palavras em mais de um dia

Duas versões do mesmo eu-lírico,
dois autores no realismo
de ser apenas o corpo que entrega,
que transporta, e faz a ponte
que te leva a outro mundo,
literatura desconexa

Que conversa contigo
desconversando comigo
para dialogar com nós dois
tão distantes e distintos

Poetinha

Eu só quero saber se o fato de você ter um rostinho bonito,
se é apenas isso que me encanta, ou se tem algo a mais.
Ainda tento descobrir qualquer outra característica
que me coloca à risca de não desistir de lhe ver.

Não sei se é toda a ousadia que você vende,
esse jeito louco com cara de inocente
apenas procurando se encontrar…

Não sei se é o fato de eu estar carente,
ou se é o coração querendo o controle
da minha razão pra dar vazão a um outro
rumo em minha vida, se for essa mesma a saída,
eu posso mesmo me deixar levar?

Você é só um rosto lindinho,
de um homem nem tão bonito assim,
apenas querendo me encantar?

Será que basta apenas a sua vaidade
para dizer a minha sensatez:
– Não precisa mais se imunizar?

Ou será que eu quero mesmo é essa brincadeira
para fazer uma nova forma de poesia,
reinventando o que por anos
pensei ter o controle?

Será que por você eu quis perder esse controle
ou talvez eu apenas tente invadir seu mundo
para buscar lá no fundo outras formas de viver,
sendo ainda sensato, mas corajoso e com cuidado
para não me perder de mim em você?

Fofoca

Sou passageiro, viajo com o tempo,
tive vários amores que não dei atenção.
Sou curto na vida de quem poderia durar mais.

Deixo meu recado em breve instante, e vou indo nessa.
Desculpe as promessas quebradas de que não deixaria.
Mas de forma estranha, a partida é natural.

Vou simples como cheguei, sem causar dor, nem lágrimas.
A vida ensina, e comigo se aprende, que não se prende a vida.
E deixo no máximo a boa saudade na lembrança que de vez em quando vem.

A recordação de um tempo feliz e de crescimento.

Desculpe esse momento de saudade dos amores,
dos amores que poderia ter, e não amadureci.
Caminhei adiante antes mesmo que eles pudessem surgir.

Hoje é que eu me dei conta de quantas contas de amor eu não paguei.
Hoje somente senti falta de pelo menos três amores que eram admiração.

E se eu soubesse disso no passado, correria de lá.
Eu fujo do amor para falar dele.
Acho que faço fofoca em versos.

Quando ele está muito perto,
sou eu quem quero ficar distante
O amor assusta, mas eu convenço

Entregue-se a ele, vá até lá,
enfrente o que eu não pude,
o que eu não tive coragem de encarar

E vou eu aqui em meus versos,
sabendo que cansei de fingir,
chegou a hora de ter coragem
para assumir o amor fora do papel

E fazer verso com a vida,
mesmo quando o coração se agita
sabendo que é a presa
de quem ficou preso por muito tempo

Contrato de fidelidade

Eu paro o mundo por você
pra te ver feliz, queimo agenda,
remarco compromisso, fico omisso
das tarefas que me demandam

Porque o meu ego não emana
esse vício de trabalho,
e nem me coloca acima do bem,
abaixo do mal, ao contrário;

Não é o cargo que me modifica,
sobretudo quando a vaidade dos outros
fala bem mais alto, grita

São poucos os que estarão comigo
pelo prazer da minha presença,
mas serão muitos os presentes,
na figura do meu posto

Ora, nada disso me enaltece,
só me alerta à prece para saber
separar os oportunistas colegas
dos oportunos amigos que atravessam
muito mais do que uma cadeira
e uma assinatura representam

Com estes amigos de tantos tempos,
assino agora o contrato de fidelidade,
sabendo que não é do papel que vivemos,
mas do coração que nos lembra dos laços,
e lavra na alma o desejo de bem-querer

Caminhos abertos

Não há mais nada a resgatar,
as tuas cartas eu já rasguei,
a nossa amizade já anda sem sentido,
e eu tenho sentido bem menos

Já não há drama, nem martírio,
tu não és mais andarilho no meu coração,
e eu já não mendigo mais tua atenção

Acabaram-se as nossas conversas,
o que nos ligava era o platônico,
amor, acabamos com esse laço,
o fim de uma era que se desliga

Há agora em mim ainda mais vida,
os caminhos estão abertos,
ficastes para trás em minha história,
fostes à outra direção, contrária,
e isto não me contraria mais

Nem abala os meus instintos,
e não, não ousaria agora
chamastes de inimigo,
mas passastes a apenas conhecido,
a quem eu tinha grande estima,
mas não vou mais deter minha autoestima
por ti

Libido

Agora eu vou sacanear,
essa tal de libido é outra coisa,
entre as muitas que você quer dar

Não adianta escrever música complexa,
mostrar todo o conhecimento que se preza,
depois baixar o nível, colocar no meu ouvido
essa tal de libido que você precisa escorrer

Agora não me venha com modismo,
dizendo que bebe de Heráclito
um vício de filosofia

Eu sei bem o que é libido,
palavra bonita para conter o agito,
essa fervente corrente que te prende,
ora, vem, se solta, não temo o perigo

Libido, inimigo, agrido,
consigo o que eu quero,
constrangido não fico, besteira,
asneira, cadeira, cama,
quebro a cabeceira,
não inibo nada

Libido, libido, libido
De dia, agia o extinto;
Insisto, à tarde, abrigo;
À noite, me açoite, castigo
libido, libido, libido

Alucinados

Estou contando os dias
com a ansiedade escondida
que nem eu mesmo sabia
brotara dentro de mim

É estranho, esperar
mais de quatro anos
para ver só agora
esse sentimento

Veio à superfície
como arte de golfinhos
que encanta, mas não inibe
um certo medo do selvagem

Não sei o que você pensa,
se te cabe indiferença,
mas mesmo que não cogite nada,
eu quero que você saiba

Que além do respeito pleno,
o meu mundo, antes pequeno,
ganhou muito com a sua presença

E não que eu me prenda
na loucura da busca do amor,
mas você me mostrou algo além

Foi pra mim primeiro um conhecido,
o meu ser vivo contigo simpatizou;
Foi pra mim verdadeiro amigo,
o segredo por anos selado;
Tem sido a simples paixão sem cobrança,
como se apenas duas alianças não bastassem;

O nosso elo não tem matéria,
vem sendo construído de esperas,
amadurecendo cada um de nós separados,
por anos, você me foi negado,
cresceu com outros para, quem sabe,
depois de tantos cuidados,
viver a eternidade segura

Pio

Em tempo há tempo para você sempre
para falar desse breve período em que nos conhecemos
Não importa se posso contar os dias corridos,
nem as horas que voam quando conversamos

O dia amanhece calmo e suave
com pássaros cantando as verdades de seus instintos
A mim resta deles o rito da poesia
para lembrar que é por você o mito do amor

Mês passado seria outro canto,
outros piados sem sentido e a claridade
cegaria meus olhos acomodados
pelo sono da indiferença

Você que aquece o meu coração
antes dos raios de sol
e transforma em música até atos
de um mero animal

Hoje quem ganha asas
quem ri de coisas sem graça
quem faz de uma pedra
a antologia perfeita do amor
sou eu

Hoje quem merece reserva
nos quartos do meu coração inteiro,
desde o primeiro até o ultimo verso
é você, somente

Mas nem tão só vou te deixar
juntei minha facilidade com as letras
com a sua capacidade de mexer comigo
para nos encontrar literalmente na literatura
já que não podemos nos beijar

Olh(ares)

Gosto de olhar nos seus olhos
profundo e próximo do que você é
Gosto de ser certeiro sem saber nada,
ver o seu mundo inteiro concentrado

Centrado fico te observando
com o meu mundo se abrindo
para refletir seu mundo fechado

Não quero justificar nada
absolutamente nada que venha de você,
eu não quero descobrir se o que eu penso,
pressuponho estar correto, não é isso, não

Eu só quero viajar no caminho dos seus olhos,
criar a sintonia e a ponte entre dois horizontes,
sul e norte que se encontram, note que nada disso,
eu reafirmo, nada foi combinado, isso é um acaso

Acontece que são tantos os casos que me colocaram aqui,
frente a frente, apesar de ser diferente de você,
ter outra história, ter sofrido na minha trajetória
agora é hora do meu coração acelerado dizer:

Que olho no fundo do futuro que eu preciso,
correndo riscos de ser preciso quebrar paradigmas,
decifrando muito mais que duas ou três belas rimas,
viver pra ver a vida me presentear com a poesia de ser você

Umedeça

Quero dar um beijo na sua face,
sem compromisso e sem cobrança
como se fossemos apenas duas crianças
descobrindo a pureza do amor simples

Depositar em seu rosto um delicado molhar
o líquido que transbordou de um coração,
apaixonado e encantado com a vida

É só isso, um beijo básico mesmo
que sugere à interpretação dos sensíveis
qualquer conotação mestra da subjetividade
que mexe com mais que apenas duas mãos

Representar a atenção ao amor pequeno
de duas crianças sem malícias, sem maldade,
uma definição que o amor dos grandes desconhece

Na sua pele, que os poros se refresquem
com a sutileza que se preze aos sinceros,
que seja brisa leve, que não o aqueça,
nem te enrubesça, mas que te emudeça
até o pensamento mais sublime

Dança do agora

Eu quero um passo
ritmado contigo,
entrelaçar nossas pernas
coisa simples, não fosse
isso um poema, mesmo fosco

Vou representar aqui
o fim do fim do fundo do poço,
chega de ladainhas, vamos dançar,
à tarde mesmo, não preciso da noite,
das estrelas, nem do vinho

A poesia é um ato de alegria,
grande coisa essa tal boemia,
triste, sinto muito, por aqueles
que precisam sentir muito,
sofrimento não combina mais comigo

Em dois pares de pernas que se cruzam,
cruzam-se eras, arqueologia do amor,
seu macaco por mim se apaixonou
antes sequer de aprender a acender o fogo,
só depois de milênios ele ascende sem fim,
você sente isso em mim?

Não importa se já acabou a música,
eu cantarolo contigo no olhar,
e isso aqui já não é mais uma dança,
mas uma cobrança do amor que por séculos se esquivou

Eu te amo, poeta!

Eu te amo, poeta
por dominar as palavras dentro de mim
eu te amo, poeta
por me fazer poesia
sem um verso sequer

Eu te amo, poeta
com a audácia de declar isso
inverso o sentimento nasce em mim

Poeta, cadê a palavra correta?
Eu te amo, já disse,
e direi muitas vezes,
sinto em insistir

Amo os seus versos,
e os seus olhos,
e a sua boca,
e as suas rimas
e também as minhas
por serem suas simplesmente

Eu te amo, poeta
porque ainda me resta loucura,
ainda uso da arte para entregar o coração,
aos pulos, aos prantos, às emoções confusas.

Mas eu te amo, poeta
e esse poema aqui?
Ele só ofusca o que eu ainda não pude dizer
cara a cara sem lirismo nenhum

No abismo frio da fala:
Eu te amo, poeta!
Esperando uma resposta
que talvez não venha
e só isso não me basta

Senão eu também não seria poeta,
pois não precisaria acalmar
minhas inquietudes, pudera!

Se eu estivesse ao seu lado,
nenhum outro verso no papel arriscaria,
seria apenas o risco de viver poesia,
e não descrever desejos!

Sorrindo

Eu não quero voltar
nem para os seus braços,
nem para as suas delicadezas,
nem para aquelas miudezas,
coisas de uma boca pequena

Eu não quero voltar
nem para o seu colo
nem para os seus olhos,
nem para os seus desejos
coisas de um semblante prisão

Eu não quero voltar
nem para as nossas conversas
nem para os nossos planos
nem tão pouco para os sonhos
coisas de um casal apaixonado

Eu não quero voltar
nem para a solidão do par
nem para qualquer ato conjunto
nem para o seu controle imundo
coisas de perseguição

Eu não quero voltar
vou deixar a janela aberta
sem os pássaros eu não vivo
sem o cheiro das rosas não dá
coisas de um dia lindo

Eu não quero voltar sem mim
para viver outro nós, é melhor;
cada um de nós viver só,
só sorrindo

Primata

Só a sua presença basta,
não preciso de nada mais,
apenas nossas trocas de olhares,
nosso romance mudo se descobre
tão falante, já não sou imune

Há coisas que não precisam ser ditas,
a curiosidade nos intriga,
quase não posso controlar
essa minha grande vontade…

Nossas bocas se contraem
para que o coração relaxe,
as mãos se apertam para dar
folga ao sapato contraído

Respirar já não é mais fácil,
cada pedaço de tempo que se passa
é o ar que rasga as nossas vias;
Repertório nenhum nos embala

A afliação, angústia vem da vontade
animal que não sabe como o homem o controla;
São momentos que por ora não cabem reflexão

É seu animal ancestral correndo perigoso,
e eu também me sinto presa, surpresa;
Todos nós estamos sob ameaça,
quero extinção desse frenesi que me paralisa

Mas tenho medo de ser alvo
do primata outro, que me mata de medo
e ainda romantizam isso,
chamando de amor

Obrigado

Quando meu coração está em pedaços,
você tem a capacidade de pegar os cacos
pela metade e de acreditar em mim

Quando o meu coração fica apertado,
você ainda diz que vai conseguir fazer arte de novo,
sopra nesse barro maltratado a esperança,
vem com cuidado lapidando a alma machucada por tanto sofrer

Obrigado é pouco pra você,
pra que eu agradeça por sempre vir
na hora certa me socorrer

Não é preciso muito para curar um coração ferido,
basta apenas um ouvido atento,
e um momento para me reconhecer como irmão

Até os fortes ficam fracos com o peito queimando sem orientação
Obrigado pela sua mão quando eu estava a beira do abismo,
sem condição de seguir sozinho

Casamento no papel

Se a gente não casar de verdade,
eu quero é unir os nossos versos
para pelo menos fazer um matrimônio poético,
tudo em nome do amor

Pode ser que nossas escovas de dentes não se juntem,
mas que as nossas palavras grudem nas nossas vidas…
Porque juntos na poesia eternizamos outra forma,
temos outro meio de perpetuar o nosso desejo,
vivendo a dois no papel

Não é ser cruel com a carne,
não há cheiro, nem toque,
mas as rimas respondem facilmente,
deixemos que elas evoquem outro nível de carinho

Choro

Cada aula carrega um choro emocionado por dentro,
de uma lágrima que nos olhos está seca,
mas transborda na represa de um sentimento

Cada passo rumo às emoções mostra
que de fato um sonho é vivido dia após dia,
sem nenhuma orientação concreta,
senão daquela que apenas sente

E se extravasar pelos olhos da gente,
se de fato nenhuma palavra puder conter
a carga que se vende ao corpo,
nada nesse mundo vai escrever tão bem,
senão essa outra expressão da alma

O choro que se vai agora, escorrendo,
sem controle, corrente que não prende…
ora, esse choro fala mais que mil palavras,
quando se vive, e não entende

Estado melhor

Nem tudo eu consigo dizer,
escrever nem sempre é fácil,
o que eu sinto agora
não quer mais ficar guardado,
é uma questão de ação

O que eu preciso dizer e não falo,
talvez não cabe a mim,
nem cabe em mim,
mas vou transmitir mesmo assim

Nos meus olhos algo quer viver,
transbordar para você saber
que ainda existe, é o que me toca

Sinto um rio vazando
é minha alma transbordando amor,
pois foi capaz de perceber
quanto uma mãe quer bem ao filho

Eu sei que dentro das possibilidades,
o que foi me dado é apenas amostra grátis,
dada as circunstâncias de não ser também mulher.

Mas o que vem soprando em meu íntimo
eu só consigo descrever o mínimo…
Essa água não saiu de mim ainda

É a delícia da vida sendo posta em meus pensamentos,
é a capacidade de perceber o amor que vem de dentro,
capaz de passar no cristalino aquilo que é cristalino
por si só: Um amor de mãe veio me visitar para demonstrar
que não morre no pó, e pede que se entenda, que apesar de em outra esfera,
tem estado melhor.