Aposento

Dos requintes de uma história
cheia de memórias que merecem mais,
bem mais que cinco estrelas,
seus aposentos de emoção
escorrem nas veias, nos anos a fio

O fio do destino que nos realoca
nos cômodos da vida,
corredores da alma,
tapete vermelho do coração

Pelo sim, e pelo não
nos rincões do tempo,
nesse momento,
seu aposento merece novos hóspedes

Ainda que tantos já tenham se acomodado
nos seus abraços sempre maternos,
toda a vida se alegra pelo crescimento
desmedido nas vielas do cotidiano

Seu abençoado corpo humano,
que transcendeu os limites da matéria,
que alarga a família, ficará sempre aqui
como um prédio que se ergueu, enfim;

Matéria-prima, prova viva das cidades
que construiu em nós, cheios dos seus aposentos
de amor.

Deferimento de saudade

Quando a sua caneta não puder mais assinar
nenhum benefício, nenhuma solicitação minha,
quando a sua articulação personal-política
for vazia de qualquer cargo comissionado,
quando dizer seu nome deixar de ser vantajoso,
aí sim, estarei mais próximo, mais perto

Quando o amigo precisar de força,
quando o zelo vier à tona,
quando o humano vier primeiro,
colaboro, sem ressalvas

Reitero tudo o que realmente compensa,
a recompensa por tanto cuidado,
por ter me ensinado os princípios,
o mais raso, o mais simples
que todo mundo julga que a gente já sabe,
por ter sido didático mesmo sem formação

Peço que (re)considere quando tudo me volta à mente,
antes mesmo de ser convocado, a entrega de documentos,
a perícia médica – por ter me encaminhado –
pela confiança de sempre, pelo respeito íntegro

Peço que relembre na memória, nesse tempo tão rápido,
as risadas sem medida, o silêncio cheio de mensagem,
as brincadeiras tão espontâneas e as piadas em alarde

A benigna maldade da convivência humana,
que sabe o quanto vale a amizade,
que sabe o quanto tem valor a cumplicidade,
os auxílios que o serviço não compra,
a tranquilidade da criança adulta,
em alegria, em verdade, sinceridade e ajuda,
ciente do que realmente importa,
deferimento de saudade,
do poeta.

Presente divino

Eu estou falando com um ser de fé,
eu estou falando com um ser de luz,
estou falando com um amigo que me conduz

Estou falando de igual pra igual,
ainda não há semântica para o imaterial,
o pós homem, o sobrenatural, o divido,
o divino que me diverte em você,
que me enche e me alegra

Estou falando de um encontro
muito mais evoluído, que explora,
expande os sentidos, além da matéria

O que é ser, ser de luz?
o que é ser, o ser você?
o que é ser, se alegrar por mim?
o que é ser, transformar-se?
e mais ainda, aos outros?

Por amor, por cuidado, pelas atitudes,
os abraços apertados que não cabem no mundo,
a presença que emociona a alma,
a voz que vibra a eternidade,
a segurança na fraternidade

O que é ser presente na distância?
o que é ser perseverante no difícil?
o que é ser descanso no impossível?
o que é ser seguro do que eu digo?

Presente do divino,
presente do divino,
presente, tá me ouvindo?

Fonte de mudança do mundo,
caminho de luz e amor,
esperança aos sofridos,
esperança aos pequenos de espírito
e aos pequenos espíritos de luz,
formando-os no bem sem indiferenças

Presente do divino,
presente do divino,
presente, tá me ouvindo?

Agora você sabe,
agora você acredita
na infinita bondade da vida…

Ad eternum

O tempo não se divide,
ledo engano seu considerando
o ontem nunca existiu,
o hoje ou o amanhã,
que tola e vã preocupação

A construção do relógio
é um ponto na poeira ao vento,
um grão na imensidão do deserto
ação sim, é ad eternum

Foi para mim chegada,
sei que a aflição colabora
para o antes, o agora e o depois,
mas o que fica na memória vai mais além,
amizade que fica no espírito não vai embora
e se impõe

Ad eternum na risada e nos ensinamentos,
o que vale não é o quanto trabalhamos juntos,
mas o quanto a gratidão ganha amplitude
nos dois mundos

Ad eternum são as parcerias que a vida firmou,
é o respeito mútuo e a admiração, eternamente
lembranças que a saudade não machuca, mas relembra,
ad infitium convocação

————-
Para Francine Macedo Dias – Diretoria de Gestão de Pessoas – IF Fluminense

Infinitamente

Meu abraço tem força,
tem também franqueza,
meu abraço tem suor
de gente que não fraqueja

Meu contato não é de corpo mole,
é o abraço carne dura,
tem afago, tem carinho, tem candura

Meu abraço energizado
tem perseverança e tem amor,
meu abraço, abençoado, tem
o calor do frescor

Alivia a alma, conforta a gente,
acalma o coração e limpa a mente,
meu abraço, de cuidados, abarca quem sente
numa onda de espiritualidade,
infinitamente.

Traçado de encontros

Quando eu te achei
ao acaso do destino,
desculpe, eu não sabia
que era amor que recebia

quando eu te vi a primeira vez
por outro impulso inesperado da vida
eu entendi o que eu não entendia,
o que eu escrevia, mas não vivia

Sei, que no entanto, contos de fadas
não bastariam, acima de tudo, para a nossa sintonia,
e você sabe com clareza que a única certeza é a de que eu,
ah, eu ficaria – e que ficarei sempre!

E estou aqui, dia após dia, ato após ato,
certo de que não se faz milagre com o jogo das palavras,
que a minha retórica não justifica resposta alguma,
nesse tempo de farpas e calúnias, mas pela luta,
pela conduta de um carinho que não se basta em si

Nesse tempo, pós planos meus,
na certeza do que eu aprendi,
do pouco que eu um dia insisti em receber,
é por você e por mim que eu estou aqui
duzentos e setenta e cinco dias

Vivendo e aprendendo a acreditar no ser humano,
a crescer, e ser o que sonhamos, fazendo das saídas,
das músicas e de pedaços de pano as provas
cada vez mais palpáveis do que os supostos desejos,
mais do que os sentimentos mais sublimes dos nossos anjos
poderiam querer em um traçado de encontros

Colação de graal

Eu não vou embora
agora, só uma fase provisória
está passando como tudo
que um dia termina, finda

Ainda fica, não me venda
desvenda tudo que a gente fez,
eu sei o quanto crescemos
outra vez, mais uma,
pela quarta vez

A vida segue seu curso
o discurso é o de menos,
o que mais importa é a certeza
que no quarto ano não ficaremos

Fiquemos para a posteridade,
pós co-ação de grau,
colação de grau,
bebendo o Santo Graal
da sabedoria que lograremos
e logramos ao longo de um caminho
que cada um vai retornando
pela origem da ignorância humana

Você sabe que eu te amo

Se você sabe que te amo,
sabe também que se dependesse de mim…
Não sairia de perto de você,
nem soltaria a sua mão mais,
se dependesse de mim
você faria parte do meu dia,
todo dia, o dia inteiro
não em pensamento mais,
nem em poesia mais,
mas no toque suave,
no olhar franco,
sincero sem medo,
do pranto do amor
que, se cair,
não me envergonho
de amar você

Você sabe que te amo

Você sabe que te amo
e se sabe mesmo o tanto
que contemplo e componho,
e acompanho um sonho
quando te conheci…

Se sabe que te amo,
sabe que isso não é de hoje,
nem pode ser, pois meu ser sabe
reconhecer um amor antigo,
mais antigo que a vida que a gente leva,
porque seu carinho me eleva ao mundo das ideias,
dos pensamentos que nunca tive, os mais sublimes
daqueles que a gente só cogita e se agita
se estivermos juntos

Preconcebido

A introspecção nasce da mais profunda observação,
constatação disforme daquele que divaga no momento
e percebe, de antemão, todo o contexto daquilo que vislumbra

À margem, cá estou de tudo que você fala sobre mim,
e de tudo que planeja alegremente, o que eu não absorvi;
se ouvi, foi muito, coisa de educação que não me falta,
mas, se prestei atenção é outra história, que eu não li

Ainda que com novos pretextos, esse pré-texto
é fruto de um desejo mais que acadêmico-sociológico,
está, antes de tudo, preso naquele tempo de visita,
que passei, por debaixo de sua vista, a observar tudo e todos

E lamento muito, o gueto, o espaço opaco: que franco sou eu!
Pertenço ao mesmo ato fraco, cárcere privado social do qual,
ainda hoje, não nos libertamos de fato!

Ingrato seria eu, se depois de tão forte observação,
ainda me fizesse de rogado, cá estou, calado:
a saber, – por que não? – que praticamos o mesmo processo
de condenação preconcebida.

Quebrando paradigmas

Muda seu conceito sobre mim
que você não me conhece,
você não sabe de onde eu vim

Muda o seu pré-conceito ao meu respeito
que do jeito que você me olha é feio,
não faz assim

Desfaz essa pessoa que você criou,
sei que você pouco deu por mim,
surpreendi, que eu vi
as mudanças que eu conquistei, enfim

Agora que você sabe por que eu estou aqui,
eu me guardei em ti, cuidei de ti,
cresci e evoluí

Na sua escala de avaliação eu subi,
e passei por mim, superei-me
porque eu mesmo me venci
e também te compreendi diferente,
de frente, eu convivi
e vi que nós somos mais parecidos
do que eu também ergui

Poeta por confissão

Ah, Aniceto, poeta, amigo meu
que alegria, quanto amor transborda,
quanto carinho a vida me deu

Tanto poema, tanta palavra,
o tanto dito escrito, emudecido,
quanto carinho pelo amigo,
quanto respeito pelo irmão

Essa mensagem hoje é quase uma oração,
fica em paz e fique tranquilo,
não se agite, não
que a sua alma amiga,
encontrou abrigo, encontrou a mão
de outra alma amiga e poeta,
poeta por confissão

———
Para Guilherme Ferreira Aniceto, poeta e amigo federal.

Transições

Não me incomoda nenhuma transição,
nenhuma mudança acomete mais o meu espírito,
aprendi com a vida que as passagens são rotina,
nada é estático, nada é partida sofrida

O meu coração só ganha ponto fixo no coração de quem amo,
só ganha o meu respeito e admiração quem merece,
coisa simples é o meu ser humano, que não se compra, nem se vende

O meu trabalho é macro existencial,
não está nesse espaço, nem no aqui, nem no agora,
por ora, eu só digo algumas coisas,
de alguns lugares eu já fui embora

Não deixei saudade, não deixei problema,
não deixei sequer ressalva alguma,
porque eu fiquei pra posteridade e a priori
em vidas amigas, não em matrículas confusas

Não me abalo, nem mais anseio o prever futuro meu,
o hoje, entrego a Deus, todos, inclusive,
os verdadeiros tesouros que a vida me concedeu a convivência

E com anuência do divino, eu garanto,
que de pouco a pouco o tempo passa,
a cadeira gira, o amigo fica
e a alma fala.

Agradecer

Você, filha do Divino Ser
você, mãe do Divino Ser
você, amiga de Divino Ser,
você, esposa de Divido Ser,
você, alegria em ato do Divino Ser
você, o fato do Divino Ser
Namastê

Você, Ser que vai transcender
Você, Ser que já progrediu,
Você, Ser que obedeceu, desceu
Você, Ser que ajuda o mundo a crescer
Você, feliz Acontecer,
Agradecer
Gratitudine

======================

Para Sabrina Bonzi, amiga de trabalho do Instituto Federal Fluminense, Diretoria de Gestão de Pessoas.

Segredo

O que faz teu apreço
virar prece pra mim
o que fazes tu que não podes me ver
que já queres dizer, preze por mim

O que eu posso dizer senão
que a sensação não é de toda ruim
ando merecedor do teu calor,
de conduta afim

Que sintoniza comigo
o perigo dos preços,
os pesos de múltiplos carinhos

O que dizer se o teu sossego
é por todo no contexto de gostar de mim
O que dizer se o meu sossego
é segredo que eu já deixei partir

Senil

Tua sede cede cedo ao meu desejo
almejo o beijo e me deleito
em conforto do teu peito
o porto disposto em barcos
e arco de ser o décimo quarto
a chegar perto

O elo incerto do perfeito hoje
que não termine o infinito hoje
que não cesse o amor eterno
o eterno agora da memória

Teus gracejos são oriundos
dos mais profundos sentires
do mais simples dos agires
inocência gentil

Tua experiência entre mil
é novidade generosa
pôr do sol sutil
romance idealizado
um e o outro
senil

Bom reconhecer

Muito prazer,
bom conhecer você
hoje te encontro,
nossas vidas,
cruzando-se

Muito prazer,
a memória humana falha,
mas a vida trabalha,
ela nunca mais vai nos esquecer
bom conhecer você

Muito prazer
hoje a gente cria um portal do futuro,
o presente se vive junto – ou não -,
mas lá na frente, sobretudo,
quando o corpo não nos representar,
e a memória nos trair,
o sentir vai nos reconhecer e nos reconectar

Muito prazer,
hoje tudo começa
nessa arte onde a vida prega
(peças, talvez)
nessa arte onde a vida prega
amor ao próximo,
muito prazer e até logo

Daqui a dois dias,
daqui a duas décadas,
não interessa,
está tudo próximo

Poupe-me

Quem não te conhece que te compre
[a prazo]
porque eu
[à vista],
nunca dei por você
[0,99]

Quem não te conhece que te compre
[parcelado]
porque eu não invisto nem um trocado
[estou pré-fixado]

Quem não te conhece que te compre
[e banque e pague taxas abusivas]
porque eu não sou compulsivo
[sei controlar meus ganhos]
que não vem de você

Desconstruindo pessoas

E quando não se dava nada por alguém,
a doação total constrangeu,
e quem disse que o mendigo na rua
é coitado, a compaixão dele cedeu
a partilha do pão de ontem

E quando se achava um ser humano perdido,
perdido foi o ego ferido, quando ferido,
por aquela mão que se estendeu

E quando o cuidado necessário se fez presente,
mas o dinheiro não pôde bancar,
quem nunca foi cogitado se ofereceu sem centavos.

O idoso moribundo ainda pode cuidar das crianças,
a criança frágil e pequena diz verdades escondidas das outras bocas,
o jovem imaturo também ensina que a coragem não se ensina,
quando o sistema sufoca tantas adultos maduros,
o deficiente é servidor público que trabalha e não foge do ponto,
e o ponto final é só um blefe.

A vida nos pede a reincidência das reticências

Transbordo

Na dor, no sofrimento,
na aflição, lágrimas
Na plena felicidade,
água

Lágrima pra quem chora
de dor e de alegria,
água

Que benze e que lava,
que consome, transforma
a praga

Lágrima pra quem sonha e realiza,
pra quem só idealiza e não consegue.
Água

Lágrima que pede socorro.
Lágrima que agradece

Transporto e transbordo
a bordo da vida,
derrama o óbvio
o copo do Vivo

Perfeitamente presente

Chega um momento na vida
em que você para de pensar em você,
e se preocupa mais com o outro

Chega um momento na vida
que a sabedoria te proporciona
ver que o que você tem não é muito,
mas é muito mais do que o suficiente

Chega a hora em que você deixa de lado
os seus pedidos e clama por outra pessoa,
você vence a inveja, a ingratidão,
você derrota o egoísmo e põe os pés no chão

E cuida do próximo, e reflete a sua evolução,
e solicita amparo não pro carro caro,
ou o telefone último tipo,
ou a calça cara com a etiqueta colorida,
nem a joia reluzente no braço

Chega o dia m que a mão de outro é mais importante,
que a amizade de outro é que tem valor,
chega a hora que resguardar quem está próximo de você
também é a sua própria defesa

Chega a hora da mais sutil gentileza,
a benção, a grandeza de se sentir suficientemente presente,
presente de Deus que dá tranquilidade para ir ao outro
para se fazer presente, presente de mudança,
perfeitamente presente da presença de Deus

Princípio da ponderação

É bem rente ao corpo,
bem dentro dos olhos,
é bem próximo da verdade
que se encara a realidade

É sem medo da vida,
é em respeito próprio,
por considerar o próximo
parte de mim

Parte de mim muita responsabilidade,
parte de mim sempre a justiça da ação
– parte de mim o signo da balança –
o princípio da ponderação

É com os olhos d’alma que se vê
– profundo e sem receio –
que a vida revela
muito além do meio termo

É para tirar as dúvidas daquilo que é relativo,
para seguir a diretriz do correto, sem vacilo,
para aquilo que ninguém percebe que precisa de proteção
é o cuidar do outro sem solicitação

É inerente a mim, antes de tudo,
antes e até mesmo sem laço afetivo,
antes e até mesmo sem troca, barganha,
antes e até mesmo sem ganância, ninguém sonha;
antes e até mesmo, até mesmo antes
de qualquer desconfiança

O Eu que mora em Mim

Eu
sou o cara
da piada pronta
do raciocínio rápido
do humor do improviso
e do ato imprevisto

Eu
sou o cara que não procura,
mas se acha a cena certa,
acerta e vai em frente
com coragem e de peito aberto
aquele que não mente

Eu
sou o cara que observa
sou mera leva daqueles que se importam,
assumo a culpa daquilo não feito,
desse jeito que mata no peito o problema,
o lema da coragem, que dá a cara, as duas faces

Eu
sou a fase que segura a oportunidade,
fruto da confiança na espiritualidade,
aquele que abre caminho, fortalece o próximo
o lógico que encurta o problema,
e resolve

Eu
sou o abraço inesperado,
a outra cara da moeda que vira
no tapa que a vida dá no pulso

Eu
sou o impulso do que será o amanhã,
sou o divã do passado, o silêncio que responde,
sou o bonde esquecido, o mais charmoso coletivo,
não deixou o sorriso antigo ser morto,
o representante dos esquecidos sem voz

Eu
sou aquele que desamarra mais nós
que as orações sem atitude,
o fugitivo das escrituras inúteis,
a ação que desilude e desperta,
a peça que ninguém toca

Eu
sou o medo da mudança,
aquele que toma a frente,
o primeiro dos loucos
que todos depois seguem

Eu
sou a Dimensão que se expande, o big-bang,
aquele que tomou ciência da amplitude de ser
Eu

Última apresentação

Quando eu for embora do espetáculo da vida,
quando fechar a cortina e eu agradecer
quando eu me virar para a coxia,
não deixei a plateia, não deixei a vida

Quando a minha atuação se encerrar,
eu não prometo o bis, nem coisa inédita
de matéria perdida de arquivo,
quando eu terminar o riso,
levantem-se depressa

Não quero homenagem,
nem um livro de memórias,
ora, nem luto
para me manter intacto,
raso e falho,
errei a cena

Não deixa a angústia tomar conta
da bilheteria, fiz tudo que pude
não se ilude, ninguém é totalmente
aclamado pela crítica,
fechem as cortinas

Descortinem a idolatria,
perdi o foco, perdi a marca,
cansei de encenar até a graça,
perdi a direção da luz

Só treva no último palco,
última sessão da carne,
repetida que é
remake da vida trágica,
personagem uma vida mais

Una-vida

De braços abertos a vida nos recebe
felizes que somos, a vida prevalece
sorrindo constantemente

Temos coragem para aquilo que nos propusemos,
nós fizemos um acordo: nem sei se assim, secreto…
Nem tudo é sofrimento, nós vemos o que queremos,
lapidemo-nos

O planeta se coloca como um afinado instrumento,
escola maravilhosa para o crescimento, aprendemos
querendo ou não querendo, a escolha já fizemos
construiremos o mais limpo som, refinaremos

Os ouvidos, as falas, os atos e as atitudes,
os ciclos que a vida propõe são fatos,
inegáveis e caros para aqueles que não vêem

Aqueles que enxergam mais longe e mais lúcidos
percebem que a sabedoria da vida não tem hiato,
não existe nenhum vácuo para a dúvida, última
via das vidas e outras curvas, ensinam na hora
que o antes, ontem, o hoje, o agora e o amanhã,
depois, pois, cruzam-se em eternidade
um grande espetáculo de arte, vida-una

Soleira

Sua janela
está sempre aberta
está bem próxima
quando eu preciso
olhar para fora de mim

Estou sempre atento
quando ela fecha,
e quando ela abre demais,
retraindo-se na solidão,
ou abrindo-se para a imensidão

Eu também aprendi
a olhar para o outro lado,
o lado que eu não vivi,
mas que eu vejo que precisa
de reparos, amparos, cuidados,
conservado no silêncio
que sempre diz muito de nós

Eu não estou só,
você não está só,
eu vejo sóis em dias de chuva,
quando se chora por nada
eu vejo chuva em sorrisos de sol
quando inunda a felicidade passageira

Eu vejo na soleira da janela
o cuidado que a vida tem comigo
pra me proteger no abrigo
do amor que você não tem ideia que possui,
dois céus gris, fizeram-se, então, azuis