Poesiará

Aqui é a sua casa, volte sempre
para a casa do poeta, poeme-se na hora certa
com meus versos rasos, flacidez da vida
versos esses, os meus, desafiadores…

Afiadores, suas dores têm reciclagem,
podem ser transformadas em paisagem…
Suas rugas, marcas profundas das experiências,
ah, paciência com os sulcos, beberam muito, muito
do pouco, do jogo rápido dos dias que passam
para todo mundo

Ah, os meus versos raros fazem você
lembrar de fatos, raros retalhos de memória,
agora, poeme-se, poeme-se eternamente…

Mergulhe fundo…

Afogue-se na dor de outrora
que deixou saudade e foi embora…
O que foi dolorido já não machuca a alma,
não está murcha, mas agradecida por ter vivido
os revezes da poesia também que se verbalizará….

Poetou-se, poeta-se, poesiará…

Sub judice

A inspiração me assalta
e me leva tudo, sem protesto,
nem resisto, e me entrego

A palavra já não vive em cárcere privado,
tem a liberdade decretada em semiaberto…
Já estive em segurança máxima,
condicionado a tantos credos

Desde que fui abordado há sete anos,
desde o começo do primeiro poema em dois mil e sete,
eu me disponho a cada novo escrito dar parte do que tenho conseguido,
para o tráfico dos versos incertos

Não compactuo com a violência,
mas se a verossimilhança me der voz de prisão, é o inverso;
fujo com meu poema-rebelião pela pena máxima do coração

E não me cabe punir ninguém, meu bem, não agora,
por enquanto, por agora, durante todos esses anos,
o meliante esteve encoberto desse crime sem pistas,
desse ato lícito quase perfeito,
não me peçam para entregar o cupido,
o culpado desses gracejos

Não me julgue por um nome, por um culpado,
para dar uma condenação,
vou mentir sub judice
e cair assumidamente
em contradição

Sonho de valsa

Estou suspirando por aí,
sem dor e sem peso,
sem fadiga, sem cansaço

Estou suspirando a alegria
muda e contida, porém crescente,
corrente de desejo, ciente do calor,
do beijo que você depositou

Estou suspirando junto com os pássaros,
com as flores que desabrocharam aliviadas,
alguém passou a amar, mesmo que um momento

Pequeno, o som do romântico é qualquer um
que fale de dois, sem fechar a história,
deixando sugerida a hora de voar o pensamento
para o além do escrito e do cantado

Canto emudecido e velado, mas a minha alma dança,
alucinada, descobre passos novos da vida que me puxa,
convida para a dança de qualquer hora, até meio-dia
alegria que me consome uma pausa, sonho de valsa

Reamor

E eu te quero tão bem
como você bem me quis um dia,
e sei não foi em vão,
nem a sua partida

Ficou essa saudade bendita,
não abriu ferida, mas felicidade
por cada parte sua capaz de me deixar
com a coragem, a carícia foi dispensada

Pelo seu bem maior, seu progresso,
amor liberto, amor, vai, olha pra trás
de vez em quando, se precisar, ainda…

Fenda de carinho que não se fecha,
minha vida também prossegue a lenda
de ter encontrado alguém interessante,
em outro instante a gente se encontra

Nesse ir e vir de pessoas,
histórias que se cruzam,
nosso elo já foi feito…

Carinho ontem posto
permanece guardado
estou esperando as voltas que a vida dá
para reamar, meu reamor sem remorso

Passos pelas Ruas

Para o escritor Victhor Ruas Fabiano

Use tuas Ruas, Fabiano!
Mostra-te em meus planos
como a viela por onde escorrega
os meus versos encabulados,
tímidos e sem saída

Usa das tuas passarelas,
abusa de teus caminhos…
A esquina do teu alvo cívico
cruza com a minha cínica poesia
que não diz metade das tuas linhas
capazes de se cruzarem com as minhas

Que dizer senão e finalmente
do meu desejo de te ler livremente,
de andar sobre tuas páginas
e devorar-te a escrita até quando mentes?

Correr, ó Ruas, pelos teus atalhos
e não raro ser reconhecido pelos passos
que não visitaram toda tua extensão…

Cabe

Cabe na noite que se agiganta,
nessa madrugada que começa,
no anoitecer que prevalece
o poema que tece um aconchego

Cabe o que vem, o apreço,
antes de se aventurar ao leito,
antes da entrega à interrupção

Dormir não me cabe
sem dizer o que não cabe
mais esconder,
o tamanho da emoção

Mesmo que sem jeito,
o que não tem como negar,
o que rola no peito
precisa caber no poema
para parar de rolar na cama!

Um sonho não é o bastante,
sei que não sou o flerte perfeito,
mas o começo está aqui
cabe na palma da mão…

Acredita em polipoema?

Te amo, acredita?
Se não, pouco importa
O poema é a porta do amor,
mesmo que a campainha toque no truque,
vou abrir e sorrir feliz

Se não for assim, prefiro o exagero
de uma vida sem sentido, mas não,
eu não fui feito para alternativa,
não sei vagar sem poesia, romântico
do primeiro ao último verso
até debaixo para cima

Acima você viu o que ninguém diz,
amo até o seu não-amor, meu amor
porque transformo a dor em paixão
e pelo não, pelo sim, lê um pouco de mim,
diferente: pode ler esse verso de trás pra frente,
uma vez mais descubro outra função para poucas palavras

Te amo, acredita?
Se sim, obrigado pelo poema,
senão, pela poesia.

Tenta não amar?

Lê de qualquer forma,
como você quiser,
partindo de qualquer verso,
é só uma pequena dose de amor

Sem barreiras

Eu não tenho mais muros com a vida,
para ela me brindar eu não me blindo,
estou aberto para o universo,
já faz tempo que não tenho o comando

Não ordeno e nem me imponho,
no eterno deixar ir vou me mostrando,
me deixando levar, me entregando

Já não coloco condição para a experiência,
sou matéria pequena da existência
que vai somando e somando
sem escudo e sem guerras

Não luto com a vida, nem tudo é dolorido,
minha vida aprendeu a ver os ciclos
de outro modo, mudei de foco

Já não suporto as limitações da carne,
são correntes fracas que eu me liberto
e sem alarde, eu me jogo e me entrego
até que essa energia me diga o tempo certo
de sair do poema, de ter um lugar além
do além dos meus versos também não concretos

Casa da paralelialidade

Do tempo e do vento,
da distância ao livramento,
sensação do não-existir-momento
o nada é uma graça, reabastecimento

Do corpo, o copo vazio,
recipiente que transborda,
agora sabe que nada importa
já aconteceu o que não se queria

Mas, o hoje, mais hoje, mais um dia
o seu afago paralisa a correria
sem sentido, sem o fio da vida;
estar vivo como experiência

Não me canso das aparências,
de perceber as patéticas
impaciências humanas com o vago,
e eu aqui divago, falando o mesmo:

Quero ser o nada, o vazio que ninguém toca,
quero o que ninguém suporta de resposta,
um minuto de pausa dessa caótica visão torta do tudo,
um segundo de nada, de quatro letras que não dão conta
do que eu falo…

É o nada do outro lado da moeda,
não do tédio sufocante, mas outro;
a outra face; a outra fase do nada;
o significado escondido de muitos;
a terceira e outra realidade;
paralelialidade

Página branca

Uma página em branco
para a madrugada preenchida
com o negro dos pensamentos

Nem tudo está como o planejado;
há alguns anos eu tinha metas.
Não as cumpri

O acaso foi concreto, imprevisível
é a vida assim, que decepciona
e surpreende um lado de mim

Eu não me conheço, nunca soube
ser eu plenamente, um terceto de quebras,
algumas quedas poéticas, enfim

A noite suja o papel limpo,
a palavra me polui, e eu,
reciclo e recrio o que não fui

Por homem

Hoje distribuo poema,
ofereço saudade,
oferto abraço,
doo amor

Hoje tenho lembrado
do bem de ontem,
de como é merecido
o riso de canto a canto

Hoje me permito
ser sincero, ser honesto,
presto-me a viver sem protesto,
sem pudores do ego

Amo e amo sim,
esse seu fingimento
de constragimento por mim
quando digo o fato,
no ato, encantado,
mostro o outro lado
da face do amor

Mostro que posso, sim,
amar outro homem,
e que de homem tenho fome,
e por homem tenho sede
e por homem, a delícia,
o apreço e o beijo
revela-se e prevalece
a verdadeira parte de mim

Reverência ao poema

É a minha melhor brincadeira,
minha maior diversão, meu momento,
a hora da negação da negação,
do meu ser não sendo, meu eu
projetado em nós, em você

É minha maior alegria,
caçada das palavras,
não mata e não agride,
se for pra isso: desiste

Meu poema tem outro adjetivo,
outro objetivo, sou optativo,
obrigação só de paz, reverenciado
sempre e sempre mais a água do espírito,
bebo em conta gotas, mas me afogo
de afagos e verdades, mentirinhas…

É assim que minha criança sobrevive
de um poema leve, livre, vive, sorri
e insiste no sorriso bobo, suave,
no contente de um presente pronto,
posto e rasgado, lembrança de um passado,
desejo de um futuro bonito, poema vivo,
delírio que seja, não importa se sem beleza

Divagar devagar ou corrido, construído
no agito de qualquer domingo sem sentido,
buscando a finalidade quando nem a metade foi dito,
e que acabe assim, em um mito, um rito tolo de ponto final?.

Conversa franca

Precisamos conversar
sentados frente a frente
preciso contar algumas coisas:

A gente sabe a situação qual é,
a franqueza sempre foi a nossa medida,
nossa primeira norma-obra-prima
de qualquer relação, bem sabe

Que o papo não precisa ser dramático,
nem tão sério, nem penoso, sufocante;
Realmente a gente conseguiu outra solução,
amenizando sofrimentos e torturas vãos,
nãos entre eu e você: Não

Jogo aberto é jogo limpo,
o que acontece com você,
o que acontece comigo,
o que acontece com um amigo,
o que acontece, filho?

Conta conjunta dessa vida,
sem revolta, encare e aprende;
não há “a vida filha da puta”,
mas há covardia adulta quando tratamos
tudo como crianças

Encara de frente o seu momento,
o nosso problema; precisamos
da saída para o que você precisa
para não causar a saída um do outro
de ambas as vidas…

Poema prático

Você é tudo ao contrário do que eu tenho escrito,
de tudo que eu tenho dito, você é completamente,
sem sombra de dúvida, diferente, outra realidade

Depois de tantos anos escrevendo descobri
a prática no lugar da teoria, o verso,
inverso da poesia da utopia

O mundo construído de fantasia,
idealização da realidade é distante
da arte constante de não saber
por onde se anda

Sei que os poemas me cobram história,
sei agora que não há trajetória para as palavras
quando se entende que a vida não segue roteiro,
esse é o poema primeiro depois de mais de mil,
aquele que não teve início, meio e fim, mas você

O avesso do começo, meio do fim,
fim em meios, começo de mim,
início para nós

Rabisco de poema

Tudo caminhando e eu sigo me perguntando
se posso invadir a sua vida, conhecê-la mais,
quem sabe, desestruturá-lo, tirar você do eixo

Não sei se eu mexo com seus alicerces,
se a minha manobra pode desmontá-lo,
serei eu o culpado de uma alma que padece?

Serei eu o pretensioso mestre
capaz de ensinar a um aprendiz
tão bem, também, sábio?

Eu causarei esse incômodo?
Serei eu mesmo o vilão que suponho,
capaz de te tirar do conforto aparente?

Temo correr o risco,
de eu ser pra você um risco,
arrisco ou te risco?

Viajante

Eu sou uma pessoa que deve agradecer à vida
por não me dar tudo quando eu peço,
por me fazer esperar, e às vezes, ser o último;
ser o primeiro a chorar, o primeiro a sofrer,
o primeiro a tentar de novo, o último a realizar

Eu devo ser generoso com as quedas
e compreensível com as feridas abertas;
Eu sou aluno da vida em repetência
que não vê nenhum demérito nisso,
consciência

Paciência para ir além, corrigindo,
aprimorando, não lamuriando perda de tempo,
experiência não se dilui com passagens

Viajo por essa vida assim mesmo,
retardatário para alguns, apressado para outros,
no tempo do meu passo, respeito a minha caminhada

A estrada não disputa comigo corrida,
sou de todo um sábio quando não jogo
comigo, com o mundo, com a disputa
sem sentido com o outro

Amadureço nessa jornada quando percebo,
nas madrugadas regadas às reflexões,
que, pelo sim ou pelo não, quem é o último,
não raro, sabe o prazer de ser o primeiro
a ver a vida mais a fundo, compreendendo
a grandeza da viagem por esse mundo…

Para outra pessoa

Teu escritor favorito, exclusivo e anônimo
descreve tuas linhas, teus traços, teus pontos
reconhece em ti o outro lado do próprio sonho
percebido às claras, um incômodo

Tu, segunda pessoa do singular
do meu presente subjuntivo,
que tu saibas dos teus valores
mesmo que para o homem não
possa eu mensurar importâncias

Destas torpes ganâncias do ego,
do teu eu que não entende de mim,
desejo meu de expressar outros sentidos
porque não há a possibilidade de equivalência

Quando falo de segunda pessoa,
tu sabes, é sempre complexo,
cada ser único, individual,
indivisível, matéria indissolúvel

Por isso, não cabe qualquer métrica,
qualquer medida paliativa que sobreponha
tua melanina diferenciada, teu corte de cabelo,
teu jeito de falar, teu gosto pelo mesmo corpo

Não cabe para tu o mesmo peso, o mesmo remédio,
não cabe para tu o mesmo sentimento, isto é um…
retrocesso comparativo, não existe eu igual a fulano
até porque, o outro, seu bealtrano, não é beato nem um tanto!

Reconhecimento de saberes, competências e sentimentos

Em homenagem à Hélia Coelho de Mello Cunha pelo seu legado pela Educação. Mais do que pelos três períodos durante o curso de Licenciatura em Letras/IF Fluminense pela disciplina de Leitura e Produção Textual I, II e III, mas por toda a trajetória de dedicação, comprometimento e amor que ganha uma nova fase.

(Poema inédito: com subtítulo: Averbação para magistério)

Aí eu fiquei pensando,
depois do anúncio feito,
depois do fato concreto,
já premeditado e dito,
naquilo que foi posto:

Quanta história, meu Deus,
está descansando, desacelerando,
quanta vida, quantas vidas modificadas:
A sua, a minha, gerações abençoadas

Privilégio da sabedoria não apenas transmitida,
mas interiorizada; aquele saber que transpassa
cadernos, frascos de tinta de caneta, celulares…
carbono que roda, pó de giz, quadro branco, vidro;
máquina de escrever, transparência, slide,
aqui, não faço jus nem a mera metade…

Por enquanto, o descompasso da inacreditável
(in)finitude do magistério; egoísmo de saudade…
Daquilo que passamos, histórias para contar;
tempo também que iria vir (talvez virá)

Tempo para julgar não tive
tempo para absorver não tive,
tempo para dizer não tive,
tempo para dimensionar não tive,
nem quero ter tempo para esses serviços

Não averbam no coração
as despedidas inconsoláveis
de um ciclo de artista
e do legado da arte

Nova via de poema
de quem segue o mesmo caminho,
mas não deu conta naqueles versos,
que, para você, vão além da vaidade,
brotando em desalinho

Aprendi, caminhando para a segunda metade:
ante os meus vinte e três poucos anos,
vou continuar venerando quem iniciou nos idos dezesseis
a luta sem pesar de uma paixão

Mestres e doutores, a hierarquia da educação não comporta
o que, afinal de contas, nós dois já sabemos:
Quando o amor pelo humano se agiganta,
eu beijei a sua mão, agradecendo à moda antiga,
aquela que deixou de ser professora para virar amiga,
até depois da aposentadoria,
até depois…

Além do gozo

Hoje descobri que o meu desejo por você
vem de outro canto do meu ser,
não do lado animal que reproduz
orgasmo, líquido espermático,
que frui

Meu prazer constante, a sensação do gozo sem fim,
vai subindo manso e cauteloso, como o desejo pouco
de tocar seu corpo, acariciar o rosto,
descobrir o seu toque e o seu cheiro

A forma como você fica sem graça e vermelho,
o contentamento dos seus pelos fora de controle,
circulação do sangue que não te obedece,
seus olhos fechados fundamentam a tese
da maçã do rosto que, elevada de vergonha,
sabe muito bem compreender a entrega que vence

Sei que o seu personagem não queria
demonstrar a fraqueza que um dia
sua alma desdobrou, eu sei e você sabe,
e confirmo pela arte, o que pela arte você esconde:

Seu desejo viciante pela mesma carne,
pelo que você já conhece no espelho,
mas deseja em outra pessoa, o mesmo jeito
de fazer carinho

E é isso que me sustenta,
não a loucura pelo ato animalesco
que coloca dois corpos em um leito,
mas o afago do apreço
delicadeza do começo
além da carne e do beijo

Boa leitura

Que te falta senão
a despreocupação do livro,
café amargo com história forte

Que te falta, leitora avulsa,
senão o volume dos grossos livros
presos com vinco, senhora
para acabar

Que te falta o descompromisso,
a graça, leveza das interrupções,
faltas na estante que carecem de preenchimento

E ainda assim não completar teu sentido

Sem hora para fechar, tua livraria favorita
recebe hoje qualquer escritor-artista,
e teu objetivo abaixo do braço
não tem obrigação nem prazo para autografar

Boa leitura

Tríade do poema

Têm palavras que não merecem chegar até você,
não por vergonha ou medo meu, mas responsabilidade
comigo, com você e com a arte, trindade do poema

Têm versos que merecem você, mas não posso pedir: leia?
se eles revelam o seu rosto, se são seu espelho: veja?
se narciso quando se encara, admira: fará o mesmo?

Já não sei se posso causar dor e tenho medo do remorso,
pois já não posso conviver com seus choques existenciais
quando perceber, tarde demais que as palavras falam de você

Receio confessar que você é meu material, minha pedra bruta
receio macular aquilo que é raro na natureza, carece de cópia
ainda que por hora eu ouse guardar você em vias de papel

Sinto o peso que essa profissão me traz sempre uma vez mais,
sinto que estou perdendo o controle e ela me domina, não veto,
sinto ser o certo que no fundo é meu amor que grita: poesia….

Nós em dúvida

Já misturei tantos sentimentos
que não sei se estou apaixonado,
ou se é você o apaixonante,
não sei se represento o mundo
ou o mundo é que se representa em mim

Não sei se sou eu ou se sou alguém,
bem, vem, me permite a confusão,
perdoe esse turbilhão de dúvidas…

Nada muda, é verdade
você não arrisca,
não se permite,
e eu, cá dessa outra metade,
estou tão dividido, vai?

Vaidade já não carrego
digo o que por anos renego.
Afeto eu quero, quero você
mesmo que eu não diga.
Você sabe que sim,
sabe de mim,
sabe dos nós
sabe como desatar

Cama de gato.
Labirinto.
Nem tudo é cama.
Você entende que eu não minto
para nenhum de nós,
que já estamos unidos
mesmo sem querer

Mesmo não conseguindo passar pela sua mão aquilo que sinto,
certo ou errado, esses muitos lados não terminam jogo nenhum,
se foi um…

Aceno agudo

Que diabos importe os meus poemas,
que já não se fazem escorridos de tinta,
que já não maculam papel, sujando minhas mãos,
feridas da pressa escorregadia

Daquele que diz o que queria com a mente,
como se verbalizasse, como se declarasse
pela oralidade corriqueira e ágil,
o que não é fácil manter permanente

Que por deuses minúsculos esta agonia
de saber que a arte, de vez em quando,
não tem importância nenhuma, só serve;
ela só presta, para descarregar a adrenalina
que a palavra conduzia, ansiedade sufocante

Eu não sei quem vai me entender,
mas também não me importa saber,
se tudo que aqui caiu, caiu porque quis,
eu nem sei sequer o que eu digo, fico perdido
tentando me fazer compreender

Mas eu acho que há quem me saiba ler,
cuidadosamente, perceba que o que não digo
é o que está explícito, sem mesmo expor

Sei que você também se perde nas suas alucinações,
a literatura é apenas essa persona, essa criatura
que ganha vida própria, que respira, e implora
mais um segundo de reviravoltas
sem sentido

Sendo grave, aceno agudo

Cruzadinhas

E então, qual é a sua?
Passa por mim e olha torto,
do outro lado da sala,
do outro lado da rua

Você não disfarça,
encara e vira a cara,
olhares se cruzam

Não sorri e nem desarma,
não sei se faço piada,
não sei se devolvo,
se provoco, se estou louco

Olha demais, investiga, sonda,
afinal, afinal de contas,
o que você quer?

Esse cruzamento de dados,
são fatos que não se contam,
mas são percebidos

Mesmo que você não dirija palavra,
nem se esforce para ser sequer amigo
E assim o dia passa, o tempo passa,
passa todo mundo, e você, o último a sair,
não saiu de mim e nunca vai…

Vai…
Hoje eu sei até que ponto seus olhos
iam tanto até o fundo de mim,
Vem…
Eu também percebi, sei tudo que se passou,
e a gente não teve coragem de conduzir…

Sem mil vezes dizer que amo

Tem alguma coisa me incomodando,
há algo que me aquieta, mas a palavra
não laça e não sossega

Tem alguma ira, um desconforto contido
sei que isso não me pertence,
nem nunca andou comigo, perigo

De que minha armadura linguística
se quebre, sou tudo, o todo
de uma peste que se propaga,
sou vaga, mas também
mágoa que não aceita o castigo
de morar enclausurada no fundo do peito

Sou toda palavra que o corretor,
redundante, marca de vermelho e corrige
sou a falta de controle que o cérebro agride
a mente, a mão, sou de um turbilhão….

Gira, arrasta, carrega, sou cega,
perdida, sou fita perdida no vento,
um lamento do passado preso na garganta,
sou a manta que não aqueceu,
sou seu sem ter sido,
sou um inconformado escondido
no amor que não disse, sentir
senil