A canção dos amigos

 

O que eu mais admiro na nossa amizade
não é esse laço de cumplicidade, não
não é esse jeito de irmão, tão pouco
porque isso a gente já sabe a explicação

O que mais me encanta não é a forma,
ora, não é esse seu tom de quem me entende, não,
digo a você que isso não é suficiente pra mim

O que eu gosto na gente é essa troca de palavras
onde um ponto, uma vírgula mal colocada
é a intenção do nosso estado de espírito

Porque sabemos ao longo de tantos anos
que qualquer toque estranho, qualquer olhar,
qualquer outra maneira de se expressar diferente
nos denuncia, nos faz acertar que o outro vive melancolia

O que mais me admira é esse nosso jeito de descobrir
mesmo tão distante o que o outro pensa, ou o que não pensa, também.
É essa nossa esquisita ousadia que poucos entendem
e que muitos e muitos não compreendem o que é sentir

Essa nossa mania de se recolocar a disposição
de reinventar a cumplicidade na capacidade de se fazer
além de amigo, um irmão; E além de irmão, inspiração;

Para esse companheirismo que segue por anos
e que nos rege como se estivéssemos começando agora
a canção dos amigos

Horizontal

Competimos por notas na escola
por status na faculdade
competimos por reconhecimento no trabalho
e até em casa, por generosidade

Competimos por ideais, embora as ideias não sejam nossas
competimos até por crenças, coisa que não importa

Competimos por medalhas, por poder e persuasão,
competimos de quando em quando, até por opinião

Competimos até na arte, entre nossos irmãos
competimos, veja só a banalidade,
por amor não correspondido

Competimos até por falsidade para tentar se redimir
da insanidade que é a própria competição

E não falo aqui em ser o melhor, não é essa a intenção,
antes fosse, que pelo menos se justificava algo em vão
mas aqui, de verdade, só competimos para sermos superiores,
para sermos melhores que o outro, para nos fortalecer o ego

Assim espero que dê certo por algum momento
porque, no fim das contas, o orgulho machucado
cedo ou tarde abre espaço pra compreensão

De que podemos competir e desejar a melhor posição
mas todos vão à horizontal para o grande fim
e se não me engano, todos ficam no mesmo plano ali

Envenenamento II

O amor, pai e mãe de todo sentimento
é antídoto e veneno em nosso ser
porque nos é entregue para doar.

Não é nosso nem quando achamos
que temos esse direito

O amor é do outro e para o outro
assim como qualquer sentimento;

Não somos seus donos
apenas somos pontes.

Quando contraímos para nós
aquilo que é de outro
certamente que nos envenenamos

E essa ação em cadeia tem matado
homem por homem por dentro,
por puro egoísmo

Pois cada um preserva o que não é seu
e espera do outro o amor que ele
teria que doar, o antídoto

Mas cada um tem se transformado
em suas próprias cobras
produzindo o amor do outro
e se matando por aquilo que deveria salvar

Personalidade

Você conhece um lado meu
que mais ninguém conhece
talvez nem mesmo eu

Porque as suas percepções
às vezes, não são ditas a mim
mas montam quase que perfeitamente
meu perfil sinceramente

Tem esse talento fenomenal
de me dizer, de forma fraternal,
o que eu não reconheço
quando tento retirar máscaras
mas usar luvas em meu ego