Beldade

Seu olhar é uma graça
que o meu olhar contempla
menino, não sei o que se passa,
mas já não sei mais fazer poema

Não com a delicadeza
que o seu rosto me solicita,
sei que sou poeta, mas seu corpo
é de artista

Dessas formas que a gente não traduz,
só teoriza, desse jeito com muita ou pouca luz,
desestabiliza

Não sei se a palavra é suficiente pra você,
se o meu sentir está pulsando manso no peito,
sentimento gostoso, um dengo, carícia d’alma
com respeito

Daqueles que olham o belo
e ao belo cultuam,
daqueles que olham o belo
e depois do belo,
tudo muda

Entrega noturna

Ficaria
a noite toda
conversando contigo

Gostaria
toda noite, a noite toda
abraçado no que for meu

Sei que
cada um entrega o que tem
sei bem
cada entrega que a vida me fez

Talvez o presente
não seja aberto agora
por hora, toma
abre amanhã

O meu eu já recebi
e estou desembrulhando,
desdobrando em vários
e até nos versos

Cedo demais

Estou tentando escrever
um poema de rotina
pra que não se quebre
essa mania de versos,
essa terapia não quero
interromper

Esse sábado tranquilo,
dei folga para o espírito,
dei atestado aos compromissos,
não quero obrigação

Curti a vida sem planejamento,
abri a porta do acaso e deixei,
deixei você vir

Com uma música boa,
sem nada na agenda,
comida gostosa na mesa,
cesta depois das onze

Cochilo bendito,
reflete a vida,
reflexo da corrida
que ninguém vence,
que ninguém perde,
mas absorve

Centrado e entendido
sei até onde cheguei,
sei onde quero chegar
sair desse não-lugar
pra sempre

Transformei, permiti mudança,
cansei de ser um velho em corpo de criança,
uma criança que não soube viver,
cansei de ser responsável e controlado por tudo

Quero ser mudo, nada de me justificar,
quero falar menos e talvez não ser entendido,
não deixar nada implícito, mas mesmo assim,
ter a certeza que você me lê
na interpretação que eu quis dar…

Ainda cedo demais,
eu, cedo demais

Prato principal

Estou me alimentando
da sua poesia,
da sua música,
da palavra certa

Meu corpo reproduz
a energia que chega,
não dá pra viver
com a alma seca

Bebo seus versos,
seus meandros,
estou me alimentando
para matar – viver –
o significado da palavra

Ainda vaga, um doce,
palavra limitada,
prato de entrada,
cortesia na saída

Só quem ousa levá-la
ao prato principal – poeta –
morto de fome, vive respirando,
observa, constrói poema
e vai soprando,
vida quente.

Poesia favorita

Sua leitura assídua
recria em minha poesia
a fonte de inspiração
reinventada e revestida
do brilho nos seus olhos,
energia bendita

Minha poesia favorita
tenho tanto pra contar,
temos tantas linhas ainda
será… será… seria de imediato
ou é poesia metalinguística?

Percebo, independente de tudo, energia que flui,
ansiedade, necessidade, libido,
que a sua leitura possui

E eu, encantado com tudo isso, vejo um ponto de luz,
sei que há energia no átomo,
princípio de todos os casos,
o choque das partículas conduz

Vejo a epiderme arrepiada
e o firmamento de madrugada
como parentes próximos,
são milhares de pontos,
esse desejo reluz

Como o êxtase e o desespero
pela fuga das palavras pelos dedos,
sei que você me entende e recupera,
na sua leitura agitada e ansiosa,
o primor do prazer potente
que une quem estava separado
pelo destino valente,
capaz de preparar você e eu
para um encontro frente a frente

Dois apaixonados pela poesia
porque ela explode feito o big bang,
e nos aproxima, apropriando-se da gente

Para Thalisson Noberto

Perto de mim

Tive um insigth com seu nome,
uma energia forte rasga todo o meu corpo,
eu sei que faz anos, não esqueci do seu rosto

Recorri ao passado
sob horas adentro,
a madrugada foi um fato
pequeno

O que é uma noite de música
perto de pretéritos anos,
seu carinho ficou guardado,
um amor que foi se recuperando

Sei que esse poema é pouco
para o que eu tenho a dizer,
sei de tudo um pouco
e do muito que é o zelo por você

Nossa cantora nos uniu e nos separou,
estradas dessa vida que tomaram rumos distintos,
mas meu instinto não sossegou

Minha alma, meu amigo querido,
não desgrudou do seu apreço
e sei de um fato:

a vida fez um contorno
para eu ter sua mão de novo
aperta, perto de mim

Assim que eu te quero,
não vai mais embora,
fica comigo, fica comigo agora

Sinto tanta paz em meu peito,
você tem uma energia leve
dessas que quando a gente sente
cabe ao poeta apenas a prece,
a prece do poema

————-
Para João Pedro Oliveira, amigo de longa data.

Sentimento histórico

Não vamos em um primeiro momento
de relacionamento amoroso
Tocar nesse assunto de imediato,
é um fato, um desgaste horroroso

A amizade deve vir primeiro
para a construção do solo sólido,
e não de uma rocha porosa
de um envolvimento precoce,
percebido por expectativas

Conhece o terreno,
arqueologia d’alma
que se descobre empática
pela sua voz doce e válida
para comparar a veracidade
dos seus lábios esparramados
em um sorriso que diz muito
para os dois envolvidos,
convite aos antigos,
desejos desenterrados
ainda vivos

Semente

Fora que eu já chego
meu corpo é seu maior apelo
sinto que não me tenha
sou ferrenha quando amo,
alma sedenta

Sou as garras de fora
ousada, não bato a porta
convido para se entregar

Não aceito chá, nem calmante
não fumo, nem bebo, seduzo,
não sou cartomante

Confundo seus sentidos
com meu corpo rígido,
sem expressão

Sensualizo de outra forma,
não mostro o meu corpo,
nem minhas pernas vulgares

Sei que de tudo sou de fato
melhor que seus muitos ares,
mesmo que não lhe dê confiança

Não sou a vendida da esquina
fácil como nota de cinco,
não me faço rara como nota de cem,
sei que não valho,
não sou comparada nem comprada por ninguém

Seu status não me encanta,
seu dote não me anima
não sou santa, mas seu crachá de bacana
não levanta o ânimo, sinto muito

Se isso é o que lhe prende, aprende
que eu não preciso desse seu corpo doente,
dessa mente perene, atitude que não muda

Sou muda, filha do meu próprio ventre,
astuta, vivo o sempre e o sempre da semente
que nasce, cresce e cai,
reinventa-se

Escolha nítida

Quando eu finalmente
pus os meus pares de óculos
sob a mesa esta noite
contemplei, inesperadamente,
com a vista turva por falta de correção
que a minha escolha por você, por amor,
não se justifica, mas mesmo assim é.

É sim, sei que é uma forma dolorida,
incômoda, não só aos meus olhos,
– também à mente -, essa constatação
reflexivamente, chata

Ora, porque eu não sou nenhum idoso
capaz de abaixar os corretores da vista
para pensar, repensar a vida, simplesmente!

É sim, sei que é incoerente tirar os óculos
e escrever, redigir com a forçosa falta de nitidez
sobre alguém que eu escolhi sem critérios
com a visão perfeita e limpa

Ora, mesmo que fingida por aparelho,
com essa falsa tecnologia do vidro
que tudo expande e esclarece,
– refletido olho cru no olho espesso –
o que não teve justificativa de enxergar!

Cruz e fixo

Para Luiz Claudio Abreu – Instituto Federal Fluminense – Licenciatura em Letras pelas disciplinas de Trabalho e Educação; Psicologia da Educação e Teorias da Aprendizagem nos três semestres iniciais desta graduação.

———————————————–

Não quero a palavra
como carícia sutil,
não quero a palavra
como vilã, nem nada
arma do enunciado

Resguardo o princípio do respeito
seu credo, seu batuque, seu apelo,
suas duas mãos juntas, seus lábios
unidos em orações decoradas

Não tenho a verdade isolada,
alicerçada em qualquer único Deus
oriente, ocidente ou medieval,
nem as perguntas filosóficas
que formaram a base da ciência
puderam me responder

Recorro à mitologia
ou às palavras bíblicas?
Elas se equivalem ao desconhecido?

Sou homem esculpindo arte
com base em que tipo de sujeito
de que material é feito meu espelho,
de onde eu me olho, sou perfeito?

Nos mitos, nas cavernas,
nas indagações aristotélicas,
nas águas do rio de Heráclito,
nas ruínas do Egito, hieróglifos,
achados romanos da força,
na Palavra que atravessa os séculos,
antes ou depois de Cristo

Cruz e fixo, dono da verdade?

Serviu

Da dimensão do seu sorriso,
pude sorrir contigo
quando o meu corpo,
minha mente e espírito
careciam de tudo,
principalmente, abrigo

Do mistério dos seus olhos
pude observar o que agita,
sua pupila encontra a minha,
investigativa

Da suavidade dos seus lábios,
pude tomar por certeza esse sabor,
mesmo tímido e deslocado
há necessidade da palavra

Da sua pele, não digo nada
que o tempo ainda não permitiu,
se sou assim humano,
se sou assim um fardo,
do cansaço, sua mão surgiu

Do seu afago abençoado,
inesperado e gentil
sou de todo um sortudo,
tendo a piedade da vida,
notando o quanto o outro pode ser vil

E se sirvo para você também de agrado
meu poema ainda não perdeu o significado,
de um modo ou de outro, a cada um de nós,
serviu

Boa noite

Tenho cuidado com essa louca
curiosidade que desperta em mim
mais que a descoberta de um segredo

Peço passagem para o mistério,
caio nas graças do revelado,
o que foi vedado a todos,
mostrado a mim,
humildemente

Poucos me acordam do profundo sono,
desse assistir entediante da vida
que tem se repetido, repetido
repito, repetido sem mudança
totalmente previsível

Impossível não atentar
a quem quebra o ciclo
ridículo dos cálculos humanos,
daquele velho e mofado plano
de saber o que vem aos meus ouvidos

Estou cheio de palavras vazias,
farto das carícias premeditadas,
sou reflexivo e refletido na arte da palavra,
não tolero senso comum, incenso comum
que nem ao meu olfato traz cheiros novos

Fica o agradecimento final pelo arrepio da pele,
por ter acordado a epiderme, dilatado as pupilas,
as pílulas não me fizeram dormir essa noite,
e você é o mais valioso gracejo, saudação

Boa noite para quem viu o dia nascer
diferente

Versos gotejados

Careço
do teu
do meu
desejo
juntos
teu corpo
reto,
meu corpo
ereto,
sou seu
coberto
do amor
Sou feto
desenvolvido
cresci
com tuas carícias
com teus fogosos
afagos que há
de vir
de mim
pra ti
de volta
nestas
linhas curtas,
minhas rimas,
teus versos
Meus escritos
de pausa
de paixão
reinvenção
do poema
Tuas pequenas
palavras amenas
não suavizam
o teor dos grandes
sentimentos

Nós

Eco da minha mente…
divide comigo o mais difícil:
opiniões e visões de mundo

Tão somente teu carinho me espera
na ansiedade daquele que, quem dera,
pediu companhia próxima, mas não, não
acreditava na agilidade do atendimento

Agora atento fico eu, certo do que Deus me deu
se não um novo amor, amor, um amigo novo, convenceu…
E ultimamente as minhas palavras têm sido poucas,
os meus versos quase raros, mas o meu sorriso raso
escorreu pelos lábios, tamanho contentamento inesperado,
um achado desse lado para o outro lado do meu eu

Mas de nó em nó e devagar a corda de amarras se constrói,
laços de felicidades que o tempo não corrói
aos poucos e com os devidos cuidados
um bocado de nós dois

Silenciar

Tem alguma coisa aqui dentro se agitando,
que incomoda, que desloca, que não se aquieta.
Sou inquieta, penso sem palavra, sem pronúncia…

O silêncio conforta, acalenta, sou louca
pela minha mente briguenta que na maioria das vezes
cala a minha boca, a minha mão, qualquer vão de expressão

E eu ainda quero entender o que é a arte
um diálogo com o mais profundo em mim
antes de falar do outro

Que sentir é esse que provoca
o enigma maior do eu, dos nós,
que nó é esse que não desata,
sem brecha nenhuma para o desenrolar,
sufoca, convoca a novas tentativas,
mas não me liberta, não sai de mim

E nunca vai sair…

Há quem diga: cena
outros: sina
Eu: sento e me conheço
sem me conhecer
escrevo

Doçura

Deixa que eu deixo a deixa
dessas doideiras doloridas do amor.
Digo, demais, eu falo, eu sei
o desgaste do exagero desmedido

Dor não combina com o doce sorriso,
seu, meu e dos nossos doidos vícios
que buscam descaradamente confortos
eu e você, um no outro, sem contrato

Desespero, não, não me entrego…
Desacelero a ansiedade pelo seu afago,
que graça, de graça esse desejo
de te ver bem e me ver bem no seu olhar

Demasiadamente uma vontade de permitir
ser assim sem compromisso, sem amarras,
digo, sem cobrança, que desperto
decerto a espera do que você puder me dar,
doçura.

Bom dia

Já diz o dia quando o sol nasce
que não é tarde para a sua companhia.
Amigos chegam a todo momento,
fortalecem a certeza do acolhimento.

Não é uma mera conquista que se comemora,
mas a comitiva se alegra porque você transforma vidas, pudera,
mostra a vida a capella

O objetivo não é importante, não é o topo do mundo,
mas você soma os fortes e os fracos na subida,
alegria escondida na liderança

Não é criança em espírito, sabe disso muito bem,
não há marcha entre o bem e o bem, não vencerá ninguém.
Sabe que constrói o importante, mais que admiração dessa gente,
sabe que a torcida é grande, cercado desse amor valente
que topou com você desafios, cruzou seu caminho em paz.

Não há perigo em vista, a vida é alegria protegida,
companheira que partilha tudo de benções pra você,
pois sabe que o melhor dos pensamentos pode trazer
somente aquilo que você desejou, o amor oferecido

Não há trocas, compras nem vendas.
Os bons sentimentos não são cambistas de esquina.
Aquilo que você quer dar na verdade se cria,
outro ponto de luz que nasce outro dia

Seja forte e sinta que a vida, sempre bendita,
ensina eu e você que o nós não é plural,
a força, a garra, a energia do que não foi feito não é impossível…

Some novamente mais alguns amigos na estrada,
segue adiante e firme a caminhada que eles vão aparecer
e unidos, você com os seus outros ser vai dar conta do recado
a missão nunca chega ao fim

A noite, escuro, medo, o negro, o outro lado,
não tema, nem merecem tema especial
é a outra fase da vida, a morte,
a outra face da moeda, tão natural
como o dormir humano, só que mais belo
quando se acorda deste lado

Sua legião, horda do bem,
vão seguir se avolumando
cruzando seu caminho
vidas e vidas cheias de história vão cruzando.

Cumpra o pouco que lhe foi dado, ainda com ajuda.
Você já percebe quantos foram encaminhados,
auxiliados pela sua conduta, não é hora, definitivamente,
de se sentir cansado quando se compreende mais abertamente
qual deve ser sua postura, você foi convidado
para ser a ruptura entre a noite o dia,
dois atos que não se separam,
bom dia!

Só

O que eu conheço de mim
não é nada na humanidade.
Se descubro um homem,
não descobri todos

O singular sou eu, individual,
mas eu não sirvo de amostra,
não sou útil em estatística…
Como linguísta também passeio na área
matemática

Sou ciência humana, sou palavra,
sou expressão da minha vivência,
minha própria marca registrada
é a forma como disponho calada
cada fala que um dia vai ser proferida
na leitura erudita de um poema
que não disse nada de mim nem de ninguém

É só arte que não cabe no só

Quando o poema acorda

Enquanto dorme o poema no meu peito,
enquanto respira um sonho tranquilo…
Feito por mim não foi ainda

Depois que despertar leve e suave,
o poema vai abrindo os olhos d’alma,
sereno e turvo, não sei qual palavra…

Escolha, acolha comigo cada verso,
recolha da cama o que vem amanhacendo!
É mais um dia que começa para uma nova estrofe

Com sorte a sensibilidade não tem nada de flor,
aflora em tudo, sendo um instante de vida nova
que vive enquanto o poema anterior já deitou
em todas as suas escolhas sintgmáticas
pra descansar eternamente…

Quando crescer

Na fase adulta do corpo pequeno
perguntam o que eu quero ser quando crescer.
Muitas respostas na ponta da língua
a confusão é certa, uma graça de artista,
que quer ser múltiplas coisas
quando a espera é a uma só resposta

Na fase pequena do corpo adulto
já não há resposta para o que eu vou ser amanhã,
eu já não sei quem eu sou, nem espero mudança…
Conformado com um passado que não realizei,
sei que não tenho resposta alguma para múltiplas perguntas..

Dirigida

Beberiquei do seu sabor por uma noite,
coisa pouca, quase nada, condenada
a ser vista de exemplo por consolo e sorte

Dirijo sem pressa e sem destino
já que nosso carinho foi interrompido,
pois já eram sabidas algumas horas sem contrato

Nada refresca a minha garganta ressequida,
imprimo mais força ao carro na subida…
Esse porta-copos próximo à marcha não guarda
nada que seja suficiente para a minha dolorosa solidão

A esperança sempre fala mais alto – Por que não? –
de ter uma surpresa, novidade, em contrapartida…
Você frustra qualquer mirabolante expectativa
que minha mente projeta para o nosso projeto-saída

Fui vencida, suprimida, não digo nada além;
não sou dramática, nem suicida, ao além
não vou tão cedo, apesar de pensar em escape

O amor enlouquece qualquer um que queira
jogar uma partida… Sou contrariada…
você contra-ataca… E eu atacada…
Escrevo na colina, colhida de remorsos
que só cabem em mim, culpada dos fantasmas
de uma letra mal escrita, válvula de escape
de uma vida não dirigida.

Então…

Então eu sei do que somos capazes
quando acreditamos que podemos…
Então eu já sei das dificuldades
quando nos queremos perto estando distantes

Então eu sei o quanto persistimos,
contra a maré, nadamos e andamos
ouvindo “sim” em muito “não”,
jamais desistiremos

Então eu sei que a maioria não compreende
o que só você e eu vivenciamos, desculpem,
eu peço desculpa aos tolos que não não poucos,
verão, eles todos, o quanto se surpreendem

Está pensando que vai sair impune?
Então… eu só queria saber
se você queria casar comigo…

O quando

Vontade não me falta de ser eu,
mesmo que dê trabalho,
mesmo que meus sonhos sejam incansáveis,
vou buscá-los

Meu espaço ninguém toca,
meu olhar tranca a porta
e só eu digo: quem entra e sai

Eu não admito que me invadam,
nem mesmo o melhor e mais plausível
dos seres que eu considero de valor

Jamais alguém arromba e põe abaixo
as portas do meu interior, nem em assalto.
Não estou trancado, cadeados quebram fácil

É uma questão de respeito com o meu eu,
a unidade, o singular, a exclusividade
de ser eu vai ser preservada até quando
o quando deixar de ser advérbio de tempo

Quando o quando for o meu eu,
de vez em quando você vai entender
os meus tantos prazeres e defeitos,
mesmo os adjetivando de sujeito

Cólera

Sentir a palavra na pele
a mover a ira, o amor,
o ódio, o que for…
Provocar desconforto

Ser o encosto do que não se quer ler,
a obrigação do que não quer ser visto;
o meu mundo encantado está se diluindo

Vou na veia, fazer o corte profundo,
dizer que te odeio bem mais do que todo mundo,
jogar na sua cara a agressividade sempre contida,
eu não vou mais deixar você me ultrapassar na corrida

Quero que sinta o poder da palavra que corta,
cansei dos afagos, do carinho do abrir a porta
nas madrugas frias dos seus erros imundos

Espero que erre e erre de novo, que chore,
que grite, sentindo a solidão, o carinho
que você procura, não vai ter mais, cansei

Agora a minha palavra vai mostrar o outro lado meu,
o meu poeta vai ser trancado na tortura, molestado,
condenado sem regalias, sem prevenção alguma

Agora eu digo sem a preocupação da sua ferida aberta
e que ela arda, como arde a cólera quimera.