Fugitiva

A palavra
fugitiva
da minha vida
resolveu
entregar-se

Foi presa
pela verdade
dita, maldita,
sem papas na língua,
não foi covarde

A minha palavra
manteve quem vive mudo
em absoluto descompasso
cárcere privado de intenções

Transitada em julgado
foi absolvida de todos os crimes
suprimida a dor que a palavra causou

Ilesa, em legítima defesa
chocou os reféns do silêncio,
traumatiza quem dorme vivo,
sobrevivente falho
que em potência se coloca no atalho
do progresso que não espera

Na espreita das ações bem guiadas,
a rota traçada ao ouvido,
palavra, palavra, palavra,
posta à prova sem colete
à prova de balas, sem delito

Marítimo

Deixa o coração quieto,
calado e constrangido
com tantas palavras lindas
sem um ouvido

Há tanto a ser dito,
mas nenhum ombro abrigo
para se morar
não dá pra deixar pra lá,
aquieta, poeta

Que seus versos muitos leem,
poucos veem a outra linha,
o inverso do peso da alma minha

Aquieta que todo mundo deseja
seu amor, mas ninguém encara
nenhuma ostra se abre,
mas quer brilhar

Não dá pra mergulhar, poeta,
na alma das pessoas e se afogar,
carrega, poeta, o salva-vidas da poesia,
salva sua vida que poucos ligam,
são raros os navegantes do seu barco

Digo a você, e arco com o recado
amor de poeta é sempre um naufrágio
que ninguém quer buscar mar a dentro,
e a alma vai ardendo, até agonizar.

Chefa das chefas

Para Francine Macedo Dias pelas qualidades enquanto Servidora Pública e pelo trabalho primoroso que faz a frente da Diretoria de Gestão de Pessoas do Instituto Federal Fluminense.

Ela é a chefa das chefas,
nossa Diretora,
mas também é aventureira,
motoqueira, mochileira,
que faz trilha,
ela humilha
as inimigas

Tem atitude,
de passo firme,
não agride,
mas não deixa impune

Tem glamour
sabe subir no salto,
ela ri alto,
mas dá bronca baixo,
rainha dos coordenados

Administradora
e competente,
já foi Assistente
agente pagadora,
publicadora de portaria,
concede benefícios
com seu sorriso

Sabe o ponto fraco de todo mundo,
os erros, equívocos dos procedimentos,
lamenta, mas aguenta, e retorna,
pede pra refazer enquanto ela se refaz

É paciente,
pensa na gente,
traz uns mimos e uns salgados
vigia e dá aos cuidados

Toma providências,
tem nossa confiança,
sabe das elegâncias nos óculos

Está sempre bem vestida,
não é vendida, tem princípios,
e por isso faz amigos por todos os lados

Sabe das coisas, se faz de boba
pra ver se estão aprendendo,
compreendo, mas percebo
seus gracejos

É avaliadora generosa,
posta também à prova
pelo desempenho

Empenho bem recebido,
tem compromisso
gestora do mais alto nível

Que estilo!

Está sempre pronta
com a resposta certa,
e se não sabe, estuda
é mestra, e astuta,
mulher de labuta

Fechada com a gente,
não termina o expediente com pendência,
é pura competência

E quem vê até pensa
não ter momentos fracos,
coitados!

Não sabe o peso que vai aos ombros,
e afeta a coluna,
mas ela não se anula,
dá a volta por cima

Ela é a rima do mais nobre rito,
é quase um mito, eu tento imitar, admito!
Não canso de admirar, e reflito
na carreira bonita e merecedora,
mulher de fibra, e compostura.

Está à altura do que possui
sabe que o cargo não a seduz.
São características intrínsecas
da personalidade que sem alarde não rui

A trajetória é brilhante,
chefa retumbante e receptiva,
é protegida e bem querida

E aparenta ser forte,
e por sorte engana os desavisados,
mas o poeta também sabe dos cuidados
e dos medos vedados que quase ninguém vê

Toda mulher no trabalho
sabe dos recados que deve dar por experiência
para ver se cala essa inconsequência mentirosa
do sexo frágil

Mas, na verdade, é na intimidade do lar
que ela chora, reclama e se cobra
pra continuar seguindo o rumo
e mostrando a meio mundo
pra que veio.

Homem fobia

Vamos aos fatos
francos, profundos e aos rastros:
eu saí do armário,
no bom popular
baixo e vulgar

Mas não foi por você
e suas neuroses que eu
aprendi a amar
de alguma maneira louca

Não foi pela carência
que dizem que tive,
se tenho não sinto,
e se terei, não digo.
Sai da minha vida primeiro

Certo é que as confusões
que só você causa
deixaram de me afetar

Porque eu rasgo essa bandeira colorida
que me deram para carregar,
essa esterioptia que me aponta
o que eu não sou

Há sim o discurso homofóbico que mata,
mas também há a fala do discurso de ódio
que a vítima sempre carrega
jogando pedras em não se sabe quem

Retrógrado e culpado posso ser,
mas ainda quero te dizer
que reaprendi a pensar
nem tudo dá pra mudar,
mas eu mudei

Você eu não sei
até quando se vale,
abre o vale entre nós
com esse discurso pró-minoria
que cansa e causa apatia
porque fala, fala, fala
e agride com palavras
os iguais que você defende

A guerra dos sexos,
a luta de classes,
os homens de marte
estão livres de tanta
ladainha

Tributo às Letras

Rendo-me porque não fui capaz
de vencer as palavras,
nem os versos que me manipulam
feito joguete das emoções humanas
e me afundam na imensidão
de mares egos literários

Estou vencido e humilhado
pelo ato quase espiritual
dos fatos que se escrevem por mim

Fui nocauteado pelo desejo
supremo e incerto da tradução
da sua língua na minha língua,
da sua linguagem pela minha arte,
escrevo a palavra transformação

Condenado ao conformismo
de tentativas lindas
que não bastarão

E peço desculpa,
pela usurpação
da matéria
simbólitica
e operária
da reconstrução dos sintagmas
perdão, poeta, pois não
não é escritor de diversão

Dói também ser imortal
dando às palavras a própria vida,
e que vida seria
se não só do poeta,
é quase um pacto diabólico
de palavras pelas emoções humanas
que nem sempre se pedem permissão…

Aponte para o futuro

Você se engana
quando acha que não é
minha alma gêmea

Ainda que eu não tenha toda certeza,
dá pra ver que a gente, a cada dia,
descobre a beleza de uma vida atrás

Quem não percebe agora é insensível,
ao mais belo rito que se desenrola e se mostra,
e você, sempre presente, me apresenta
o imprevisível

A alegria é a delicadeza do seu riso,
o ritmo do seu sorriso, o ato
mais válido do brilho nos seus olhos

E se me faço de forte,
você sempre descobre,
invade as grades que me aprisionam,
abaixa a ponte do meu castelo solitário,
sou de fato o preso do amor selado,
e você a ponte que me liga ao lado
de nós dois

Pronunciamento de libertação

Apodere-se da prece bendita
que quebra a desgraça,
a praga maldita
que o homem falho,
falha em dizer em Meu nome

Liberte-se, Eu ordeno,
das energias frágeis
que te aprisionam
cegamente

Limpo na sua frente agora,
– e da sua mente -,
o caminho torto, confuso
e fecho as cruzadas
que não levam a lugar algum

Restauro, profundamente,
seu ser, renovando,
de toda culpa e todo peso
que não te auxiliam na mudança,
mas, paralisam.

Segue adiante, confiante
que há mudança próspera
que se aproxima,
nessa linha onde cada um
borda o manto que salva

Ergue a cabeça que nenhum mal te alcança,
levanta que nenhuma enfermidade te enfraquece,
faça acontecer que nenhuma inveja vai te parar
e não tenha medo, Deus está junto com você!
Eis o poder, verdadeiro, que só os justos têm acesso
porque não pensam exclusivamente no próprio ego

Ergo sobre você um império de graças
que estão muradas de todo bem-querer,
que nenhum ato malígno chega perto,
nem ousa balançar a fé inabalável
que Deus tem por você e você tem em Deus

Poema do orçamento público

I – 50

Merrequinha inflacionada
poucos mantimentos, quase nada,
quando você vê já foi embora,
basta minutos, sequer hora

II – 300

É começo de conversa do dinheirinho,
no mercado, ainda, o básico,
a metade da primeira necessidade

III – 800

É o cheiro do e no mínimo hipócrita,
não cabe defesa nem argumento,
se for ver bem, é mais linda manobra
do vintém

IV – 1.800

já não há tanto o que reclamar,
se souber aproveitar, bem que o aceitável,
conversa fiada, um chá, compras pequenas,
um mimo aqui, outro lá, bem de vez em quando,
calha de nomear ordernado

V – 3.000

E se me permite o comentário,
já dá pra começar um negócio simpleszinho
se a renda vier de um lucro bem administrado

VI – 6.000

Já se anuncia o empreendedor
com terno de segunda mão,
já tem cara de doutor,
ainda sem condição

VII – 15.000

Aqui a coisa muda,
se vislumbra pequenas economias
que, quem sabe um dia, será usufruto
da tranquilidade

VIII – 40.000

Já vem o capital itegralizado,
sociedade do comércio,
uma transição de requinte baixo nesses versos

IX – 80.000

É perfil do investidor de primeira ação
que pode abrir mão do hoje pelo amanhã
capital de visão

X – 150.000

É o ato dos pequenos fazendeiros
terra pequenina de rebanho,
pecuário dos sonhos,
da casa no subúrbio da praia

XI – 300.000

Já tem teor de importância,
apartamento distante do centro,
a filha já sonha com casamento,
apresentação social

XII – 800.000

Já vira prêmio de capitalização,
pra qualquer jogo de médio porte
que, com sorte, e muita sorte,
resgata um carro de pequeno porte
com laço de fita vermelha,
e mico de entrega no brinde

XIII – 2,5 milhões

Três meses fingidos de atuação,
supostamente trancafiados pela direção
de alguma emissora sensacionista

XIV – 5 milhões

Alguns órgãos ainda chamam de verba
para desviar dez por cento
pra conta de qualquer colega
por compra de voto

XV – 20 Milhões

É o primeiro passo de um orçamento
de uma mega empresa em expansão
que vende sonhos, mas cobra por ligação

XVI – 200 milhões

Já caminha pro aporte
descontrole de todo tamnho
são muitas mãos no mesmo cofre

XVII – 500 milhões

É a política pública mal feita
o cartel com a quadrilha de pilantras
que desde a planta do terreno já afunda

XVIII – 1 Bilhão

Orçamento geral de relevância
para doar casa popular aos montes
é a fábrica da cesta básica dos pobres

XIX – 30 Bilhões

Investimento do Governo Central
pelo aperto de mão em outro país,
já dá pra montar um circo decente
para os indecentes do País

XX – 500 Bilhões

É a obra pública bi-lateral
que já chama a atenção da mídia
internacional por alguns dias

XXI – 1 Trilhão

Majestosa pela própria natureza
és o gigante, colosso que ninguém domina
é a rima que ninguém entende
como pode tanta gente produzir tanto
e ver tanto não voltar pra gente?

Segundo olhar

Pelo seu olhar de soslaio
eu sinto um bocado de curiosa
e bem-vinda candura,
ainda que não seja a mais
doce das criaturas

Pelo seu olhar tão calmo
e tão distante ao mesmo tempo,
percebo que busca algo,
alimento

O seu relógio parece parado,
se eu não estiver errado,
isso é um raso rio, um raio
desesperado

Contratempo que não me engana,
você investiga a minha calma
de sábio

Eu entendo que a vida não pede ensaio,
e meu caro, o tempo certo a gente tem,
e digo além: Só o tempo mostra o tempo
que o tempo tem.

Não adianta vasculhar com os olhos
o que só a experiência de vida enxerga,
depois de muitos altos e baixos,
nem que se queira, o tempo não fecha

Ressaca

Se não tem novas pra contar,
canta as velhas, sopra as velas,
corre pelas veias, incendeia
as velas em alto mar

Nau em nó,
fora do radar
bússola que não acompanha
e nem vai nos salvar

Afunda em abundância
água que convém no convés,
o amor venceu o revés
descobriu o que estava morto
e não era o mar

Agora vive, e bebe,
sobrevive tempestade,
a paz que nasce
há de calhar
no mais alto dos caralhos…

Expoente de demandas

E se os meus olhos pedirem, eu choro
e se os meus lábios pedirem, eu rio
e se a angústia me pedir, eu aquieto
e se o tempo me pedir, eu observo
e se o mar me pedir, eu entro
e se o momento me pedir, eu digo
e se o silêncio me pedir, eu falo
e se o mundo me pedir, encaro
se o outro me pedir, dou a mão
e se desfizer a junção, agarro
e enquanto todos têm aversão, eu amparo
e se a esperança me faltar, eu falho
e se viver fosse fácil, eu não toparia
e se a ironia rir de mim, eu creio
e quando não acredito, me conheço
e quando você vier até mim, me exponho
e digo além de tudo, não me oponho
a ser o espelho do ser,
do ser humano,
do ser eu,
eu exposto

Dê versão

E de verões e de versões e diversões, eu achei você.
E antes das razões, mil reações não completam os nãos que eu deixei de dizer.
Porque é de muitas informações, e de algumas afirmações que eu desejei fazer
com que o mundo se dividisse em opiniões antes de mim,
depois de você

Ao público

Eu sou servidor público prematuro.
Aos sete meses, já compartilhava a convivência pública incubadora
do público feminino, já solicitava o alimento materno alheio, de quem ama.

Durante toda a formação fundamental, contava com professoras para me locomover,
não há de se comover
Aos dezesseis, vida dedicada aos jovens e adultos, como eu, apesar de novo.

De novo, o retorno ao hospital:
mães que dormiam na recepção, e me ofereciam o primeiro bom dia,
dia nem sempre bom, com filha na UTI.

Ao telefone, logo depois, serviço público que iluminava,
contribuinte que se revoltava com a oferta precária da terceirização,
da pequena equipe que cuidava de grande extensão…
de uma vida que perdeu sua extensão em acidente

Serviço público aos deficientes como eu,
sem representação, Conselho falido
ainda que oficialmente Servidor

Fiz em Educação profissional pelo Trabalho, e Renda
acreditei na esperança do conhecimento e acendi esperança,
ascendi ao espaço Federal certo de mais uma passagem,
minha história: terceira margem do rio
transcendi.

Sirvo à vida,
poesia, sorvida

Outro nível

Os meus laços mais fortes são com pessoas de toda a sorte,
que não têm coração podre e nem caráter pobre.
Fiz amizade com gente aparentemente desimportante,
que não tem orgulho ferido, mas também não fere a gente

Fiz parceria de alma com pessoas humildes,
não tem gente do grupo dos grandes,
são pessoas que até se sentem pequenas,
que talvez duvidem da própria nobreza,
nem um pouco miúda

Liguei-me fortemente às pessoas que não podem me dar nada em troca,
que aparentemente não têm nada a oferecer,
são criaturas sofridas até, sábias dos valores,
são aqueles atores que entendem o valor cristão do pão na mesa,
e eu, o que digo?

Não tenho nenhum amigo que me facilite a vida,
mas, alguns, e poucos, que pelo destino louco,
acrescentam-me o progresso íntimo,
daquele carinho verdadeiro e profundo,
caminham aqui no fundo cheio de respeito e admiração,
amigos até de outra geração

Gentes

Tem gente que tem missão de paz,
tem gente que tem missão de amor,
tem gente que tem missão de força,
tem gente que tem missão de dor
tem gente que tem missão de dois,
tem gente que tem missão de um só
tem gente que tem missão de solução,
tem gente que tem missão de pé no chão,
tem gente com missão de sonho alto,
tem gente que tem sonho de sonhar de novo
tem gente que tem missão de sorriso no rosto…

Quem canaliza a missão vira poço
ponto, posto de referência e na ausência,
na falta da descoberta de sonho pelos outros
vira luz sem ciência
consciência sem contestação

Chuvinha

A chuva que cai lá fora
não muda o tempo aqui dentro,
não esfria a alma,
não desmerece o aconchego
ao contrário, causa apego
e aproxima,
molhado pelo beijo

A chuva que esfria as paredes
não adentra o cômodo.
Infiltrado estou eu
consumindo os pingos de suor

Seu cheiro tão marcante,
coloca toda a natureza em atenção,
somos de vez em quando a renovação,
espécie em extinção,
sublimação.

Caso raro

Você tem sorriso nos olhos,
brilho, tem brilho no rosto
tem também leveza na boca
e tranquilidade nos atos

Você passeia pela vida,
alegria que vive personificada
que tem a alma livre, solta
ainda que ajuizada

Você é caso raro de se encontrar
réu primário nos autos do amor
a lágrima, pedido de clemência, quem dera,
legítima defesa em ato de primavera

A longa novidade que sempre surpreende,
folha desprendida da vida,
seu crime cativa,
cativeiro dos homens

Os anos parecem não passar
nessa prisão do bem quase já tão vazia
que você por um fio ainda não foi solto
já são a poucos que eu recorro

Obrigado pela prece de internos sentimentos,
já sinto a condeção do mundo,
mas você está salvo
preso às esperanças,
ainda confuso nas grades do poema

Pague

O carinho que eu te dei
o calor que eu transmiti
a felicidade que eu propus
o brilho no olhar que nos conduz

Eu usei o presente, o pano,
eu usei o abraço, acalanto
eu usei o sorriso, contagiando
eu usei o encontro final

O caminho do amor
talvez a palavra não saiba,
talvez a boca não diga,
talvez o ato seja até uma falha

Mas ninguém sabe o que está aqui dentro,
só você pode perceber,
só você

Sentimento não tem vaidade
sentimento não vive do ego,
sentimento é mais que apego,
mais que carinho, capricho ou respeito

O que eu digo não tem validade
e se tiver, não é completa,
você sabe o que eu quero dizer
e, além de tudo, acerta

Aceita

O carinho em forma de presente,
o sorriso com a sua chegada
até quando eu não tenho nada pra dizer,
meu sentimento já disse e você vê

Acredita

O que eu fiz ainda não é nem o começo,
você sabe que não basta bater forte o peito,
nem secar a boca, nem perder o ar
se for preciso, eu peço:
Fica, fica, fica
ficará?

No sonho a certeza do que a gente um dia quis,
o desejo supremo de se sentir feliz
e não há nada que nos impeça ou trave,
a não ser que a gente aceite e se cale

Teoria, irradia, fale,
levante bandeira, brigue,
implique, saiba da verdade,
mas não encare, nem viva,
nem vive, inibe
e por isso pague

Sem considerandos

Não suporto gente chata,
não suporto de imediato
quem se faz de coitado pra sobreviver,
não suporto, me falta paciência
para tolerar os extremos:
Quem clama piedade,
quem se sente na outra extremidade,
tão cheio de si

Não me tem acesso
os capazes de tudo se defender,
os que se acham perseguidos pelo mundo,
estilo de agouro permanente que não cessa na mente

Não suporto os ansiosos de plantão que chegam uma hora antes,
não suporto os atrasos sempre justificados de meia hora,
não me venham com desculpas, nem pra mais nem pra menos,
nem justificativas sempre plausíveis do relativismo

Não suporto quem não se ajuda
e acha que a ajuda dos outros tem que estar sempre disponível,
não insiste, que não dá em mim

Não há súplica na vida que valha o ouvido,
se também não se sabe fazer nada além de falar.
É isso: não tem pedido a ser feito se pode ser resolvido
e solicitação não cabe a terceiros quando o assunto é:
minha própria vida.

Gente chata
gente, chata,
gente…chata
chata! chata!
Cola na porta!…ria,
gente chata, coitada!
faça constar
e publica-se
sem considerandos

Sem hora

É de surpresas que a vida reserva,
é na hora incerta a chegada,
e sinto não te dizer nada,
não respeitar
hora programada

No seu contexto, eu, um pretexto,
na hora combinada, você, preparada
já tem tudo desenhado em esquema,
eu não caio em armadilha
de dilemas

Pra confundir, eu assusto
chego nesse seu mundo confuso,
escancaro a porta
quebrando os minutos

E sinto muito se você não sabe lidar
estou surpresa do seu desconcerto,
ajo rápido e de supetão:
Me dê uma resposta agora
na indecisão, o que for certeiro

De improviso, o beijo
que até isso você treina
em frente ao espelho,
e eu praguejo

Tão segura dos seus desejos
de hora marcada eu não me convenço,
te quero perdida no momento,
dois sujeitos em nivelamento

Habilidade com palavras

Para Ana Poltronieri pelos seus 50 anos de vida – Professora do curso de Licenciatura em Letras/Literaturas do Instituto Federal Fluminense – Entre a pausa do quarto semestre para conclusão de Administração/EaD

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E a gente trocou a sala de aula pelos corredores,
pelas presenças em eventos, pelo olá rapidinho,
trocamos a convivência diária futura
por breves encontros corriqueiros

Um poema aqui, um verso lá
a gente se conhece e se descobre
quase sem se falar

Virtual só pra quem não sente o que a gente compreende:
que o dia a dia é de fato aniversariante porque na etimologia
é o que se repete todos os anos, mas esse dia é diferente pra você…

Entre os riscos e a beleza do cotidiano,
todos nós ficamos, um dia, cansados dos desenganos
e, como saída, o poema: Sempre nos conectando…

Bem-aventurada seja sempre cada nova estrofe, sua quinta.
Felicidade sempre desde o verso zero, ainda virão nove antes de mudar:
Assim a é vida retratada, tão breve, tão ligeira
ainda a ser aproveitada…

Não há de ser mera impressão
se a sua sensibilidade encontrar com a minha
na contramão

Mais perto de uma nova vida do que da morte,
cabe ao poema eternizá-la por pura sorte
porque não traduz nem o mínimo da relação humana…

Pra quem pensava que eu conhecia pouco
pra quem lê e pra quem escreve:
habilidade com palavras, charada:

(Si[lê]n[cio)na]
[ins(e)screve]
(mono)grafia
de inúmeras teses

Poesia menor

Amor da minha vida, como eu te amo!
Se tu soubesses disso com certeza,
faria a gentileza de não me dizer
que faço poesia de enganos,
que faço versos inverídicos,
que eu não te acompanho

Se tu soubesses, amor
o quanto o poeta aqui te guarda,
se tu soubesses, não me pediria
presença em eventos de fachada

Se tu soubesses do teor do íntimo poema,
saberia de antemão que a eternidade dos escritos não cabem,
não cabem na simples recitação!

Ah, amor de minha vida, se tu soubesses o quanto belo
é o poema que irradia a vida como o raio de sol,
não, amor da minha vida, não me pediria, nem mediria
o amor que eu tenho exposto nesse dia,
com a pequenez da natureza humana

Amorzinho meu, se tu soubesses que esses simples versos meus…
não cabem no amor que sinto por ti, nem nessas palavrinhas que escrevi,
tu saberia que de pequeno não há nada que eu disse aqui…

Oras, horas

Dentro de mim há fantasia,
e realidade também
Sei que a poesia brinca
com essas duas verdades
sem dizer porém.

Dentro de mim há
morte e vida, luz e sombra
música viva, música pronta

Dentro de mim há o tédio
há também a vibração,
além de tudo, não há nada
flutuo em contradição

Dentro de mim há transparência,
mas também mora mistério,
hora eu quero, hora renego,
ora, relógio,
ora, o tempo

Ora há Deus,
ora há inferno
ora ao céu,
ora ao inferno,
Há hora
ora, há!

Fardos ilusórios

Pai, cuida de mim
eu já não sei mais pedir,
Você tem feito por dia,
não está no céu,
não olho pra cima,
Você vive do meu lado,
vira comigo até a esquina

Pai, eu aprendi
se não fizer por onde
a vida sabe, não adianta,
não se esconde em desculpas
Mas, se há luta verdadeira
a prece não precisa ser dita,
bendita é a vida em contrapartida

Pai, Você me ensinou
e eu aprendi, antes, na prática,
o que é desejo Seu, motivo do meu clamor
Pai, quando digo: cuida de mim,
Você já cuidou…

Pai, não há como mensurar a dor do próximo,
mas, Você sabe o que é cansaço de quem luta,
e de quem reclama por capricho, mimo de filho
que não encara a vida, e acha, e finge, e vive
dizendo que sabe vencer quando não há problema,
nem motivo, nem fato certo, nada de concreto
farto de ilusões…